Como a Ferrari usa Brembo e Carbon Industrie ao mesmo tempo?
sexta-feira, 12 de junho de 2026 às 14:26
Freis Ferrari Brembo e Carbon Industrie
Muitos confrades fizeram a mesma pergunta após as notícias sobre a Ferrari avaliar componentes da Carbon Industrie para tentar resolver os problemas de freios enfrentados por Charles Leclerc.
A dúvida parece simples, mas revela um dos aspectos mais interessantes da engenharia da Fórmula 1 moderna:
Como a Ferrari pode ter a Brembo como parceira histórica e, ao mesmo tempo, utilizar discos e pastilhas da Carbon Industrie?
A resposta está no fato de que o sistema de freios de um carro de Fórmula 1 não funciona como uma peça única.
Na realidade, ele é formado por diversos componentes independentes que podem vir de fornecedores diferentes.
Por isso, mesmo em uma categoria repleta de contratos milionários e acordos de patrocínio, as equipes frequentemente adotam uma estratégia conhecida na engenharia como “mix and match”, ou seja, misturar e combinar componentes de diferentes origens para obter o melhor desempenho possível.
O que continua sendo Brembo na Ferrari?
A parceria entre Ferrari e Brembo já dura mais de 50 anos.
Durante esse período, a fabricante italiana tornou-se uma das fornecedoras mais importantes da equipe italiana.
Por isso, a estrutura principal do sistema de freios continua sendo fornecida pela Brembo.
Entre os componentes fornecidos pela empresa estão as pinças de freio, conhecidas como calipers.
São elas que abraçam os discos de freio e exercem a pressão necessária para desacelerar o carro.
Além disso, a Brembo também fornece os cilindros mestres, as linhas hidráulicas e boa parte da engenharia envolvida no funcionamento do sistema.
Esses componentes fazem parte da arquitetura básica do carro.
Consequentemente, a Ferrari não poderia simplesmente substituí-los durante a temporada sem alterar elementos estruturais importantes do projeto.
Em outras palavras, o “hardware” principal do sistema permanece sendo Brembo.
Onde entra a Carbon Industrie?
A mudança acontece em outra área do conjunto.
A Carbon Industrie não fabrica sistemas completos de freio para a Fórmula 1.
O foco da empresa francesa está nos materiais de atrito utilizados nos discos e nas pastilhas.
A companhia, que pertence ao grupo aeroespacial Safran, especializou-se na produção de compostos carbono-carbono utilizados pelas equipes da categoria.
Por isso, quando a Ferrari avalia utilizar componentes da Carbon Industrie, ela não está trocando todo o sistema de freios.
Na prática, a equipe substitui apenas os discos e as pastilhas.
Como esses componentes seguem dimensões compatíveis com as pinças utilizadas pela Ferrari, a integração torna-se relativamente simples.
Dessa forma, a equipe consegue manter a estrutura Brembo e, ao mesmo tempo, utilizar materiais de atrito produzidos por outro fornecedor.
Por que a Ferrari faria essa troca?
A resposta está no desempenho.
Embora dois discos possam parecer semelhantes para um observador comum, eles podem apresentar comportamentos completamente diferentes na pista.
Cada fabricante utiliza compostos de carbono com características próprias.
Isso altera a forma como o freio responde à temperatura, à pressão exercida pelo piloto e às condições da pista.
Além disso, os carros de 2026 introduziram um desafio adicional.
Como a recuperação de energia através do MGU-K passou a desempenhar um papel muito maior na desaceleração dos carros, os freios hidráulicos tradicionais operam em condições diferentes das observadas nas temporadas anteriores.
Em muitos momentos, os discos trabalham com temperaturas menores do que aquelas para as quais foram originalmente otimizados.
Consequentemente, pequenas diferenças de material passaram a produzir efeitos muito maiores no comportamento do carro.
A preferência dos pilotos também influencia
Outro fator importante envolve o estilo de pilotagem.
Na Fórmula 1, os pilotos possuem preferências extremamente específicas sobre a sensação transmitida pelos freios.
Alguns preferem uma resposta inicial mais agressiva.
Outros valorizam maior progressividade ao longo da frenagem.
Lewis Hamilton, por exemplo, utiliza discos da Carbon Industrie desde o GP do Japão por preferência pessoal.
O heptacampeão aprecia a característica conhecida como “mordida inicial”, ou “initial bite”, mais forte oferecida pelos compostos franceses.
Esse tipo de escolha não é incomum na categoria.
A FIA e os contratos comerciais normalmente permitem certa flexibilidade em itens diretamente ligados à sensação e à confiança do piloto.
Quero ser VIPE a Brembo aceita isso?
Do ponto de vista comercial, a situação certamente não é ideal para a fornecedora italiana.
Entretanto, na Fórmula 1, o desempenho continua sendo a prioridade máxima.
Quando uma equipe acredita que pode ganhar desempenho ou resolver um problema de dirigibilidade através de um componente específico, ela normalmente segue esse caminho.
Por isso, a Ferrari pode continuar utilizando a engenharia, as pinças e o sistema hidráulico da Brembo enquanto adota discos e pastilhas produzidos pela Carbon Industrie.
No fim das contas, o carro continua equipado com tecnologia Brembo em sua estrutura principal.
Porém, o material responsável por gerar o atrito que ajuda o piloto a frear no final da reta pode vir de um fornecedor completamente diferente.
E é justamente esse tipo de combinação que mostra como a Fórmula 1 continua sendo uma categoria onde cada detalhe pode fazer a diferença entre ganhar ou perder décimos preciosos por volta.
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