MotoGP – Janela de temperatura e o GP das Américas

Marc Marquez - Austin 2017

Marc Marquez – Austin 2017

Colaboração: Carlos Alberto Goldani

Uma mudança nas condições de clima da sexta para o sábado resultou na escolha infeliz de pneus para o TL3 do GP das Américas que, combinada com a janela estreita de temperatura ideal para maior aderência dos compostos, ventos fortes e pista ondulada, foi desastrosa para os pilotos. O treino resultou em oito acidentados, dois mais de uma vez e Alex Rins (Suzuki) fraturou o rádio e a ulna, possivelmente só retorne depois de Le Mans. Os pilotos na coletiva de imprensa tinham explicações diferentes para tantas quedas, Marc Márquez (caiu duas vezes) explicou que os compostos macios ou médios não resistem toda a corrida às frenagens agressivas que a Honda necessita para ser competitiva, os pneus duros são muito sensíveis à temperatura e com qualquer mudança no aquecimento é fácil perder a frente. Vinales lembrou as condições muito diferentes de clima entre a sexta e o sábado e Rossi complementou dizendo que não esperava tanto efeito na aderência dos compostos, afinal foram apenas cinco ou seis graus de diferença, o maior prejuízo foi causado pelo vento frio. Os três concordam, é complicado exigir o máximo do equipamento quando os pneus não estão na janela de temperatura ideal.

O problema é mais complexo, a escolha dos compostos para a classificação e corrida é realizada durante os testes de sexta-feira e as equipes mandam as rodas para serem montadas pela Michelin. Muitas equipes indicaram pneus dianteiros médios e duros e mantiveram os traseiros macios para classificação. No sábado com a menor temperatura ambiente os compostos médios tiveram problemas de aquecimento, a exposição ao vento frio nas longas retas dificultou conseguir a temperatura adequada e, com uma pista ondulada, foi a receita ideal para acidentes.

Explica, mas não justifica. Após a sessão acidentada da MotoGP houve o treino livre da Moto2 nas mesmas condições e, com uma dezena de pilotos a mais na pista, só houve uma queda. Mais, vinte e quatro dos trinta e dois pilotos da Moto2 conseguiram melhorar seus tempos de sexta para sábado, na MotoGP só sete conseguiram. Detalhe, o fornecedor de pneus da Moto2 é a Dunlop.

A trilha de aprendizado é longa, os pneus da Bridgestone, fornecedora até 2015, tinham uma janela operacional em torno de 15°C como condição para a maior aderência, este valor foi reduzido para um terço (5°C) nos pneus Michelin. Este fato é conhecido, o vento nas longas retas do circuito de Austin também não é novidade, o piso não ficou mais ondulado de sexta para sábado e as mudanças no clima foram previstas pelos serviços de meteorologia, todos sabiam que seria mais frio, portanto a mudança de comportamento devia ter sido antecipada pelas equipes.

No dia da prova as motos Yamaha, equipamentos mais equilibrados neste início de temporada, alinharam para a largada com Rossi, Vinales e Zarco calçando pneus médios na dianteira e traseira. As Honda utilizaram pneus duros atrás, Márquez e Crutchlow repetiram o mesmo composto na frente para resistir as frenagens violentas no fim das grandes retas, Pedrosa optou por médios na frente e, sem aderência frontal pela perda de eficiência do pneu, não teve condições para resistir ao ataque de Valentino nas últimas voltas. As Ducati, de Lorenzo e Dovizioso, escolheram médios atrás e macios na frente e ficaram ausentes do bloco dos líderes.

Durante a prova a queda precoce de Vinales causou uma reversão das expectativas, desde os primeiros testes em Austin todos viam no vencedor das duas primeiras etapas o piloto com melhores condições para acabar com a invencibilidade do Márquez nos EUA, onde o espanhol já acumula onze vitórias consecutivas desde 2011. Sua queda na terceira volta não foi capturada com detalhes pela TV, dificultando uma análise mais apurada e é provável que tenha perdido a frente da moto nas ondulações do piso. Vinales e a Yamaha dizem que não tem ideia porque o ex-líder do campeonato caiu, e este é um grande problema, o livro A Arte da Guerra de Sun Tzu ensina que é importante saber onde o inimigo está, não onde não está.

Outra ocorrência inusitada na prova foi a penalização de Valentino Rossi decidida pela direção da prova, acréscimo no tempo total de 0,3 segundos por levar vantagem ao cortar parte do caminho na disputa de posição com Johann Zarco, piloto da satélite da Yamaha Monster Tech 3. Decisão controversa, porque a manobra do ex-bicampeão da Moto2 não deixou nenhuma outra opção. A penalidade não alterou as posições finais, mesmo assim não foi aceita com facilidade, as consequências do comportamento irresponsável de Zarco não foram consideradas e as escolhas que restaram ao multicampeão de 38 anos eram sair da pista ou provocar a queda de ambos. Aparentemente o estreante na MotoGP ainda não entendeu que mudou de classe e já não é o foco das atenções.

Rossi soube da penalidade depois da prova encerrada, a equipe evitou avisar por uma placa de sinalização para não preocupar o piloto, nunca houve um precedente e Valentino teria dificuldades em interpretar qualquer tipo de informação. Poderia, por exemplo, entender 3 segundos e correr riscos desnecessários na pista.

A equipe Honda, que esteve ausente do pódio nas duas etapas anteriores, comemorou o duplo pódio e o reencontro com a vitória que não acontecia desde o GP do Japão de 2016, entretanto a peculiaridade do circuito das Américas não serve de parâmetro para as próximas provas, Jerez, Le Mans e Mugello são traçados com características diferentes, estilo europeu. A prova foi mais lenta que a temporada passada, o vencedor Marc Márquez confessou que tinha condições para melhorar os tempos, entretanto, segundo suas próprias palavras, a vitória vale os mesmos vinte e cinco pontos se você chegar 2 ou 10 segundos na frente.

Carlos Alberto Goldani
Porto Alegre – RS

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