F1 – A Ferrari merece. E Hamilton também

Lewis Hamilton – Cingapura 2018

Por: Adauto Silva

O pequeno detalhe é que Ferrari e Hamilton merecem coisas bem distintas.

Vamos começar pela Ferrari. Os italianos, que são parecidos com os brasileiros, ou seja, sempre muito passionais, vem tomando uma série de decisões extremamente equivocadas. Na parte técnica surpreendentemente vão muito bem desde o ano passado.

Em 2017 fizeram um carro extremamente competitivo, tão competitivo que foi o melhor carro do grid na maioria das corridas. Veja que escrevi “melhor carro do grid” e não “carro dominante”. Carro dominante é aquele que é pelo menos de 6 a 7 décimos de segundo melhor que qualquer outro em quase todas as pistas. Isso aconteceu muitas vezes na F1, mais recentemente de 2010 a 2013 com a Red Bull e de 2014 a 2016 com a Mercedes.

Em 2017 Mercedes e Ferrari eram os dois melhores carros do grid, com a Ferrari tendo uma vantagem  de 2 a 3 décimos principalmente na primeira metade do campeonato. O problema é que ela não conseguiu capitalizar isso em forma de pontos e então, depois das férias de verão, quando a Mercedes igualou sua performance e até ultrapassou em algumas pistas devido àquela restrição de óleo no motor, os italianos não tinham gordura para queimar. Por isso perderam o título de maneira categórica, quando podiam ter vencido.

No meio de 2017 ficou claro, mas muito claro pra mim, que faltava piloto na Ferrari que conseguisse confrontar Hamilton. Lewis é um fora de série, um gênio atrás do volante, um dos poucos pilotos que não precisa ter o melhor carro para vencer, mas sim um carro competitivo. Mas o que é um carro competitivo? É um que não seja mais de meio segundo mais lento que o melhor na maioria das pistas. Eu sei disso, a F1 sabe disso e muito provavelmente você sabe disso.

A Ferrari não sabe? Claro que sabe, mas mais uma vez avaliou mal o potencial de seu conjunto carro-pilotos. Ora, eu sei que muita gente gosta de Kimi. Na verdade eu também gosto. Gosto de Vettel inclusive, que é um cara “família”, sério, que trabalha duro e é educado com fãs e imprensa, além de ser um ótimo piloto. São muitas as qualidades do alemão.

Mas a única pergunta que cabe à Ferrari fazer é: A soma dessas qualidades é suficiente para bater Hamilton num carro competitivo?

Eu sempre desconfiei que não e em 2017 eu tive plena certeza. Mas a Ferrari tinha um projeto ainda melhor para 2018 e avaliou que com um carro melhor que a Mercedes em praticamente todas as frentes, seus pilotos seriam capazes de vencer o título. Vettel o de pilotos e a dupla o de construtores.

Avaliou mal. O carro realmente é excelente, melhor que o da Mercedes em tudo, mas não tão melhor, não um carro dominante.

E aí começa o problema.

A primeira metade de 2018 foi uma “cópia” do ano passado. Mesmo com um carro melhor, seus pilotos não foram capazes de colocar frente na Mercedes. Tanto Vettel quanto Kimi cometem erros demais atrás do volante, principalmente sob pressão. Vettel está longe de ser uma fortaleza mental quando não está folgado na liderança. Hamilton aperta e ele comete erros, tanto em classificação quanto em corrida. Pior, comete um atrás do outro, enquanto Hamilton – de maneira impressionante – não comete um erro sequer. Você se lembra do último erro que tenha lhe custado uma pole ou uma vitória? Sinceramente eu não me lembro.

Mas de novo, a Ferrari estava e está vendo tudo isso. Lá para o final de maio já ficou claro que Alonso estava livre para assinar com a Ferrari ou Mercedes. Fernando, não preciso repetir, é um piloto que tem absolutamente tudo para confrontar Hamilton. Ele não tem algumas qualidades do Vettel, tais como ser um cara “família” e educado com fãs e imprensa. Mas é um monstro atrás do volante. O que ele faz com essa carroça da McLaren é quase inacreditável. E se você acha que eu estou exagerando ao dizer que a McLaren é uma carroça, veja o que a própria equipe acha de seu carro AQUI.

Então a Ferrari, mesmo sabendo de tudo isso, não contratou Alonso. Aí surgiu Daniel Ricciardo, um cara que comprovadamente andou mais que o Vettel em seu ano de estreia na Red Bull. Andou tanto que “espantou” Vettel de lá. De novo a Ferrari não o pegou.

Preferiu pegar o garoto Leclerc, que apesar de ter grande apoio dos fãs, francamente não fez nada demais nesse ano de estreia na Sauber. Está batendo Ericsson? Sim, mas isso nem de longe o qualifica para confrontar Vettel, que está umas três prateleiras acima de Ericsson.

Assim, sinceramente não entendo a Ferrari. Não há explicação racional para a dupla deles em 2019 não ser Alonso e Ricciardo, mas sim Vettel e Leclerc.

Portanto eles não merecem ganhar. Pode ser até que ganhem. Basta Hamilton não marcar pontos por qualquer razão em uma das próximas corridas e Vettel estará totalmente no jogo novamente. Mas não merecem, pois estão muito arrogantes. Acharam que seu carro venceria os outros sem ter os melhores pilotos. E a chance de caírem do cavalo por causa disso – outra vez – é enorme.

