F1 – O que significa o novo contrato de Leclerc com a Ferrari?

Charles Leclerc e Sebastian Vettel

Por: Adauto Silva

Hoje ficamos sabendo que o excelente Charles Leclerc vai ficar pelo menos mais 5 anos na Ferrari e muitos estão comemorando o fato de ele finalmente se consagrar como primeiro piloto dos Vermelhos.

Será?

Apesar da Ferrai ter prorrogado e triplicado o salário de Leclerc para USD 9 milhões por ano até 2024, esse não é salário de piloto top na F1.

Hamilton, Vettel, Ricardo e Verstappen ganham mais em seus atuais contratos. Hulk ganhou a mesma coisa esse ano e Bottas também. Então, das duas uma; ou a Ferrari pretende manter Vettel com seus USD 40 milhões por ano, ou vai trocá-lo por Hamilton, Ricardo ou Verstappen para 2021. A segunda opção no momento parece muito mais provável.

Para se ter uma ideia, Rubinho e Massa ganhavam cerca de USD 10 – 12 milhões/ano nos seus últimos 5 anos na Ferrari. E isso já faz bastante tempo…

Apesar de – como dito acima – ser muito mais provável e Ferrari dispensar Vettel no final de 2020 para colocar Hamilton, Ricardo ou Verstappen em seu lugar, o ano que vem não deixa de ser uma chance derradeira de Sebastian Vettel dar a volta por cima mostrando que ainda é capaz de liderar a equipe mais famosa do mundo.

Pessoalmente não acredito mais que ele seja capaz. Desde 2013 – quando ganhou seu último título com a Red Bull -, Vettel entrou numa decadência técnica e mental da qual nunca mais se recuperou.

Em 2014 foi batido muito facilmente por Ricciardo na própria Red Bull, equipe na qual ele tinha vencido seus quatro títulos em sequência e teoricamente era o “dono do pedaço”, assim como Max Verstappen é hoje. Aquilo já foi um presságio de seu início decadente, apesar que para muitos fãs ele perdeu “de propósito” para poder se livrar do contrato com a Red Bull e se mudar para a Ferrari.

Eu nunca acreditei nisso. Eu fui piloto, conheço muitos deles – muitos mesmo – e sei que nenhum piloto perde de propósito nunca em categoria alguma, muito menos na F1, que não perdoa esse tipo coisa.

Mas os Vermelhos, emocionais como sempre e desesperados por não terem um piloto de ponta, já que o chefe de equipe na época Marco Mattiaci brigou com Fernando Alonso, demitiu o espanhol e logo a seguir foi demitido pela Ferrari justamente por ter demitido Alonso, resolveram apostar em Vettel. Uma decisão que se provou errada desde o primeiro momento.

Eu fui contra aquela contratação desde o início e por isso fiz muitos “inimigos” entre os fãs da Ferrari e de Vettel, que achavam – por alguma razão que nem Freud explica – que eu tinha alguma coisa pessoal contra o Vettel e/ou alemães em geral.

Mas nunca me importei com isso, afinal não estou aqui para agradar fãs de piloto algum. Estou aqui para falar/escrever o que realmente penso baseado nas minhas observações, meu conhecimento adquirido estudando e “participando” da Formula 1 há décadas e nas informações que eu e o Autoracing conseguimos obter de gente relevante na F1. Isso se chama “honestidade intelectual” e é assim que o Autoracing é desde o seu nascimento quase 20 anos atrás.

Como já dizia aquele velho clichê “o tempo é o senhor da razão”, mostrou a todos que estávamos certos desde o início. Vettel nunca conseguiu liderar a Ferrari de fato, nem tecnicamente e muito menos mentalmente. Em 2015 e 2016 ele ganhou de Raikkonen a duras penas, sendo que Alonso em 2014 tinha massacrado o finlandês impiedosamente.

Depois chegamos em 2017 e os Vermelhos finalmente fizeram um carro competitivo o bastante para disputar e inclusive ganhar o título contra a Mercedes. Mas a Mercedes tinha Lewis Hamilton, um gênio das pistas que vem mostrando ao mundo que para os adversários, não basta ter um carro “bastante competitivo” para ganhar dele, mas sim um carro dominante, um carro que seja sem sombra de dúvidas melhor que a Mercedes sempre.

