Abu Dhabi: para Hamilton, a redenção; para os brasileiros, a dura realidade

Hamilton vence em Abu Dhabi 2011

Lewis Hamilton vence em Abu Dhabi 2011
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Às vésperas de Interlagos, dúvidas e incertezas para Barrichello, Senna e Massa

Foi uma vitória redentora a de Lewis Hamilton em Abu Dhabi, mas além disso, pouco resta a escrever sobre esse Grande Prêmio. OK, 47 ultrapassagens foram contabilizadas, mas muitas foram de carros mais rápidos sobre os das equipes nanicas. Não chega a ser emocionante ver ultrapassagem dos que se atrasaram por questões técnicas ou táticas ou as dos líderes sobre os retardatários. Este número é apenas isso, um número insosso, um dado estatístico a ser brandido por quem decidir defender Abu Dhabi. O circuito, definitivamente, não empolga; pelo contrário, explica porque quase sempre os trabalhos do arquiteto Hermann Tilke são mal vistos.

Analisando no papel, até dá para se nutrirem esperanças. A média horária de uma volta beira os 200 quilômetros por hora; o que não está escrito é que ela só é tão alta por causa das duas enormes retas. Das 21 curvas, 17 são feitas em segunda ou terceira marchas. É curva de baixa demais. Para piorar, há algumas chicanes, artificiais e inócuas como soem ser as chicanes, feitas para estragar qualquer circuito. Com sua forma de S, as malditas chicanes não permitem que um piloto reaja com um X ao ser ultrapassado por um adversário que atrasa aloucadamente a freada. Mesmo que o tresloucado passante espalhe na saída da curva, ao fim do desequilíbrio ele estará na posição de defesa da curva seguinte.

Por isso foi uma pena a vitória de Hamilton ser como foi. O que salva foi que, desde os treinos, ele voltou a mostrar todas as qualidades exibidas em porções generosas nos anos anteriores. Chegou a registrar o melhor tempo do qualify, 1min38s434, melhor do que o 1min38s481 que deu a pole position a Vettel – pena que foi no Q2. Talvez seja a eventual e freqüente diferença entre um jogo de pneus e outro; talvez a McLaren tenha errado ao calibrar os pneus; talvez ele tenha errado algum movimento no Q3. O fato é que, na hora da verdade, o alemãozinho mostrou mais um vez que ele é o cara, que sempre faz o certo na hora certa.

Hamilton marcou 1min38s622, a 141 milésimos de segundo de Vettel e 188 dele mesmo. Mesmo assim, seu desempenho até então permitia que se vislumbrasse, na pista e nos boxes, o Hamilton de outros anos. Efeito da presença carinhosa de sua mãe nos boxes? Provavelmente. Ao chegar a Abu Dhabi, Hamilton afirmava que planeja construir à sua volta uma bolha de carinho e defesa como a que Jenson Button montou. Em todas corridas, lá estão o pai, a noiva e os melhores amigos de Button, protegendo e apoiando.

Por isso, ficava a sensação que nada estava perdido para o campeão de 2008. Com duas zonas de uso do DRS, a famosa abertura da asa traseira que proporciona ganhos de 12 quilômetros por hora na velocidade máxima, e ainda auxiliado pelo eficiente KERS da McLaren, Hamilton poderia superar Vettel já na quarta volta, a primeira em que é permitida a abertura do aerofólio. Isso se não largasse melhor, mas esta hipótese parecia prejudicada por estar ele alinhando no lado menos emborrachado da pista. Tínhamos, até então, a perspectiva de uma empolgante disputa entre os dois pilotos mais rápidos da atualidade, a exemplo das batalhas travadas quando ambos ainda afiavam seus dentes nas provas de Fórmula 3.

Nem isso nos foi permitido. Um pneu furado, aparentemente do nada, nos deixou órfãos de esperanças. Sem Vettel, Hamilton despencou na frente de um Alonso limitado pela sua Ferrari. Sim, um pouco evoluída, comprovadamente três décimos de segundo mais rápida que a de Massa, graças à nova asa dianteira. Mas ainda insuficiente. Após a corrida, o espanhol, do alto de seus dois títulos mundiais, dizia que foi uma de suas melhores corridas. Todas as voltas foram em ritmo de classificação.

Para nada, digo eu. De que adiantou? Depois de superar Mark Webber na largada, o que não é tarefa das mais difíceis, teve um momento de brilho ao passar por Button. Mas se as 54 voltas restantes foram assim tão eletrizantes, elas pouco significaram para o público, aquele que deve e tem de ser conquistado não só pela Fórmula 1, mas por todo e qualquer tipo de entretenimento. Para piorar, as magérrimas esperanças de um ataque final a Hamilton foram definitivamente eliminadas na entrada dos boxes para a segunda troca de pneus. Para seu azar, lá estava o lento Hispania de Daniel Ricciardo, impondo seu passo de tartaruga.