O que não adianta é a imprensa italiana colocar a culpa apenas nos pilotos. Vettel e Kimi estão lá fazendo o que podem. A culpa é muito mais da administração da Ferrari, que além de tudo ainda contratou dois pilotos com estilos completamente diferentes de tocada. O acerto de um raramente serve para o outro.

A concorrência
Por outro lado, Hamilton, Bottas e Mercedes só tomam decisões certas há anos. E por isso merecem vencer.

Sobre Hamilton não há muito mais a falar do que eu já venho dizendo há muitos anos. O homem é genial, tem uma habilidade absurda e uma força mental maior ainda. Sua volta da pole neste sábado em Cingapura entrou para a história como uma das mais espetaculares da F1. Eu só a comparo com a pole assombrosa de Senna em Suzuka 89, quando ele meteu 1.730s em ninguém menos do que Alain Prost e quase perdeu o carro duas vezes durante aquela volta. Uma coisa de louco…

Toto Wolff é “o” chefe de equipe, um cara muito equilibrado, racional e focado apenas e tão somente no objetivo de vencer. Wolff pensou em Alonso ao lado de Hamilton neste ano, mas foi alertado pelo próprio Lewis que a vida na equipe se tornaria um inferno muito pior do que era com Nico. “Nico é uma moça em comparação com Alonso”, teria dito Lewis a Wolff. Mesmo assim, minhas fontes sempre me disseram que a demora em renovar com Hamilton foi porque Wolff queria garantir que seu primeiro piloto seria capaz de ‘fazer o trabalho’ sem precisar de outro gênio a seu lado que o pressionasse ao máximo.

Mas vamos voltar à pole de sábado em Cingapura. O que me deixa mais estupefato com a genialidade de Hamilton é o fato de ele ter mudado completamente sua tocada para minimizar o principal defeito do carro, que são as curvas de baixa, e maximizar sua maior qualidade, a força do motor.

Hamilton, conhecido por sua freada profunda e tardia, freou mais cedo e reacelerou mais cedo também em praticamente todas as 23 curvas da pista de Cingapura. Com isso, ele minimizou a degradação térmica que a suspensão da Mercedes impõe aos pneus e aproveitou a força do motor usando um mapa que priorizava totalmente o torque, não a potência linear e a velocidade máxima. Isso é muito difícil um piloto conseguir fazer. Mudar sua tocada para adaptá-la às condições do carro – assim de repente – necessita de uma auto-confiança que é para poucos, muito poucos.

Mas como eu sei disso? Fácil, veja abaixo esse comparativo mostrando onde Hamilton e Verstappen foram mais rápidos na classificação. Repare que Verstappen foi mais rápido na freada e no contorno de inúmeras curvas na classificação. Hamilton estava freando antes do que costuma e reacelerando antes em quase todas as saídas de curva, ao mesmo tempo que não tentava contornar as de mais baixa no limite, justamente para não superaquecer os pneus! É absolutamente genial!

Ham x Max -Cingapura 2018 – Classificação

Sobre Max também não tenho mais muito o que falar. Até já escrevi várias vezes que ele é um fenômeno e será o próximo piloto dominante da F1. Basta ter um carro competitivo. E o tempo só vem confirmando essa minha certeza. Meu único medo é que a Red Bull o “estrague” mimando-o mais do que deveria por não conseguir lhe entregar um carro capaz de disputar o título.

A corrida
Cá entre nós, foi meia chatinha. Na frente as únicas emoções foram quando Vettel ultrapassou Max e depois quando Max conseguiu sair no pitlane e evitar outra ultrapassagem de Vettel, que parecia iminente! Também teve aquela hora que Hamilton pegou uma turma de retardatários e Max encostou perigosamente.

De resto, tivemos a atuação espetacular de Alonso – mais uma – e alguns “BOs” do Sergio Perez, que deve ter tomado algum xarope estragado antes da corrida. Primeiro jogou seu companheiro de equipe Ocon (um tanto superestimado pela torcida) no muro logo na primeira volta. Eu até acredito que ele não tenha visto, apesar de não colocar minha mão no fogo. Depois jogou seu carro em cima do Sirotkin de maneira grotesca no meio de uma retinha. Por essa ele merecia a desclassificação da corrida.

Charlie Whiting, o diretor de prova da F1 há trocentos anos, já perdeu e mão e deveria ser trocado já. Vem cometendo erros absurdos e dando declarações bizarras em relação aos incidentes nas corridas. Sobre Cingapura le disse que “Não houve indicações que Perez atingiu Sirotkin deliberadamente”. Ora, ele queria uma confissão por escrito de Perez? E o exagero de ter dito que a Infração de Grosjean ao ignorar bandeiras azuis foi “uma das piores”? Nem o Hamilton – que foi o mais atrapalhado pelo Grosjean – achou isso na entrevista pós-corrida dada ao vivo para o Coulthard.

Enfim, tem muitos mais assuntos para conversarmos sobre a F1 neste momento, mas por hoje é isso, senão o texto vira uma bíblia de grande, algo que obviamente ninguém merece!

Adauto Silva
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