F1 – “Maranello, nós temos um problema”

Ferrari

Por: Adauto Silva

É com a frase título que Mattia Binotto deve ter se comunicado com a sede da Ferrari durante o emocionante e disputado GP do Bahrain do último domingo.

Tudo começou bem na sexta-feira e assim foi até a primeira metade da corrida no domingo. A Ferrari finalmente exibiu sua forma superior ao resto mostrada na pré-temporada e em 15 voltas de corrida, parecia que a dobradinha vermelha iria se materializar, a não ser que acontecesse alguma desgraça.

E ela veio. Não apenas uma, mas duas vezes.

Na largada Leclerc perdeu a posição para Vettel – o que deve ter dado um certo alívio no pitwall da Ferrari – e Hamilton perdeu sua posição para Bottas. Mas mesmo perdendo sua posição para Vettel, Leclerc já começou a mostrar a que veio.

Sem espaço na curva 1 e atacado por Hamilton e Bottas, o garoto nascido em Mônaco segurou sua posição por fora sem atrapalhar Vettel e manteve P2. Enquanto isso, atrás dele vários pilotos engalfinhavam-se durante toda a primeira volta. A luta no pelotão inteiro era tamanha que Hulkenberg a descreveu como “zona de guerra”.

Nas voltas seguintes Hamilton atacou Bottas enquanto Verstappen o atacava e era atacado por Sainz, que quase ultrapassou o holandês por fora na curva 4, mas errou ao fechar muito na saída e tocar na Red Bull furando seu pneu e perdendo a chance de lutar por uma colocação decente.

As duas Renaults vinham de trás atropelando e ganhando posições em sequência.

Enquanto isso as duas Ferraris iam lentamente se afastando de Hamilton, que já tinha ultrapassado Bottas e também se afastava dele. Nessas alturas, todos de pneus macios na pista mais abrasiva de todo o calendário. Então, talvez por ter uma tocada mais suave ou por um acerto de carro melhor, Leclerc começou a se aproximar rapidamente de Vettel e avisou pelo rádio:

“Pessoal, estou mais rápido”

A TV não mostrou a resposta da Ferrari, mas o Autoracing mostrou ontem. Seu engenheiro disse: “Fique aí por duas voltas”. Então eu imagino que Leclerc deve ter pensado o mesmo que eu pensaria: “Como assim, de novo? Será que vou ter que ficar escutando isso a temporada inteira?”

E o que se seguiu foi a primeira demonstração de como um piloto de equipe grande deve agir, se pretender não se tornar o eterno número dois. Lembre-se que corretamente ele já havia obedecido a ordem da Ferrari na corrida anterior, a primeira da temporada na Austrália. Mas desta vez ele tinha feito a pole, era mais rápido e Vettel não aparentava ter qualquer problema.

Portanto ele ignorou a ordem, não disse nada e na reta principal seguinte abriu seu DRS e ultrapassou Vettel na freada por fora na curva 1. Uma ultrapassagem limpa e sem colocar nenhum dos dois carros em risco. E então abriu não dando a menor chance do tetracampeão dar-lhe o troco.

A desgraça da Ferrari
Tudo começou após a segunda parada para as trocas. Até então tínhamos Leclerc em primeiro e Vettel em P2, já que na primeira troca os pneus macios de Hamilton não funcionaram, ele tomou uma ultrapassagem de Vettel depois de ter feito um undercut, e a Mercedes bobeou o deixando demais na pista com um carro que claramente não estava bem acertado para o pneu macio naquela temperatura.

Mas após a segunda troca, Hamilton – com pneus médios – começou a chegar em Vettel e uma daquelas disputas emocionantes se aproximava.

Hamilton chegou perto na entrada da reta depois de fazer a última curva do circuito de Sakhir de forma soberba. Entrou perto de Vettel, abriu o DRS, mas a potência impressionante da UP Ferrari não permitiu uma ultrapassagem que parecia certa naquele momento. Mas Hamilton não se afobou, freou antes para o cotovelo da curva 1, saiu colado em Vettel da curva 3 e foi para a ultrapassagem com o DRS aberto de novo. Vettel se defendeu bem por dentro na hora certa, Hamilton colocou por fora na aproximação da curva 4 e ambos a contornaram praticamente lado a lado, mas então…

