F1 – Gerhard Berger e Ayrton Senna na McLaren

Ayrton Senna e Gerhard Berger

Ayrton Senna e Gerhard Berger

Depoimento de Gerhard Berger ao site oficial da McLaren.

Gerhard Berger passou três temporadas memoráveis como companheiro de equipe de Ayrton Senna na McLaren em 1990-92, obtendo quatro pole positions e três vitórias. Ele foi portanto, uma parte fundamental de um período especial na história da equipe – e de fato do esporte.

Em primeiro lugar eu tenho que dizer que eu conhecia Ron Dennis muito tempo antes de eu ir para a McLaren. Esquiamos juntos na Áustria. Na verdade, houve uma ligeira conversa quando Niki Lauda parou de correr e eu estava dirigindo para a Arrows em 1985. Não foi uma conversa profunda, mas foi a primeira vez que a McLaren esteve no meu radar. Mas, obviamente, havia muito pouca possibilidade ou chance.

A segunda vez foi em 1986. Eu tinha uma oferta sobre a mesa da McLaren e outra da Ferrari, e eu finalmente decidi ir para a Ferrari. Foi puramente emocional – eu era um daqueles pilotos que sempre sonhou em ser um piloto da Ferrari, e aquela era a minha chance, então eu decidi contra a McLaren.

E então eu tive a chance novamente após três anos. Eu estava um pouco cansado de Ferrari. Eu simplesmente precisava de um novo desafio, e eu pude ver que as coisas estavam andando em círculos na Ferrari, um pouco como ocorre agora. Sempre grandes esperanças para o futuro, sempre grandes esperanças para a próxima vez! Meu contrato estava terminando, eu tinha um novo contrato sobre a mesa – na verdade financeiramente um muito melhor do que o da McLaren – mas eu estava pronto para fazer algo novo. A única coisa que eu esqueci era que Ayrton Senna estava na McLaren, e isso foi um erro fundamental!

Eu sabia que ele era bom, claro, mas lutamos um contra o outro quando eu estava na Ferrari, e sempre consegui vencer meus companheiros de equipe de uma forma ou de outra. Eu não sabia que Senna estava em outra liga, então eu não vi problemas em ir para lá. E é por isso que tomei a decisão de ir para a McLaren. Mas quero dizer isso agora, eu nunca me arrependi e eu ainda não me arrependo. Senna foi muito como uma construção de caráter para mim, mas eu nunca me arrependi deste movimento.

Quando cheguei tudo estava aberto. Sim, Ayrton era o campeão do mundo, sim Ayrton era o rei da chuva, sim Ayrton era bem conectado com a equipe, e sim Ayrton era muito querido pela Honda. No entanto, eu pensei que se a McLaren me desse uma chance justa, e eles deram, eu teria todas as chances. Então eu fui em frente.

Na primeira sexta-feira em Phoenix eu fui o mais rápido no molhado, o que Ayrton não conseguiu entender, e depois no seco eu coloquei o carro na pole, o que Ayrton não conseguiu entender também. O carro era construído para Alain Prost, e na corrida eu fiquei preso entre os pedais e eu perdi o carro em uma das curvas e perdi a corrida. Então Ayrton foi para casa. Eu lhe tinha dado algo para pensar, e foi isso. Ele voltou forte…

Se eu olhar para trás hoje, as coisas na McLaren não funcionaram muito bem para mim, porque, por um lado, em algumas corridas importantes houve alguma má sorte envolvida, e então a pressão de Ayrton tornou-se maior. Quando digo má sorte, houve essa coisa do pedal em Phoenix, em seguida, por exemplo, eu ganhei no Canadá, mas tive uma penalidade por queimar a largada. Aquilo foi doloroso, porque fiz uma corrida muito boa. Pior ainda, na terceira corrida, eu acho que foi em Imola. Lembro-me de que tínhamos uma nova especificação de motor. Tivemos que apostar nisso, e Ayrton ganhou a aposta.

Minha posição foi marcada nos primeiros seis meses na McLaren – esses seis meses foram cruciais para a minha posição. Começou muito bem em Phoenix, mas, em seguida, os resultados não estavam vindo, e os resultados de Ayrton vinham, por isso a pressão tornou-se maior. Eu acho que tornei-me mais fraco e ele mais forte, o jogo habitual. Então, ele estava liderando o campeonato, e eu me encontrei em uma situação onde eu concordei em ajudá-lo a ganhar, porque eu não tinha mais como ganhar aquele mundial. E essa foi a questão principal.

Gerhard Berger e Ayrton Senna

Gerhard Berger e Ayrton Senna

Como eu disse, o carro foi construído para Prost, e eu com o meu tamanho… Isto não deve ser uma desculpa, mas havia algumas coisas que não cabiam em mim. Mas quero deixar bem claro, Ayrton era melhor que eu. Só estou dizendo que enfrentei alguns problemas. E havia outro ponto muito crucial. Eu acho que em termos de velocidade, de certa maneira eu estava bem para competir com Ayrton. Mas ele era mais focado e estava fisicamente melhor preparado.

E tem outra coisa. Quando eu estava na Ferrari meu engenheiro era Giorgio Ascanelli. Nós trabalhamos bem juntos, e ele entendia exatamente o que eu precisava. Eu dizia a ele, ‘O carro faz isto’, e no dia seguinte e o carro tinha mudado completamente, graças às idéias de Giorgio. E eu ia à pista e quando voltava dizia, ‘Eu ainda tenho um problema aqui e aqui’, e ele arrumava, como um engenheiro deve fazer.

