Ben Sulayem faz promessa política sem respaldo

quarta-feira, 14 de outubro de 2026 às 16:56

Ben Sulayem promete V8 para 2030, mas ainda precisa esclarecer publicamente os detalhes técnicos e financeiros do projeto

Mohammed Ben Sulayem prometeu o retorno do V8 na F1 para 2030, com carros mais leves e custos menores. Entretanto, não apresentou publicamente os detalhes técnicos e financeiros que sustentariam essas metas. Na avaliação do Autoracing, essa distância entre a certeza do anúncio e as explicações oferecidas dá à declaração o caráter de uma promessa política sem respaldo demonstrado.

É claro que muitos fãs adoram o ronco dos V8, V10 e V12 aspirados. Nós do Autoracing adoramos. Esses motores marcaram gerações e ajudaram a construir a identidade da categoria. Porém, gostar daquele som não significa que reproduzir o passado seja a melhor resposta para 2030 ou 2031.

O problema da promessa está justamente nessa distância entre o entusiasmo provocado pelo anúncio e a demonstração de como colocá-lo em prática. Ben Sulayem apresenta certezas, mas ainda deve ao público as explicações que sustentariam essas certezas.

O que Ben Sulayem anunciou de fato?

Durante o anúncio do futuro GP da África, em Ruanda, o presidente da FIA afirmou que trabalha para introduzir o novo V8 em 2030. Além disso, apresentou objetivos de reduzir o peso dos carros em aproximadamente 80 quilos e cortar os custos de pesquisa e desenvolvimento em pelo menos 50%.

Como o Autoracing publicou sobre a declaração de Ben Sulayem, o dirigente também afirmou contar com apoio dos fabricantes e dos responsáveis comerciais pela categoria.

Entretanto, isso não equivale a apresentar todas as especificações do futuro motor. A declaração citada não estabelece que a nova unidade terá exclusivamente propulsão a combustão.

Aliás, em manifestações anteriores, Ben Sulayem falou em um V8 com eletrificação bastante reduzida. Portanto, apresentar o plano como um retorno confirmado à combustão pura vai além do que essas declarações permitem concluir.

V8, aspirado e híbrido são coisas diferentes

Primeiro, precisamos separar três características. V8 identifica a configuração dos oito cilindros. Aspirado significa que o motor não utiliza sobrealimentação, como um turbo. Já híbrido descreve a combinação de um motor a combustão interna com propulsão elétrica.

Assim, um V8 pode ser aspirado e híbrido ao mesmo tempo. A categoria pode recuperar uma sonoridade mais próxima da antiga sem necessariamente abandonar a recuperação de energia e o motor elétrico.

Por isso, a discussão mais importante está na arquitetura completa da unidade de potência. O número de cilindros, sozinho, não determina se o projeto será moderno, eficiente ou interessante para uma montadora.

As montadoras entraram por razões que continuam existindo

A Honda deixou isso explícito ao anunciar seu retorno para 2026: o aumento da eletrificação e os combustíveis sustentáveis foram razões importantes para a decisão. Além disso, a fabricante apontou motores elétricos, baterias e gestão de energia como tecnologias com potencial de aplicação em seus produtos.

A Audi também associou sua entrada à maior eletrificação, aos combustíveis sustentáveis e ao controle de custos. Portanto, essas empresas não escolheram a Fórmula 1 apenas para colocar uma marca na carenagem.

Eliminar a propulsão elétrica reduziria uma parte importante dessa justificativa tecnológica. Consequentemente, a FIA precisaria convencer os fabricantes de que o novo projeto ainda merece investimento.

Isso não significa que todas as montadoras rejeitarão qualquer V8. A Honda já demonstrou cautela sobre a proposta, enquanto a Mercedes manifestou abertura. Porém, apoiar oito cilindros não significa aceitar um motor exclusivamente a combustão.

Wolff gosta do V8, mas faz uma ressalva decisiva

Toto Wolff oferece um bom exemplo dessa distinção. O chefe dos Prateados apoia a possibilidade de um V8, mas quer preservar uma ligação tecnológica com o mundo dos carros de rua.

Ao discutir o assunto em maio, ele alertou: “Se formos para 100% de combustão, pareceremos um pouco ridículos em 2031 ou 2030”.

Além disso, Wolff chegou a sugerir uma combinação de aproximadamente 800 cavalos do motor a combustão com outros 300 da parte elétrica. Ou seja, sua proposta mantém uma contribuição elétrica expressiva.

