F1 – Dude: Aero ainda manda num carro de Formula 1

Aerodinâmica de um Formula 1

Por: Adauto Silva

Para quem começou a acessar o Autoracing recentemente, preciso explicar que o Dude é uma pessoa que trabalha na equipe Mercedes de F1. Eu o conheci em 2005 quando ele trabalhava na McLaren através do pai de Juan Pablo Montoya, que foi colunista do Autoracing por alguns meses até a equipe Williams o proibir de escrever colunas para nós ou qualquer outro veículo de imprensa.

Em 2013, poucas semanas após Lewis Hamilton ser confirmado na equipe Mercedes, Dude e alguns outros membros da McLaren também se mudaram para a equipe alemã e o Dude continua lá até hoje.

Nesses anos todos desenvolvemos um relacionamento profissional, que aos poucos tornou-se amizade e consegui com ele que nossas conversas fossem publicadas, evidentemente usando um pseudônimo ao se referir a ele.

Dessa vez o papo com o Dude foi um pouco “prejudicado” pelas circunstâncias, digamos assim. O Dude trouxe a esposa, o irmão e a esposa do irmão para o Brasil.

Eu não sabia disso em Interlagos, pois lá quase não conversamos. Soube no domingo quando combinamos o horário e onde nos encontrar. Ele pediu para eu levar minha esposa também, mas ela já tinha um compromisso de família inadiável.

A mulher do Dude é vegetariana, então ao invés de irmos numa churrascaria, fomos num restaurante italiano muito bom aqui em São Paulo. E não levei gravador, já que ia ser chato gravar o papo de todo mundo.

A mulher dele é gente finíssima. É inglesa com pai e mãe latinos, portanto ela fala espanhol perfeitamente e arranha bem português, já que a família adora o Brasil e passaram férias aqui inúmeras vezes quando ela era criança.

O irmão trabalha no mercado financeiro, mas é fanático por F1 e vive pedindo para o Dude “arrumar” um emprego pra ele na Mercedes. Pediu de novo na mesa – dizendo que na minha frente ia ser chato negar(?) – e o Dude respondeu: “Tá bom, mas você vai ficar enfurnado num escritório na fábrica no meio dos papéis das finanças da equipe.” E ele respondeu; “É, deve ser muito emocionante isso…”

Mas lógico que tive algumas oportunidades de falarmos sobre F1 e o final de semana. Perguntei as coisas que mais em intrigavam entre um assunto e outro…

Sobre a UP
“Estávamos com a potência máxima que pudemos colocar tanto na classificação quanto na corrida. No Q3 com modo festa e tudo. Na corrida também, mas houve um problema na hora do primeiro undercut “do homem” (explicado aqui) e depois erramos também demorando para chamá-lo no primeiro SC quando os Touros pararam o Max. Ele já tinha passado a entrada do box quando o chamamos (a TV não mostrou a Mercedes chamando Hamilton naquela hora). Ali perdemos qualquer chance de vitória, que não era das mais altas, mas era possível. A UP Honda está próxima da nossa, mas ainda atrás uns 10 – 15 hp e não foi por isso que Max parecia melhor na reta. O novo motor está em andamento, mas muito devagar porque há um problema não resolvido que apareceu sete ou oito semanas atrás. Se tudo der certo o objetivo da nova UP é ganhar 50 hp pelo menos.”

“O motor do finn esquentou demais por ele ficar muito tempo atrás do Leclerc. Ainda não sabemos se vai dar para salvar algum componente porque foi hoje e só na fábrica que vão conseguir analisar perfeitamente. Não podia ter quebrado por superaquecimento porque pensávamos ter resolvido isso. Depois da Áustria o foco foi resolver o problema de aquecimento e não colocar mais potência. Estamos com a mesma potência da primeira atualização, porque não adiantava desenvolver mais potência numa UP mostrando fragilidade em altas temperaturas. Apesar do clima não estar muito quente hoje, o fato de andar muito perto da Ferrari por muitas voltas superaqueceu a UP, daí você imagina o tamanho do problema que estaríamos tendo em todas as corridas, caso não tivéssemos trabalhado muito nisso.”

“Não sei o que a Ferrari fez. Todo mundo fala em algo relacionado a fluxo de combustível, mas você conversou com um dos nossos caras de motor e viu que ele não acredita muito nisso.”

– Verdade, ele acha que a Ferrari quer que todos pensem nisso para desviar o que de fato eles descobriram para darem esse salto. Ele disse que o medidor de combustível é praticamente impossível, senão impossível mesmo de burlar. E ainda tem o fato do tanque caber uma quantidade de combustível que não seria o suficiente para eles terminarem as corridas, caso estivessem usando mais combustível do que os 100 kg/hora permitidos, principalmente em algumas pistas, a maioria.

