Madring resgata desafio à moda antiga na Fórmula 1
quarta-feira, 9 de setembro de 2026 às 13:17
Brando Badoer acelera durante os testes da Fórmula 3 em Madring, circuito que promete exigir precisão absoluta dos pilotos
Em um momento de fortes críticas aos novos carros da Fórmula 1, o circuito de Madring promete devolver à categoria algo que muitos acreditavam estar desaparecendo: uma pista à moda antiga, desafiadora e incapaz de perdoar erros.
O novo circuito do GP da Espanha receberá sua primeira corrida neste fim de semana. Muros próximos, zebras agressivas, curvas cegas e mudanças de elevação formarão um teste completo para pilotos e equipes.
A pista mistura características de Mônaco, Macau e Jeddah. Os muros ficam próximos, algumas zebras não permitem qualquer abuso e várias curvas lançam os carros diretamente contra as barreiras caso o piloto erre por poucos centímetros.
Esse conjunto promete uma classificação espetacular. Ao mesmo tempo, porém, existe o risco de a corrida se transformar em uma procissão, pois Madring oferece poucas oportunidades claras de ultrapassagem.
Teste da F3 deixou um alerta preocupante
Os dois dias de testes da Fórmula 3 realizados em Madring forneceram a primeira amostra real do tamanho do desafio. O resultado assustou as equipes: 19 bandeiras vermelhas, três chassis quebrados e uma longa relação de suspensões e outros componentes danificados.
“Tudo bem, são pilotos de Fórmula 3, mas é uma pista que destrói carros”, resumiu James Vowles, chefe da Williams, ao veículo espanhol Sport.
Segundo apuração do site The Race, algumas equipes da categoria ficaram bastante insatisfeitas com a quantidade de prejuízos acumulados durante a atividade.
Por outro lado, o teste cumpriu uma função importante. Os organizadores solicitaram o evento justamente para encontrar problemas antes da chegada da F1 e evitar uma estreia como a de Las Vegas. Em 2023, uma tampa de bueiro solta interrompeu o TL1, destruiu o carro de Carlos Sainz e provocou a revolta de Fred Vasseur.
A Ferrari já havia realizado um dia de filmagem em Madring durante julho. Entretanto, naquela ocasião, várias áreas da pista ainda estavam em uma condição rudimentar. Portanto, coube à F3 fazer o primeiro teste verdadeiramente representativo do circuito.
O dado mais inquietante não está apenas nas 19 interrupções, mas na distribuição dos acidentes. Os pilotos bateram em diferentes partes da pista, mostrando que Madring não possui uma única armadilha principal. O perigo aparece repetidamente ao longo da volta.

As 19 bandeiras vermelhas do teste da F3 ocorreram em diferentes pontos de Madring, revelando perigos espalhados por toda a volta
Essa característica também preocupa pelo impacto financeiro. Nesta altura da temporada, várias equipes administram cuidadosamente os recursos que ainda possuem dentro do limite de custos. Um acidente forte pode consumir dinheiro reservado para atualizações ou para a produção de peças sobressalentes.
Muros punem qualquer erro de trajetória
Freddie Slater, líder do campeonato de F3 e piloto apoiado pela Audi, acredita que a principal dificuldade está na forma como os muros acompanham as saídas das curvas.
“Os muros vêm em sua direção na saída, em vez de se afastarem, como acontece na maioria das pistas”, explicou Slater. “Você está sempre tentando sair da curva e se afastar deles, em vez de simplesmente maximizar a trajetória.”
Consequentemente, Madring cria um dilema. O piloto precisa atacar para produzir um bom tempo, mas qualquer excesso cobra um preço muito alto.
Se ele adotar uma margem de segurança grande demais, perde rendimento. Caso procure o limite, fica exposto às barreiras, às zebras agressivas e às mudanças de elevação.
Apesar dos riscos, Slater colocou Madring entre suas pistas preferidas. Segundo ele, o traçado transmite uma sensação de “velha guarda”, semelhante à encontrada em alguns circuitos britânicos e em Macau.
Não se trata, portanto, de mais uma pista urbana formada apenas por curvas de 90 graus. Madring tem personalidade própria, variações de ritmo e uma sequência de desafios que exige precisão do início ao fim da volta.
Chicane receberá os carros a cerca de 340 km/h
A volta começa com uma chicane lenta, seguida por um trecho percorrido com o acelerador totalmente aberto nas curvas 3 e 4. Logo depois aparece uma das áreas mais perigosas: a segunda chicane.