Mas, convenhamos, mesmo que lá não estivesse o lentíssimo Hispania, por que Alonso, ou qualquer ser vivente, poderia imaginar que ele tinha alguma possibilidade de se aproximar do McLaren de Hamilton, principalmente usando os temidos pneus duros? Não foram eles o pior obstáculo dos carros de Maranello neste ano que se encerra? Por que de repente, sem explicação plausível, deixariam de sê-lo? Por que subitamente dariam à Ferrari as asas de um Red Bull? Difícil acreditar, como é igualmente difícil dar crédito às palavras a que Alonso recorre a cada Grande Prêmio para dar continuidade a seu jogo de motivação (quase escrevi adulação) política.

Para desmenti-lo, a rodada de Felipe Massa na 49ª volta. Antes que me apedrejem por verem torcida onde o único intuito é a análise objetiva, ele não vinha mal (nem bem) até aquele momento. Era o quinto, seu lugar natural após a desistência de Vettel. Mas tanto com os pneus macios como com os duros, seus tempos ficavam, em média, a meio segundo dos de Alonso – diferença que pode ser parcialmente explicada pela maior eficiência da asa nova, com a qual Felipe não contava. O resto deve ser creditado à inegável e clara maior velocidade do espanhol.

A rodada foi, de fato, uma pena – e uma surpresa, já que naquele momento não travava nenhum combate roda a roda. Se não fosse por ela, Felipe teria feito uma boa corrida para seus parâmetros atuais: poderia até ter lutado com Webber pelo quarto lugar nas últimas voltas, seria seu melhor resultado do ano se conseguisse. Mas a inexplicável rodada deu a Webber 30 segundos de vantagem, margem suficiente para que o australiano trocasse pneus na última volta sem perder posições. Felipe a debitou aos pneus duros. Mais uma vez. E agora corre o risco de se tornar o primeiro piloto da Ferrari a encerrar uma temporada sem chegar nenhuma vez ao pódio desde os idos de 1992. O último foi Ivan Capelli, defenestrado antes das duas últimas etapas, dando lugar ao piloto de testes da época, Nicola Larini.

Um dos pontos menos claros desse Grande Prêmio foi a origem do súbito e inesperado esvaziamento do pneu traseiro direito de Vettel. Sou um dos muitos que a vêem no ataque ligeiramente excessivo à zebra de saída da curva Um. Há, porém, quem veja outros motivos, mas as explicações são pouco convincentes. Não restou pedaço de pista que o pessoal da Pirelli não tenha esquadrinhado com lupas de Sherlock Holmes, nada foi encontrado. O pneu já tinha sido usado, com excelente resultado, no qualify. A maior carga de combustível, mais de 150 quilos não pode ser aceita como causa na 17ª corrida, já que não se constatou um único furo de pneu assim tão espontâneo nas 16 anteriores. Vista de cima, uma das benesses que o sofisticado televisionamento da Fórmula 1 nos oferece, fica claro que ele levou o supracitado pneu além da borda externa da zebra. E como se sabe, zebras são zebras.

Se há alguém que merece avaliação tão positiva quanto Hamilton e, vá lá, Alonso no GP de Abu Dhabi, esse alguém é o incansável Rubens Barrichello. Depois de passar a sexta-feira e o sábado às portas do purgatório, no domingo ele chegou tão próximo do paraíso quanto pode lhe levar um Williams. Largou em 24º, passou em 19º ao fim da primeira volta; em 17º na segunda; em 15º na terceira e, na quinta, era o 14º, um ganho de 10 posições. Sim, sei que seus detratores dirão que Vettel havia saído da corrida na segunda curva e, portanto, os méritos de Barrichello não são tão grandes assim. De mim não terão atenção. Em sua perseguição vazia, sempre vão achar onde se pegar para criticar um piloto tão admirável quanto tem sido ele ao longo não só desses 19 anos de Fórmula 1, mas desde os primeiros passos.

O duro, porém, é que essa elogiável performance pouco vai contribuir para modificar o que o destino lhe reserva. Não está ainda definido, como o próprio Frank Williams deixou claro em entrevista à imprensa mundial, mas também não há dúvida de que a pole position na corrida pelo posto de primeiro piloto da Williams é do finlandês Kimi Raikkonen. Mas o brasileiro alinha a seu lado, é ele a segunda opção. E o finlandês não parece disposto a fazer concessões. Além de um salário digno de seu currículo de campeão mundial, ele quer também, pelo que comenta, participação acionária na Williams Engineering – na holding, não apenas na equipe. E disso Sir Frank sequer cogita – logo ele que não se incomodou ao ver campeões mundiais saírem porta afora ao não terem seus pleitos de reajuste salarial atendidos.

