Exclusivo: A IA não manda num carro de Fórmula 1
quarta-feira, 23 de setembro de 2026 às 10:51
O piloto seleciona os modos disponíveis e adapta sua tocada
A IA não manda num carro de Fórmula 1 nem decide autonomamente, durante uma volta, quando o piloto receberá potência elétrica. Contudo, existe uma explicação muito mais interessante por trás dessa aparente contradição.
O assunto surgiu no Loucos por Automobilismo desta terça-feira. Durante o programa, Adauto Silva explicou que a IA pode participar do desenvolvimento dos mapas utilizados pelas equipes. Entretanto, ela não fica dentro do carro tomando decisões novas e reprogramando a unidade de potência durante a corrida.
“A IA é antes, não na hora”, resumiu Adauto no Loucos.
Essa definição separa três coisas que frequentemente aparecem misturadas: inteligência artificial, algoritmos de gerenciamento e mapas previamente programados.
IA pode ajudar a criar os mapas da F1
Antes de cada GP, as equipes realizam milhares de simulações para descobrir a melhor forma de utilizar a energia disponível. Elas analisam o traçado, as retas, as curvas, os pontos de ultrapassagem, a recuperação elétrica e o consumo de combustível.
Nesse processo, ferramentas de inteligência artificial e aprendizado de máquina podem ajudar a encontrar combinações eficientes. No entanto, engenheiros e pilotos avaliam os resultados antes de qualquer configuração chegar ao carro.
Portanto, a equipe não precisa aceitar automaticamente aquilo que a ferramenta sugeriu. Ela pode alterar, combinar ou simplesmente descartar uma solução.
Os engenheiros também refinam essas configurações durante o fim de semana. Os dados dos treinos livres mostram a aderência real, o desgaste dos pneus, o comportamento do carro e a quantidade de energia recuperada.
Consequentemente, novos ajustes podem surgir depois do TL1 ou do TL2. Em alguns casos, a equipe prepara uma configuração específica para a tocada de determinado piloto.
Foi justamente isso que uma fonte do Autoracing dentro da Mercedes revelou sobre o trabalho de Kimi Antonelli com seu engenheiro Peter Bonnington, o Bono.
Mapas e “strats”: o que o piloto realmente escolhe
Quando o engenheiro pede pelo rádio “strat 2”, “strat 5” ou outra posição, normalmente está indicando uma configuração no seletor de estratégia do volante.
Embora possamos chamá-la simplesmente de mapa, uma “strat” pode envolver um conjunto maior de parâmetros. Entre eles estão entrega de potência, recuperação elétrica, consumo, temperaturas e comportamento da unidade de potência.
O piloto pode selecionar essas configurações durante a volta. Além disso, dispõe de recursos específicos, como o botão de boost para atacar ou defender.
Entretanto, ele não escolhe manualmente, metro por metro, quando o MGU-K começa a entregar ou deixa de entregar energia. Depois da seleção do modo, o software executa automaticamente a estratégia programada.
Para isso, a central considera informações do próprio carro, como velocidade, marcha, posição do acelerador, carga da bateria e ponto da pista.
Em outras palavras, existe uma execução automática em tempo real. Porém, isso não significa que uma inteligência artificial esteja criando decisões novas ou modificando livremente o carro enquanto ele circula.
Piastri diz que não controla toda a entrega elétrica
Oscar Piastri explicou esse problema durante a entrevista oficial da FIA antes do GP da Hungria. Segundo o piloto da McLaren, a importância da eletricidade tornou qualquer diferença na programação muito mais perceptível em 2026.
“Não temos controle sobre onde acontece a entrega de energia, mais ou menos. Você pode apertar o botão de boost, mas ele serve mais para ultrapassagens”, afirmou Piastri.
Depois, perguntaram se ele às vezes se sentia passageiro de um programa de inteligência artificial ainda em aprendizado.
“Às vezes, sim”, respondeu o australiano.
A declaração descreve a sensação do piloto, mas não significa que uma Inteligência Artificial esteja assumindo os comandos. Na prática, Piastri ainda não conseguiu compreender e explorar tão bem quanto Norris as diferentes estratégias de gerenciamento energético previamente configuradas e executadas pelo software.
A diferença não está na existência de uma IA que escolhe por um piloto e obedece ao outro. Está na capacidade de cada um para compreender o sistema, adaptar sua tocada e explorar melhor os mapas disponíveis.
Se a bateria reduz sua entrega antes do fim da reta, por exemplo, o piloto permanece com o pé no porão. Contudo, recebe menos potência porque o sistema está cumprindo o gerenciamento previsto.
Portanto, o software executa ações operacionais dentro dos parâmetros programados. Ele não inventa uma nova estratégia nem aprende autonomamente durante aquela volta.
A equipe não controla o carro remotamente
O regulamento esportivo da FIA determina que o piloto deve conduzir o carro sozinho e sem assistência. Entretanto, isso não significa que ele precise controlar individualmente todos os sistemas eletrônicos.
A central eletrônica gerencia diversas funções automaticamente, desde que elas respeitem o regulamento e as configurações previamente aprovadas.
Por outro lado, a equipe não pode enviar uma ordem eletrônica dos boxes para alterar o funcionamento do carro. A comunicação por rádio também precisa permanecer separada dos sistemas de transmissão de dados.
Assim, o engenheiro pode pedir que o piloto selecione determinada “strat”. Porém, é o piloto quem precisa girar o seletor ou apertar o botão no volante.
Essa diferença é fundamental. A equipe orienta, o piloto executa e o software cumpre o programa carregado no carro.
O piloto tem a importância decisiva
Os mapas não tornam todos os pilotos iguais. Pelo contrário, determinada configuração pode exigir uma tocada muito específica para funcionar.
Um piloto pode frear mais tarde e reduzir mais marchas para aumentar a recuperação de energia. Em outro trecho, pode fazer lift and coast ou mudar a forma de reacelerar. Além disso, pode economizar eletricidade onde uma ultrapassagem seria praticamente impossível e utilizá-la onde existe uma oportunidade real.
Por isso, Antonelli e Bono conseguem preparar configurações adaptadas à maneira como o italiano pretende conduzir. Russell pode ter acesso ao mesmo mapa, mas precisaria reproduzir a tocada prevista para extrair exatamente o mesmo resultado.
O piloto também precisa saber quando aquela configuração pode ser utilizada. Alguns modos aumentam as exigências sobre bateria, freios, câmbio e temperaturas. Portanto, não permanecem necessariamente disponíveis durante toda a corrida.
Nesse ponto, inteligência, sensibilidade e capacidade de adaptação continuam fazendo uma diferença enorme.
Quero ser VIPAfinal, quem manda: piloto, software ou IA?
A inteligência artificial pode ajudar os engenheiros a analisar dados e desenvolver estratégias antes de o carro entrar na pista. Depois, os algoritmos e mapas carregados na central eletrônica executam automaticamente o gerenciamento da unidade de potência.
Enquanto isso, o piloto seleciona as configurações disponíveis, utiliza os comandos permitidos e adapta sua tocada ao comportamento previsto.
Portanto, dizer que a IA pilota o carro ou decide autonomamente o que fazer durante a volta é incorreto. A inteligência artificial pode ajudar na preparação. Depois, o software executa aquilo que foi programado, enquanto o piloto escolhe os modos disponíveis e adapta sua tocada.
Como explicamos no Loucos, a IA pode participar antes. Durante a corrida, não existe uma inteligência artificial improvisando, aprendendo ou assumindo os comandos do carro.
É o piloto quem manda.
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