Horner revela infelicidade na Red Bull e decepção com Marko
segunda-feira, 19 de outubro de 2026 às 13:58
Christian Horner
Christian Horner revelou que estava infeliz na Red Bull mesmo durante o período de domínio da equipe na Fórmula 1. Em entrevista ao podcast High Performance, o britânico explicou que as vitórias já não compensavam o desgaste interno. Além disso, expôs sua decepção com Helmut Marko, que havia ficado em sua casa poucos dias antes de participar da reunião que encerrou sua passagem pela equipe.
O relato combina o sofrimento pessoal com os bastidores da disputa de poder nos Touros. Segundo Horner, a insatisfação começou antes das acusações de comportamento inadequado que vieram a público em 2024.
“É quase como chegar ao topo da montanha e perceber que não há nada lá”, afirmou.
As vitórias não traziam felicidade
Segundo Horner, sua esposa, Geri, percebeu o contraste entre os resultados nas pistas e seu estado emocional. Enquanto a Red Bull acumulava vitórias, ele voltava para casa frustrado com as disputas que consumiam sua atenção.
“Houve um período em que estávamos vencendo muito, e ela disse: ‘Nunca vi você tão infeliz’”, contou.
Inicialmente, o entrevistador associou essa situação às acusações de 2024. Entretanto, Horner o corrigiu imediatamente: o desgaste havia começado muito antes.
O ex-chefe apontou a morte de Dietrich Mateschitz, em outubro de 2022, como uma mudança decisiva. O fundador era o centro de referência da organização. Assim, sua ausência abriu espaço para uma reorganização das relações de poder.
Como o Autoracing já publicou sobre os motivos apresentados por Horner para sua demissão, ele considera essa transformação fundamental para entender o fim de sua trajetória na equipe.
O domínio escondia a tensão interna
Horner afirmou que recebeu novas responsabilidades antes da temporada de 2023. Elas incluíam o marketing da segunda equipe e participação na definição de sua liderança, com Laurent Mekies e Peter Bayer.
Porém, segundo ele, esse aumento de influência desagradou a setores da organização. Consequentemente, mesmo durante uma temporada em que os Touros perderam apenas uma corrida, havia pressão e resistência nos bastidores.
“Em vez de conseguir focar apenas nas corridas, sua energia e sua concentração acabam consumidas por outros elementos, outras relações e pela política”, explicou.
Além disso, Horner reconheceu que tratava a estrutura como se fosse sua própria equipe. Para ele, isso significava proteger os funcionários e cuidar dos recursos. Entretanto, essa identificação também ajuda a compreender a disputa sobre seu protagonismo.
O Autoracing já abordou a justificativa que ele ouviu ao sair: a percepção de que a organização havia se tornado mais “Christian Horner Racing” do que Red Bull Racing.
Geri avisou: “Eles não querem mais você”
Segundo Horner, Geri percebeu uma mudança no ambiente durante o GP da Áustria de 2025. Na avaliação dela, a maneira como as pessoas se comportavam indicava que algo estava prestes a acontecer.
“Acho que alguma coisa vai acontecer. Eles não querem mais você. Não valorizam você”, teria dito, segundo o relato do britânico.
Questionado sobre sua reação ao aviso, Horner admitiu que reconhecia os sinais, embora não quisesse encará-los.
“Eu sabia que ela estava certa. Mas não queria ouvir”, declarou.
Portanto, a reunião que definiu sua saída não surgiu em um ambiente de completa normalidade. O próprio Horner reconhece que já percebia a deterioração das relações.
Marko esteve em sua casa antes da demissão
O episódio mais incômodo envolve Helmut Marko. Durante o fim de semana do GP da Inglaterra, Horner recebeu dirigentes e pilotos das duas equipes em sua casa. Marko estava entre os convidados e também ficou hospedado no local.
Pouco depois, Horner recebeu uma mensagem pedindo uma reunião em Londres. Segundo ele, a convocação parecia tratar de marketing e de uma possível transferência de responsabilidades para a Áustria.