Sim, ainda existem candidatos com alguma verba, mas o fato é que desse tipo de dinheiro a Williams não precisa. Para ela, o mais importante é estreitar os laços com o Qatar, e ele planeja usar o título mundial de Raikkonen como a cereja, mas o bolo é muito maior. Já com um pé fincado no país, onde desenvolve um centro tecnológico, a Williams pode se beneficiar da firme determinação do governo local de intensificar o turismo em seu território. Uma das medidas para tanto seria melhorar a ameaçadora falta de habilidade de seus motoristas, um fato inevitável em países onde o contato com automóveis não é tão intenso quanto no Ocidente.

Que tem mais gente na fila não se pode negar. Pela ordem, Adrian Sutil, que é rápido mas parece não saber por quê, e o novato Valtteri Bottas. É um finlandês de 22 anos que tem sua carreira dirigida por Mika Hakkinen. Acaba de se sagrar campeão da GP3 e coleciona títulos e triunfos nas categorias de acesso. Tem em seu currículo, por exemplo, o campeonato europeu de F Renault de 2008 e duas vitórias seguidas no Masters de Fórmula 3, em 2009 e 2010. Rápido sabe-se que ele é; pesam contra a inexperiência na Fórmula 1 que, somada à pouca vivência que Pastor Maldonado acumulou nesse seu primeiro ano, pode levar a Williams a caminhos errados e dispendiosos, além da inexistência de patrocínio forte. Mas se não traz dinheiro, também não leva: estreantes são baratíssimos, mesmo os mais promissores.

Para compensar, uma das mais consideráveis ameaças à continuidade de Barrichello já parece dissipada. Era o francês jovem e milionário Charles Pic. Filho da família que dirige uma das maiores empresas de transportes da Europa, ele tem verba ilimitada a seu dispor. A cuidar de sua carreira está Olivier Panis, que conheceu o céu e o inferno em seus 12 anos como piloto de Fórmula 1. Pic ainda se nega a confirmar, porém é voz geral que ele já assinou com a Virgin, ou melhor, Marussia, para 2012. Sai Jérome d’Ambrosio, a menos que se mostrem certas as notícias claramente tendenciosas que insistem em apresentar seu atual companheiro Timo Glock como candidato real à vaga que deve se abrir na equipe Renault, aquela que no ano que vem se intitulará Lotus. Ou, mais simplesmente, a preta e dourada.

Mais uma ameaça a Bruno Senna? Talvez, mas quem está fazendo periclitar sua permanência não são os outros, é ele mesmo. À ilusão das boas primeiras corridas se sucedeu a dura realidade de um novato a bordo de um carro que se às vezes anda bem, em outras deixa a desejar. Para tornar sua vida mais difícil, há ainda a vigorosa reação do companheiro/rival Vitaly Petrov, que não aceitou se tornar presa fácil nas mãos de quem, por momentos, chegou a eclipsá-lo dentro e fora da equipe.

Mas o grande problema, maior do que tudo, é o polonês Robert Kubica. Apesar das incertezas que cercam seu anunciado e nunca confirmado retorno, é ele quem detém a chave desse quebra cabeças. A equipe está disposta a esperá-lo o tempo que for, garante Eric Bouiller, chefe da Renault. E também executivo chefe da Gravity Sports Management, que gerencia a carreira do franco-suíço Romain Grosjean. Agora guindado a terceiro piloto da equipe em que substituiu (desastrosamente) Nelsinho Piquet em 2008, Grosjean está disposto a tudo para correr ao lado de Petrov em 2012. Nem que para isso tenha de aceitar a hipótese de ceder o carro a Kubica se e quando o polonês comprovar sua reabilitação. A mim parece que Bruno só topará tal cláusula se não houver outro jeito – ou se, ao invés de levar patrocínios, for pago pela equipe.

É nesse quadro de incertezas que os brasileiros se preparam para correr em Interlagos, a corrida mais importante do ano. Primeiro, por ser a de casa; segundo, por ser a última do ano. Seu resultado vai durar muito mais tempo do que os outros. Vai até as 14 horas do dia 18 de março de 2012, quando as luzes vermelhas se apagarão para dar início ao Grande Prêmio da Austrália. Quem vai estar lá?

Lito Cavalcanti
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