Sempre Interlagos. Por Fernanda de Lima

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Webber se despede em Interlagos 2013

Num dia de despedidas, a de Mark Webber foi definitiva. E linda

Os deuses que regem a tão criticada mas absoluta Interlagos não nos deixaram na mão mais uma vez. Se Interlagos não tem a vista mais bonita e as acomodações suntuosas de um mundo cercado pela luxúria, aquilo que interessa ainda permanece intacto, ou quase. Com todas as mudanças na categoria, com disputas e ultrapassagens cada vez mais esporádicas e sem emoção, a pista de São Paulo ainda nos agracia com boas corridas.

Diferentemente do ano de 2012, em que chegamos ao GP Brasil com oito pilotos com vitórias na temporada, esse ano chegamos com apenas cinco diferentes vencedores. Tá… a diferença para o ano passado nem é tão grande assim. Nesse 2013 que passou voando, Kimi Raikkonen, Sebastian Vettel, Fernando Alonso, Nico Rosberg e Lewis Hamilton garantiram vitórias. A grande diferença de um ano pra cá é que um deles garantiu sozinho mais vitórias do que todos os outros juntos. No domingo, Sebastian Vettel garantiu a 13ª vitória na temporada, número suficiente para fazer o alemão igualar a marca do seu compatriota e ídolo, Michael Schumacher. E não teve nada que Interlagos em toda a sua magnitude pudesse fazer…

A chuva no dia da corrida mesmo não veio, umas gotinhas aqui e outras acolá que não foram capazes de atrapalhar em nada a nona vitória seguida de Vettel. Interlagos foi palco de algumas breves brigas boas, uma delas já na largada, em que Vettel não largou bem e o abusado Nico Rosberg foi pra cima pra ficar com a liderança. Não durou muito, com a sede de 100 camelos, o alemão recuperou o primeiro posto pra não largá-lo mais. Ainda na primeira volta, Fernando Alonso tirou o terceiro lugar de Lewis Hamilton, o britânico que declarou dias antes em São Paulo que o espanhol está na sua lista de pilotos mais agressivos de todos os tempos, ao lado de Ayrton Senna, Juan Manuel Fangio, Gilles Villeneuve e Sebastian Vettel.

Interlagos foi cruel mesmo com a Lotus, especialmente, com Romain Grosjean, que depois de excelentes corridas, abandonou a prova brasileira na quarta volta por causa de um problema no carro. Heikki Kovalainen terminou na 14ª colocação, três abaixo da posição de classificação. E a Lotus? Em quarta no campeonato e sem a sua dupla de pilotos definida para 2014…

Aos poucos a Mercedes foi perdendo rendimento e mostrando aquilo que todos já sabemos, hoje não se fazem equipes campeãs apenas com bons pilotos. Hamilton terminou o Mundial apenas 18 pontos à frente de Rosberg, o que rendeu à equipe o vice-campeonato de construtores, deixando a Ferrari para trás por seis pontos.

Assim como todo final de ano, tivemos algumas despedidas significativas. Há um ano, Hamilton deixava a McLaren para começar uma nova vida na Mercedes. Esse ano, Interlagos ficou marcada pela despedida do brasileiro Felipe Massa da Ferrari. Sua última corrida pela equipe italiana não foi a esperada. O que se esperava da Ferrari para Felipe? Um pódio, na marra ou “cedido” pelo companheiro de equipe. Exatamente o companheiro que Massa serviu tão bem nos últimos anos. A aparente idolatria dos italianos ao brasileiro mostra, pra mim, que a missão de Massa na Ferrari foi cumprida, e que a missão de Massa para Massa era bem clara e definida. Talvez não para os brasileiros que se cansaram de ver um compatriota em segundo plano. Como bem ouvimos por aí, Felipe Massa foi um excelente funcionário e serviu com excelência à equipe. À equipe. Como negar que o trabalho para o qual Massa foi contratado ou eventualmente direcionado não tenha sido bem realizado? Nos cegamos quando buscamos nele um campeão como Vettel e Alonso, não vou nem citar os pilotos brasileiros do passado, na Ferrari, esse nunca foi o papel de Massa. Há tanta implicância com Massa que até da tentativa de zerinho que ele deu no final da corrida, reclamaram. “Faltou originalidade”, “Não sabe nem comemorar, tinha de copiar o alemão”, “Se é pra fazer, faz direito”. Todas as demonstrações de carinho da Ferrari mostram uma reciprocidade, um muito obrigado e talvez aquele sentimento de dever cumprido. No próximo ano, Massa não ficará a pé, mas, de certa forma, depois de tanto tempo terá de aprender a andar com as próprias pernas.

Num domingo de despedidas, a de Mark Webber foi definitiva. E vou dizer que linda. Não pela corrida em si ou pelo resultado. Mark foi segundo colocado porque como era de se esperar, mesmo com carros “iguais”, na Red Bull alguém anda muito na frente. E alguém com muita sede e com muita fome pra ser “solidário”. O australiano foi pra cima de Alonso para garantir o primeiro lugar da Fórmula em que Vettel não aparece. Webber não será lembrado por uma carreira brilhante, por ser um piloto espetacular ou detentor de recordes, mas se a imagem do piloto dando uma volta sem o capacete não ficar em nossas memórias por muitos e muitos anos, eu não sei o que pode ficar…

Eu sempre, sempre, sempre defendi a humanização de todas as coisas. Na minha vida pessoal, no trabalho, no esporte. Vocês nunca me “ouvirão” falando sobre detalhes técnicos da Fórmula 1, sobre tática no futebol, sempre corri mais pro lado que machuca, que dói, que traz emoção, que dá razão a alguma coisa, ou que não dê razão alguma, mas que faça sentir alguma coisa. E Webber fez isso. Tirou a armadura e parece que veio ser gente da gente. Com todas as mudanças, com todas as idas e vindas de pilotos, o nascimento e a queda de equipes, a tecnologia, as máquinas, os gênios, momentos como esses valem toda uma temporada, tenha sido ela boa ou ruim.

Fiquem com aí com o vídeo que tenho certeza que daqui a 20, 30 anos ainda vou querer compartilhar com vocês:

pit stop: Em época de Bom Senso pra cá, Bom Senso pra lá, me pergunto… Onde estava o bom senso quando colocaram a Glenda Koslowsky pra entrevistar os pilotos no pódio? Nada contra a Glenda, obviamente. Assim, rápido, de cabeça: quantos pilotos brasileiros que já passaram pela F1 vocês conseguem lembrar? É. Qualquer um poderia estar ali. Ela não.

Fernanda de Lima

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