“O Lobo fica de saco cheio da imprensa fazer as mesmas perguntas e por isso ele disse que a Ferrari chega a ter 70 hp a mais na classificação. Depois ele dá risada conosco quando alguém publica uma asneira dessa. A vantagem deles é no máximo de 35 hp sobre nós. É importante, é muito, mas não chega nem perto desses 70 hp. E na corrida é menos ainda, acreditamos em 20 hp de vantagem pra eles. O problema é a aceleração, o torque, olha esse gráfico aqui:”

– Então ele me mostrou um gráfico com as velocidades de Mercedes, Ferrari e Red Bull a cada 50 metros da pista de Interlagos. Quis bater uma foto do gráfico com o meu celular, mas ele disse que isso seria muito arriscado. Pelo menos me deixou olhar um tempão.

“A aceleração da Ferrari é brutal, veja 50 metros depois de uma curva o quanto eles já tem de velocidade, depois 100, 150. Em Monza eles abriam tanto nas saídas de curva que nem o DRS fazia efeito o suficiente. Quando ‘o homem’ abria o DRS o Leclerc já estava fora de alcance, por isso não passou. Aqui (apontando o dedo) eles já chegaram na final e nós ainda temos mais de 50 metros para chegar na nossa!”

Perguntei se o motor Honda sofria menos com a altitude e ele respondeu: “Bobagem, se houver alguma diferença ela é irrelevante, já que o turbo compensa a altitude e a parte elétrica não sofre nada. Quem sofre menos é o carro da Red Bull, que andava igual ano passado com a UP Renault nas mesmas pistas.”

Então era hora de mudar de assunto…

Sobre aerodinâmica
“Você gostou tanto daquele gráfico das velocidades, mas tenho um mais interessante aqui.” E tirou do bolso um papel, que na verdade era um gráfico de altitude, que na hora não entendi direito…

– O que é isso ??

“Nível do mar e depois a cada 100 metros de altitude. Esses pontos ao lado das altitudes é o quanto o ar fica mais rarefeito e a terceira coluna são os pontos que perdemos de downforce em cada uma dessas altitudes. Veja que a perda não é linear, até 300 metros de altura faz pouca diferença, depois dá um pulo em 500 metros, outro em 800, mais um em 1.200 e um pulo gigante acima dos 1.600 metros. Termina em 2.200 porque é a altura da Cidade do México, que é a pista na maior altitude que corremos.”

– Mas isso aqui é sensacional !!

“E tem outro que esqueci de trazer específico para essa pista de Interlagos feito algumas horas antes da classificação e antes da corrida. Naquele tem a umidade relativa do ar, pressão atmosférica e outros dados que também influem na aero e nos ajuda a determinar o melhor downforce possível. Aqui mora a vantagem dos Touros.”

– Arrasto !!

“Exatamente. O carro deles tem menos arrasto, eles tem muito mais downforce do que nós – e acreditamos que dos Vermelhos também – vindo do conjunto assoalho sidepod, bargeboards e tudo levando para o difusor. Em grandes altitudes eles precisam de muito menos angulação de asa do que nós, daí a vantagem deles. Eles acabam tendo o mesmo downforce que nós usando menos asa, menos arrasto.”

– E com isso a velocidade de reta deles fica menos prejudicada !!

“Bem menos. Nossos 10 -15 hp a mais não cobrem essa diferença, longe disso!”

“A aero ainda é o fator mais determinante num carro de Formula 1. As UPs acabam se equilibrando – perdemos a vantagem de 14 a 16 que era enorme, coisa de 100 hp -, os pneus são os mesmos e por isso é mérito da equipe e piloto fazer a suspensão trabalhar bem com eles. Mas a aero é o que mais determina o desempenho do carro, além de dar ou tirar confiança do piloto. Aquele problema que tínhamos de suspensão foi totalmente superado esse ano.”

– E a Ferrari ??

“Cara, eles se atrapalham, eles se atrapalham demais. Se atrapalham tanto que deixam de ganhar corridas certas. Bem, você viu isso várias vezes depois das férias”

– Aqui era para eles ganharem?

“Se não se atrapalhassem e tivessem “o homem” ou o Max eu acho que era deles. Aquela batida entre os dois foi ridícula!”

– De quem foi a culpa?

“Você viu, não preciso responder essa!”

– Eles precisam daquele documento que vocês tem na Mercedes…

“Rules of Engagement? Eles que façam o deles…”

– Dude, cara, eu vi o Juan Pablo ontem no TL3 e na classificação !!

“Hahahahaha…. o Max? Viu mesmo cara, give me five!!”

– Que coisa incrível !! Era só trocar o capacete !! O Senna também fazia isso…

“Bem, pelo que diziam na McLaren, o Senna fazia tudo.”

Adauto Silva
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