2018 foi uma repetição de 2017 com a Ferrari tendo um grande carro, mas com seu piloto principal se perdendo em erros repetidos, às vezes bisonhos. Tão bisonhos que deixou a Ferrari, que já não é um primor de frieza – ainda mais atrapalhada levando-a a cometer alguns erros bizarros também, o que é mais uma prova que Sebastian não consegue liderar uma equipe em busca da excelência.

Mas e os quatro títulos que ele ganhou na Red Bull, ele não liderou a equipe? Na minha ótica, que é corroborada por pessoas de dentro da F1, não. Na Red Bull o esquema é outro. Quem lidera lá é o staff técnico formando pelo trio de ferro Horner, Marko e Newey. Eles decidem tudo e os pilotos – sempre muito jovens e agradecidos à equipe pelas suas carreiras – simplesmente obedecem.

Max Verstappen é o único piloto da Red Bull que conquistou uma voz um pouco mais ativa lá dentro. Ainda está longe de ser como na Ferrari e na Mercedes, mas é mais que os outros conseguiram.

Chegamos em 2019 e a Ferrari coloca um jovem praticamente novato ao lado de Vettel. Avisa a todos que ele está lá para aprender e vai ter que se sujeitar a ser o segundo piloto. Charles Leclerc não reclama, assume seu papel de “ajudante” e recebe ordens por rádio da Ferrari durante as cinco primeiras corridas para deixar Vettel passar ou para não atacá-lo. Só não obedece no Bahrain, onde a diferença de desempenho entre eles era tão óbvia que os Vermelhos sequer tiveram coragem de adverti-lo durante ou após a corrida.

Isso deixa os Vermelhos numa encrenca danada. E agora Mattia Binotto? Vai continuar segurando o moleque ou vai deixá-lo correr com todo seu potencial?

A princípio a Ferrari parece deixar que Leclerc corra livre após as férias da F1. Então os Vermelhos voltam das férias com um verdadeiro foguete e o moleque aproveita as duas primeiras corridas do segundo semestre fazendo pole e tendo Hamilton no seu pescoço nas duas corridas inteiras, principalmente em Monza. Mas na terceira corrida os Vermelhos tem uma “recaída traiçoeira” e tiram a vitória de Leclerc aplicando-lhe um undercut com Vettel.

Na corrida seguinte, Rússia, a mesma coisa. Leclerc faz a pole, a Ferrari manda que ele dê vácuo para Vettel que depois trocaria. Leclerc obedece, dá o vácuo, nem se defende contra Vettel, mas o alemão resolve não devolver a posição, apesar dos pedidos insistentes da equipe pelo rádio. No fim a trapalhada da Ferrari dá a vitória de graça para Hamilton com os Vermelhos perdendo a quarta vitória certa em quatro corridas. No Japão, corrida seguinte e “pista da Mercedes” desde o início da era híbrida, a Ferrari faz a primeira fila inteira na classificação, mas falha novamente em transformar seu carro nitidamente mais rápido em vitória.

E assim foi até o final do ano… os Vermelhos se atrapalhando, Leclerc obviamente ainda mostrando alguma falta de experiência e Vettel simplesmente não entregando, inclusive batendo em Leclerc no GP do Brasil de forma bisonha no meio da reta oposta tentando recuperar a posição que tinha perdido numa ultrapassagem espetacular do monegasco no S do Senna.

Mas com tudo isso, Vettel terá mais uma chance derradeira no ano que se aproxima. Como pessoa Sebastian é ótimo. Educado, gentil, família, dedicado, avesso a badalações e redes sociais, tenho várias afinidades com ele.

Até vou torcer para que ele se recupere em 2020, ou no mínimo não seja humilhado na pista por Leclerc, que já vai estar em seu segundo ano na Scuderia e terá um carro com algum feedback dele, não apenas de Vettel.

Mas apesar de ser possível Vettel se recuperar, sinceramente acho muitíssimo improvável…

Então os Vermelhos ficarão novamente com um dilema nas mãos. Confiam em Leclerc para liderar a equipe e dão outro grande aumento salarial a ele, ou contratam um piloto consagrado que “entrega” mesmo para ser o principal?

O primeiro semestre de 2020 responderá…

Adauto Silva
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