Entretanto, ao chegar, encontrou Marko, Oliver Mintzlaff e o responsável pelos recursos humanos do grupo. Naquele momento, compreendeu o provável objetivo da conversa.
O entrevistador perguntou se a situação provocara uma sensação de traição. Horner preferiu falar em enorme decepção.
“Fiquei simplesmente decepcionado porque, dois dias antes, ele estava hospedado na minha casa. Essas discussões obviamente não começam no próprio dia”, afirmou.
Segundo o britânico, se as posições fossem inversas, teria avisado que a situação estava se tornando difícil. A crítica, portanto, alcança a maneira como Marko conduziu a relação pessoal enquanto a organização preparava uma decisão profissional.
Ao mesmo tempo, Horner reconheceu que o austríaco havia sido fundamental para sua contratação e para o sucesso da equipe. Justamente por isso, explicou, a forma como tudo terminou foi especialmente dolorosa.
Tristeza e alívio depois da reunião
Após ouvir que a Red Bull queria seguir outra direção, Horner perguntou como a decisão havia sido tomada. Segundo ele, não recebeu uma explicação que considerasse satisfatória.
Depois da reunião, já no carro, telefonou para Geri. Nesse momento, sentiu tristeza e também um alívio imediato.
“Você sente como se o peso do mundo tivesse saído dos seus ombros. Ao mesmo tempo, é incrivelmente triste”, relatou.
Essa reação não significa que Horner já tivesse decidido abandonar a equipe. Pelo contrário, explicou que continuava por lealdade aos funcionários e ao projeto que ajudara a construir.
“Só com a reflexão você percebe que, na verdade, não estava feliz. Mas, por lealdade à equipe e a tudo de que fez parte, continua”, afirmou.
A despedida tornou a perda real
Horner contou que precisou pedir autorização para se despedir dos funcionários na fábrica. Segundo ele, a previsão inicial era que o grupo soubesse da mudança pelo comunicado público.
Mintzlaff concordou com o pedido. Assim, o britânico voltou para falar com os profissionais que havia comandado por cerca de duas décadas.
Parte dos funcionários imaginava que o anúncio trataria de uma possível saída de Verstappen. Entretanto, ao comunicar sua própria demissão, Horner encontrou choque e pessoas chorando.
Segundo ele, alguns profissionais chegaram a oferecer sua saída por entenderem que também tinham responsabilidade pelo desempenho do carro. A reação tornou concreta a percepção de que aquela seria sua última conversa com o grupo naquela posição.
A filha colocou tudo em perspectiva
A crise profissional coincidiu com a morte de Beverley Allen, mãe de sua filha Olivia. Portanto, a prioridade de Horner em casa era ajudar uma menina de 11 anos a enfrentar o luto.
Na noite da reunião, antes de a demissão se tornar pública, ele acompanhou um evento escolar da filha. Ao vê-la subir ao palco, encontrou outra dimensão para o próprio sofrimento.
Segundo Horner, a coragem da menina mostrou que havia questões mais importantes do que perder o comando de uma equipe de Fórmula 1.
Posteriormente, o afastamento permitiu acompanhar atividades escolares e momentos familiares que frequentemente sacrificava. Ele lembrou que havia perdido o nascimento da filha e vários aniversários por causa das viagens.
A reflexão também exige responsabilidade
Este relato mostra como o sucesso nas pistas pode esconder uma organização em conflito e um dirigente pessoalmente esgotado.
A decepção com Marko merece destaque. Afinal, segundo Horner, alguém que convivia com sua família apareceu dias depois na reunião de sua demissão sem antes alertá-lo.
Porém, a reflexão também precisa alcançar o próprio ex-chefe. Ele comandava a estrutura, participava das disputas e reconhece que percebia os sinais de mudança. Portanto, sua versão ajuda a compreender os bastidores, mas não encerra a discussão sobre as responsabilidades de cada envolvido.
A frase da montanha resume o lado humano dessa história: Horner havia conquistado quase tudo o que buscava. Mesmo assim, já não encontrava felicidade no lugar onde chegara.
Fonte: Entrevista de Christian Horner ao podcast High Performance.
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