Vettel errou. Mais uma vez o alemão mostrou que não está no nível dos grandes campeões, por mais que alguns torcedores dele me xinguem e me achem parcial. Foi mais um erro crasso, básico para o nível de um piloto campeão da F1. Aliás, ele já tinha dado uma erradinha na freada da 1, o que ajudou Hamilton a sair colado nele dali.  Mas na disputa roda a roda na 4 ele acelerou muito e antes do tempo e rodou. Hamilton agradeceu e foi embora. Mas como tragédia pouca é bobagem, a rodada foi tão forte que “dechapou” completamente os pneus da Ferrari, o que provocou uma “vibração monstra” no carro que o fez soltar sua asa dianteira logo a seguir. O alemão teve que voltar ao box para substituir a asa e os pneus. A corrida parecia acabada para ele ali.

Mas ainda restava Leclerc em P1 sem ser incomodado por Hamilton, que por mais que tentasse, não conseguia se aproximar do garoto, que salvaria o dia para a Ferrari com uma vitória acachapante sobre as Mercedes e seu companheiro de equipe. Até eu me peguei torcendo para o moleque naquele momento. “Que vitória pode ser essa”, pensei!

Mas então a bruxa voltou. No quarto final da corrida Leclerc perde potência repentinamente, avisa o box que está ficando cada vez mais lento e algumas voltas depois Hamilton chega e passa como quer. A Ferrari perdeu tanta potência que chegou a ser quase 7 segundos mais lenta numa das voltas, mas em média estava perdendo cerca de 6 segundos por volta. A TV anunciou que era um problema no ERS, que ele tinha perdido a potência elétrica, aproximadamente 150 hp.

Logo vi que era mais que isso. Nenhum carro de ponta toma 7 segundos numa volta na F1 atual – onde as UPs estão na casa dos 1050 hps – por causa de 150 hps. Depois a Ferrari disse que um cilindro do V6 foi para o saco. Então é só fazer uma conta “bruta” de chegada e dividir 1050 hp por 6 cilindros. Só aí temos 175 hp. Some-se todo o problema que o software tem para gerenciar a perda de 1 cilindro e chega-se facilmente a um déficit de cerca de 220 hp que Leclerc passou a ter.

Bottas, que estava a longínquos 25 segundos atrás, também chegou e passou como se Leclerc fosse um retardatário. Verstappen, que vinha numa Red Bull cheia de problemas na traseira, também passaria. Mas aí um sopro de sorte fez com que as duas Renaults tivessem problemas ao mesmo tempo faltando 3 voltas para o final, o que “forçou” a entrada do safety-car até a bandeirada impedindo que o jovem monegasco perdesse mais posições!

Nós sabíamos que a Ferrari tinha algum problema grave na UP. Fomos os primeiros a publicar isso na semana retrasada. Mas parecia que Maranello os tinha resolvido. Eles mentiram? Eu sinceramente acho que não. Acho que eles descobriram o problema e acabou dando um outro que poderia ter dado em qualquer outro motor. De qualquer maneira vamos ficar atentos para tentar descobrir o que está sendo feito em Maranello até o GP da China!

Foi uma “corridassa”. A pista do Bahrain, que aparentemente não tem nada demais, é uma daquelas que tem proporcionado algumas grandes corridas nos últimos anos. A razão? São algumas. O asfalto muito abrasivo, a grande zona de DRS na reta principal e a mudança drástica de temperatura durante a corrida, já que vai anoitecendo no deserto e os carros mudam muito seus comportamentos. Mudam tanto, que vários pilotos das mesmas equipes relatam comportamentos totalmente diferentes, alguns para melhor, outros para pior.

Quanto a Charles Leclerc, gostei de seu comportamento no pós-corrida. Ele sabe que automobilismo é assim mesmo. Apesar de não ser tão randômico como outros esportes, nunca foi uma ciência exata e nunca será. Sua vez chegará, basta manter o foco e ter força mental, que é o que falta para alguns…

Jacques Villeneuve, que foi fera dentro do carro, dá muita bola fora no microfone. Dizer que o Hamilton foi falso e quis crescer pra cima de Leclerc ao consolá-lo com palavras bacanas e gentis, é coisa de gente recalcada.

E o motor Honda, o problema nas Renaults, na Red Bull, com o Gasly, com o Bottas e etc.?

Fica para a próxima coluna, que vai sair em breve!

Um “plus” com o vencedor do GP do Bahrain…

Adauto Silva
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