Quando vim para a McLaren, eu tinha um engenheiro muito bom, Steve Hallam. Ele estava acostumado a trabalhar com Prost, que dizia: “Altere a barra de torção altere as molas. Prost era da velha escola, e eu estava acostumado com a nova escola com computadores, e os engenheiros fazendo os cálculos. Então, eu me vi tendo um pouco de dificuldade em acertar direito o carro, e sentia falta de Giorgio.

Então eu cheguei em Ron e disse, ‘Eu tinha um grande engenheiro na Ferrari, e eu acho que devemos trazê-lo para cá. Eu acho que isso melhoraria muito as coisas para mim’. Então, Ron levou isso em consideração e começou a trabalhar para trazer Ascanelli. Um dia, Ron veio até mim e disse, ‘Eu tenho uma boa notícia e uma má notícia, o que você gostaria de ouvir primeiro?’ Eu disse, ‘Claro, a boa notícia’. Ele disse, ‘Ascanelli está vindo. ” Eu disse, ‘Fantástico! E qual é a má notícia’? E Ron disse: “A má notícia é que ele vai trabalhar no carro de Ayrton… ‘

E isso para mim foi um ponto crucial. Assim, o peso ficou cada vez mais do lado de Ayrton, e eu cada vez mais lutando. No entanto, eu man tive a calma. Eu vi os pontos fortes de Ayrton, vi que, em geral, toda a equipe era fantástica comigo. Eu tinha um ótimo relacionamento com Mansour Ojjeh, mas também com os mecânicos. Eles eram a minha família. Com Ayrton, pensei apenas em tentar ser melhor. Não culpei a equipe ou a Honda ou qualquer outra coisa.

O carro V12 em 1991 era um pouco mais difícil. O motor era um pouco mais peaky (quando a alta potência está em uma faixa estreita de rotação, geralmente em altas rotações) e havia mais peso na traseira. Nós perdemos um pouco. Eu acho que a Honda estava olhando um pouco demais para a Ferrari, onde o 12 cilindros produzia mais potência, mas o pacote era pior. Parecia melhor no dinamômetro e no banco de testes, mas não no tempo de volta.

Em Imola eu estava liderando, mas tivemos um problema no comando de válvulas e Patrese ganhou a corrida. Não foi uma boa temporada. Penso que houve corridas em que eu me posicionei para que ele tivesse uma vantagem para o seu campeonato. Enquanto eu tinha chances de lutar pelo campeonato, é claro, eu cuidava de mim mesmo. Mas a segunda coisa era cuidar da equipe e do Ayrton.

No Japão eu fiz a pole e estava liderando a corrida, mas tive um escapamento quebrado. Então Ayrton me ultrapassou. Eu estava em segundo e ainda com o escapamento quebrado quando ele diminuiu no final. Eu pensei que ele tivesse um problema de combustível ou algo assim, e eu pensei que era justo, eu tive um escapamento quebrado, agora ele tem um problema, então eu passei por ele. Eu não sabia que ele estava me deixando vencer. Eu não gostei disso. Se eu soubesse, eu teria freado, e nós teríamos parado ambos os carros antes da linha de chegada, e talvez quem estava atrás iria ganhar a corrida!

Em 1992 foi um pouco como o primeiro ano, eu estava me estabilizando um pouco, mas eu ainda não estava perto o suficiente de Ayrton. Acho que havia mais potencial, mas devido a certas circunstâncias, eu não consegui aplicar esse potencial direito. Mas houve alguns circuitos onde eu estava sempre muito rápido, e eu ganhei em Montreal e Adelaide.

Amigos e adversários

Amigos e adversários

Houve um momento em que Ayrton veio até mim e disse, ‘Gerhard, a Honda vai sair.’ Isso foi antes mesmo de Ron saber – Ayrton foi o primeiro cara a saber que a Honda ia parar, só depois que Ron soube. Ayrton disse, ‘Eu quero ganhar, vou sair, vou para a Williams, eu acho que é hora de passar para o melhor carro, e o melhor carro agora é o da Williams.’ Essa foi a época em que a Ferrari se aproximou de mim novamente, e por algum motivo eu decidi voltar para a Ferrari. Eu tenho que dizer que eu tinha uma oferta financeira muito boa, e eu decidi ir, sabendo que a Ford provavelmente iria substituir a Honda.

Então Ayrton tinha certeza que iria para a Williams, mas eu me lembro dele me dizendo, ‘Eu acertei tudo com Frank e agora ele mudou de ideia novamente.’ As coisas estavam indo para trás e para a frente, até que ele teve que ficar na McLaren. Eu sabia que ele não tinha assinado qualquer coisa e estava lutando. Seu plano não deu certo, mas o meu sim.

É claro, a Ferrari não estava bem em 1993. Fiquei muito esperançoso que John Barnard pudesse resolver as coisas, mas ele não conseguiu. Enquanto isso Ayrton venceu cinco corridas na McLaren – mas eu não tenho tanta certeza se as vitórias foram mais devido a Ayrton que a qualquer outra coisa.

Os anos na McLaren foram um sonho, e eu estava muito feliz lá. Mesmo com todas as dificuldades que expliquei, fomos uma família. Saí de férias com Ayrton, e a equipe sempre foi ótima. Havia histórias engraçadas o tempo todo. Nós apreciamos a vida, éramos loucos, fizemos festas, mas na pista lutávamos dando nossas vidas. É assim que deve ser, e é isso que está faltando muito neste mundo atual.

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