Os pilotos chegarão à sua entrada a aproximadamente 340 km/h, utilizando uma das duas zonas de potência máxima do circuito. Em seguida, precisarão atacar zebras que não toleram uma trajetória imprecisa.
Durante os testes, vários carros da F3 sofreram danos naquele ponto. A necessidade de carregar velocidade torna a situação ainda mais delicada, pois o trecho seguinte começa em subida e qualquer hesitação custa bastante tempo.
“É ali que se ganha muito tempo de volta”, afirmou Slater. “Por isso, muita gente arrisca, mas provavelmente também é o lugar onde mais ocorrem acidentes.”
Na prática, a chicane lembra uma versão ainda mais extrema da antiga “Singapore Sling”, a sequência de três vértices que existia em Singapura. O piloto aponta o carro em direção ao muro e depende de uma execução perfeita para escapar dele.
Simulações domésticas podem transmitir a impressão de que será possível atacar livremente as zebras. O teste da F3 indicou justamente o contrário: o piloto precisará escolher com enorme precisão onde colocar as rodas.
La Monumental exigirá muito mais dos pneus
Embora existam vários pontos perigosos, a grande atração de Madring será a La Monumental. A curva possui 24% de inclinação e supera com ampla margem as curvas inclinadas de Zandvoort.
Entretanto, o desafio não começa apenas nela. Antes de chegar ao trecho inclinado, os pilotos enfrentam uma chicane apertada e uma rápida mudança de direção nas curvas 10 e 11. Vários competidores da F3 erraram justamente nessa aproximação.
Depois dessa sequência, o carro entra na La Monumental, onde a carga vertical e a energia transmitida aos pneus atingirão níveis excepcionais.
Simone Berra, engenheiro-chefe da Pirelli, classificou o trecho como “a curva mais severa” do campeonato. Segundo seus cálculos, ela aplicará de 20% a 30% mais energia sobre os pneus do que as curvas inclinadas de Zandvoort.
Além disso, existe uma diferença fundamental entre os dois circuitos. Em Zandvoort, a potência disponível ajuda a definir o limite. Em Madring, a aderência dos pneus deverá representar a principal restrição.
A saída também será totalmente cega. Portanto, o piloto precisará confiar no carro e manter o acelerador mesmo sem enxergar completamente o ponto para onde está indo.
Pilotos poderão escolher trajetórias diferentes
Durante o teste, os pilotos da F3 experimentaram trajetórias diferentes, algo que certamente voltará a acontecer no TL1 da F1. A inclinação permite explorar linhas mais altas ou mais baixas, dependendo do acerto e do comportamento dos pneus.
“É como estar em um oval da IndyCar”, comparou Slater.
Além disso, o piloto acredita que a curva pode ser feita com o pé embaixo na F3, mas prevê uma dificuldade maior na F2 e na F1. A compressão também pode provocar batidas severas do assoalho contra o solo, especialmente na região da crista.
Assim, uma curva que parece simples à primeira vista exigirá decisões importantes de acerto. As equipes precisarão controlar a altura do carro sem sacrificar demasiadamente o desempenho no restante da volta.
Madring praticamente não oferece descanso
A La Monumental aparece apenas na metade do circuito. Depois dela, os pilotos ainda enfrentarão várias curvas técnicas, incluindo a apertada curva 17 à direita.
Há pouca oportunidade para respirar ou reorganizar a volta. Mesmo os trechos de menor velocidade exigem que o carro se aproxime muito dos muros.
Taito Kato, vencedor da Sprint da F3 em Monza, resumiu a situação: “Se você quiser baixar o tempo, precisa acelerar forte e chegar bem perto do muro. É arriscado, mas divertido de pilotar”.
Essa combinação deverá valorizar a confiança. Em uma classificação apertada, o piloto disposto a assumir alguns centímetros extras de risco poderá encontrar uma diferença considerável.
Por isso, Arvid Lindblad definiu Madring como “um circuito para pilotos de verdade”. A expectativa é de margens mínimas e possibilidade de surpresas no grid, como ocorreu em Monza.
Pilotos esperam acidentes e interrupções
Durante o desfile dos pilotos em Monza, Madring virou um dos principais assuntos das conversas. Carlos Sainz revelou que seus colegas ficaram impressionados com a personalidade do circuito.
O espanhol nasceu em Madri e atua como embaixador do GP. Ainda assim, ele não esconde a possibilidade de um fim de semana caótico.
“Todos nós esperamos safety cars, bandeiras vermelhas e bandeiras amarelas durante a classificação”, afirmou.