A ressalva atinge o centro da discussão: uma categoria que se apresenta como referência tecnológica precisa justificar por que abandonaria uma área na qual seus próprios fabricantes estão investindo.

A Europa exige precisão nessa discussão

Também seria incorreto afirmar que todos os carros novos da Europa terão de ser elétricos já em 2030 ou 2031. A referência central da legislação da União Europeia para automóveis novos é 2035, e as regras tratam das emissões de CO₂.

A norma vigente estabelece uma redução de 100% nas emissões de escapamento dos carros e comerciais leves novos a partir daquele ano. Entretanto, a Comissão Europeia apresentou uma proposta para reduzir essa meta a 90%, com mecanismos de compensação para as emissões restantes.

Essa proposta abre espaço para diferentes tecnologias, incluindo híbridos e motores a combustão, mas não deve ser confundida com legislação já aprovada. Além disso, 90% de redução de emissões não significa uma divisão automática de 90% de carros elétricos e 10% de híbridos.

Mesmo com possíveis flexibilizações, a direção continua sendo reduzir muito as emissões e ampliar a eletrificação. Portanto, a F1 precisa discutir seu futuro dentro desse cenário, sem fingir que a transição é uniforme ou que a combustão desaparecerá de todos os mercados.

Combustível sustentável ajuda, mas não responde a tudo

Os combustíveis sustentáveis são um argumento relevante a favor da continuidade do motor a combustão interna. Inclusive, o regulamento de 2026 já exige combustíveis que atendam aos critérios de sustentabilidade da FIA.

Entretanto, combustível sustentável não significa ausência de emissões no escapamento. A avaliação ambiental envolve sua origem, produção e desempenho ao longo do ciclo de vida.

Além disso, o combustível não substitui as possibilidades de pesquisa em baterias, recuperação de energia e motores elétricos. Assim, pode ajudar a justificar um futuro V8, mas não encerra a discussão sobre abandonar a propulsão híbrida.

Menor custo e menor peso precisam aparecer no projeto

Um motor mais simples pode reduzir custos e permitir carros mais leves. Esses são objetivos legítimos, especialmente diante das dificuldades da atual gestão de energia.

Por outro lado, trocar novamente a arquitetura exige desenvolvimento, testes e adaptações. As montadoras precisam avaliar o custo da transição, além da economia prometida depois dela.

Portanto, as metas anunciadas por Ben Sulayem precisam de um projeto técnico e financeiro que as sustente. Uma declaração pública não demonstra, por si só, como a categoria alcançará esses resultados.

Prometer um som emocionante, carros muito mais leves e custos drasticamente menores rende uma boa manchete. Porém, sem explicar os compromissos necessários, o discurso ganha aparência de promessa política. O fã merece mais do que um slogan acompanhado de uma data.

O ronco também precisa caber nas cidades

O impacto sonoro merece atenção, principalmente quando a corrida acontece no meio ou perto de residências, hotéis e atividades comerciais. Para o fã na arquibancada, o som pode ser parte essencial do espetáculo. Para quem mora ao lado, a experiência pode ser extremamente desagradável.

Por isso, um projeto que pretenda recuperar a sonoridade dos antigos aspirados precisa considerar a convivência com o entorno dos circuitos e as condições locais de realização dos eventos.

Entretanto, não há base para afirmar que todos os circuitos de rua ficarão automaticamente impedidos de receber um V8. Isso dependerá das características do motor, do nível de ruído e das autorizações de cada local.

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A F1 precisa de uma solução, não apenas de uma promessa

O regulamento atual merece críticas. Melhorar a pilotagem, reduzir o peso e evitar que a gestão de energia prejudique o espetáculo são necessidades reais. Porém, isso não prova que eliminar a propulsão elétrica seja a resposta.

Na avaliação do Autoracing, anunciar o retorno do V8 como solução pronta transmite uma certeza que as informações apresentadas ao público ainda não sustentam. O discurso tem forte apelo político: oferecer aos fãs um símbolo querido do passado é mais fácil do que explicar os compromissos técnicos e comerciais do futuro.

Um V8 híbrido pode encontrar espaço nessa negociação. Já um V8 exclusivamente a combustão enfrentaria obstáculos quase intransponíveis para justificar sua relevância tecnológica e conquistar novos investimentos.

Adoramos o ronco. Mas a Fórmula 1 de 2030 ou 2031 precisa oferecer mais do que uma trilha sonora de outra época. Ben Sulayem precisa mostrar como sua promessa funcionará e qual projeto os fabricantes aceitarão financiar, depois dos bilhões já investidos na tecnologia híbrida.

AS - www.autoracing.com.br

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