Gabriel Bortoleto também descreveu a pista como interessante, perigosa e muito desafiadora. Sergio Perez, por sua vez, não acredita que Madring seja mais perigoso do que Jeddah.
A comparação está longe de representar tranquilidade. Jeddah já produziu acidentes fortíssimos, incluindo a batida de Mick Schumacher na classificação de 2022. O impacto causou tantos danos à Haas que o alemão não participou do GP.
Portanto, Madring talvez não ultrapasse os limites de segurança adotados em outros circuitos urbanos, mas certamente não permitirá erros sem consequências.
Classificação promete mais do que a corrida
Se a classificação tem todos os ingredientes para se tornar uma das melhores do ano, o cenário da corrida provoca dúvidas.
Madring possui muitas curvas fechadas, poucas retas e quase nenhuma zona clássica de frenagem forte. Por isso, os pilotos terão dificuldade para colocar o carro ao lado de um adversário.
Além disso, o traçado oferece várias oportunidades de recuperação de energia. A tendência é que os carros não sofram o mesmo problema de disponibilidade elétrica observado em circuitos como Monza e Silverstone.
Consequentemente, as diferenças de desempenho nas retas podem diminuir. Isso aproxima Madring de uma corrida como a da Hungria, na qual a posição de pista e a estratégia exercem enorme influência.
Alex Albon não demonstrou muito otimismo.
“Acho que não vai haver ultrapassagem nenhuma. Espero que vocês tenham saciado a vontade em Monza e ignorem o próximo fim de semana”, brincou o piloto da Williams.
Acidentes, safety cars e bandeiras vermelhas podem embaralhar o GP. Contudo, depender do caos para produzir espetáculo nunca representa uma garantia.
Corridas da F2 e F3 podem influenciar a F1
Antes do GP, Madring receberá cinco corridas das categorias de acesso. A F3 também decidirá seu campeonato, aumentando a pressão sobre pilotos que ainda procuram definir o futuro de suas carreiras.
Portanto, o asfalto poderá acumular borracha, fragmentos e marcas de acidentes antes que os carros da F1 entrem na pista no domingo.
Existe ainda um precedente curioso. Em 2016, antes da primeira corrida da F1 em Baku, a GP2 protagonizou um fim de semana caótico, com 17 abandonos provocados por acidentes nas duas provas.
Depois de acompanharem aquela destruição, os pilotos da F1 adotaram uma postura muito mais cautelosa. Como resultado, o primeiro GP em Baku acabou sendo monótono. O circuito só construiu sua reputação de corrida imprevisível nos anos seguintes.
Sainz estava naquele grid e lembra bem do contraste.
“O GP foi chato. Nós, pilotos de F1, tendemos a ser um pouco mais disciplinados com essas coisas”, explicou.
Segundo ele, os pilotos também carregam uma responsabilidade maior, pois representam centenas de funcionários envolvidos na construção dos carros. Além disso, as equipes nem sempre possuem peças ilimitadas para reparar acidentes durante o fim de semana.
A experiência permite ainda que os pilotos identifiquem rapidamente zebras ou barreiras problemáticas. Sainz acredita que eles poderão repassar suas observações ao diretor de prova e à FIA durante os treinos, permitindo ajustes antes da classificação e da corrida.
Quero ser VIPMadring precisará causar uma boa primeira impressão
Sainz pediu que os pilotos não tirem conclusões definitivas logo após a estreia. Para ele, a F1 deverá analisar com calma aquilo que funcionou, os pontos que precisam mudar e se o circuito está produzindo caos em excesso.
O espanhol lembrou o caso de Miami. A primeira corrida, em 2022, recebeu muitas críticas, mas o evento evoluiu e acabou conquistando seu espaço no calendário.
Madring também terá tempo para melhorar, pois assinou um contrato de longo prazo com a F1. No entanto, a disputa entre cidades interessadas em receber a categoria aumenta a pressão por uma estreia convincente.
O circuito possui os ingredientes necessários para criar imagens espetaculares: muros próximos, curvas cegas, zebras agressivas, altas velocidades e uma inclinação sem paralelo no calendário.
Madring reúne muros próximos, curvas cegas, zebras agressivas, altas velocidades e uma inclinação sem paralelo no calendário. Talvez não produza dezenas de ultrapassagens, mas promete exigir coragem, precisão e talento — qualidades que sempre separaram os melhores pilotos da Fórmula 1. Em uma temporada dominada pelas discussões sobre motores, energia e regulamentos, o novo circuito pode finalmente devolver o protagonismo a quem está dentro do carro.
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