Piloto não tem sexo. Por Fernanda de Lima

Danica Patrick

O problema não está na capacidade das mulheres de competir na F1 mas sim nas oportunidades

Acompanho a F1 desde antes de completar uma década de vida. Como já disse uma vez em uma das minhas colunas, as primeiras lembranças me vem à mente desse esporte são imediatamente após a morte de Ayrton Senna. Desses quase 20 anos acompanhando, perdi com prazer incontáveis horas, noites, manhãs de sono para ouvir o ronco dos motores. Mas escrever mesmo sobre o assunto ainda é muito recente para mim.

Quando me surgiu a oportunidade, abracei. Sem pestanejar nem saber por onde começar. Mas começando. O mais legal é o aprendizado, aprender é sempre bom e não me recuso a fazer isso. Recebi dicas, críticas de gente que ama tudo isso tanto quanto eu. Quantas vezes eu quis largar tudo? Inúmeras. Até que naturalmente a gente entende que os contrapontos são saudáveis, são legais e que de repente alguém quer saber a sua opinião.

Gente bacana, que curte, entende o esporte muito mais que você quer saber o que você acha. Você se sente o máximo. Digo, eu me sinto! No entanto, algumas vezes você dá de cara no chão, porque você não tem uma opinião sobre o assunto a ser discutido. Não ter uma opinião é pior do que “não saber” ou “desconhecer” o assunto.

Nesses poucos anos que passei a escrever sobre F1, fui questionada várias vezes sobre um assunto que nunca falei sobre em nenhuma das minhas 66 colunas. Mas agora, decidi. É hora de encarar a responsabilidade.

“Fernanda, gostaria de saber a sua opinião sobre as mulheres na F1.”

Nunca parei seriamente pra pensar nessa possibilidade. Mas acredito que devemos partir da seguinte questão: homens e mulheres podem competir com igualdade de condições na F1?

Fui buscar a opinião e o conhecimento de alguém que há muito estuda a mulher no esporte para sustentar o meu ponto de vista de que com os mesmos recursos e preparação não há motivos para separar o homem da mulher na F1.

Bia Figueiredo

Bia Figueiredo

Conversei com a especialista em Ginecologia do Esporte, Dra. Tathiana Parmigiano, que trabalha com atletas de alto rendimento no esporte brasileiro:

Fernanda de Lima – O quanto os hormônios influenciam no rendimento de uma mulher-atleta para o bem ou para o mal?

Dra. Thatiana Parmigiano – Isso é muito individual. Dizer que toda mulher se incomoda com o fluxo menstrual ou com a TPM também não é verdade, apesar de muitos ainda acreditarem nisso. A irritabilidade, por exemplo, é vista com positividade por algumas mulheres, que se referem mais alertas tendo estes sintomas presentes na TPM.
Minimizar os sintomas negativos também é uma realidade. O uso de contraceptivos hormonais é uma saída de grande sucesso e que permite, ainda, programar o ciclo com calendário competitivo. Cada vez mais o ciclo menstrual deve ser usado ao nosso favor. Ter os hormônios e o controle do ciclo como “aliados” e não “vilões” deve ser o objetivo de toda mulher.

FL – Quais aspectos, além dos ginecológicos, devem ser levados em conta quando falamos da mulher-atleta de alto rendimento?

Dra. – Além do treino com profissional capacitado, não tem como se almejar o alto rendimento sem acompanhamento nutricional e psicológico adequados. O esporte nesse nível exige muita disciplina e diversas restrições. Ter foco em sua meta e estar cercado de bons profissionais se torna essencial.

FL – Em mais de 60 anos, apenas cinco mulheres pilotaram competitivamente um carro de F1. É possível dizer que os reflexos, a agilidade e o raciocínio da mulher são inferiores ao do homem?

Dra. – Acredito que não. A mulher tem diversos parâmetros inferiores ao homem, como a própria força muscular. Mas isso, apesar de ser secundário a condição hormonal, é totalmente constitucional e o que a faz “mulher”. Infelizmente, as oportunidades são, sim, muito inferiores. Há apenas 40 anos foi decretada uma emenda norte-americana exigindo que mulheres e homens recebessem a mesma oportunidade em investimentos esportivos. Foi chamado de “Title IX”.

FL – Numa competição mista, entre homens e mulheres, no período menstrual, a mulher poderia ficar em desvantagem na hora de competir?

Dra. – Se os sintomas de TPM forem presentes e não estiverem sob tratamento adequado, sim. Caso contrário, não se pode fazer essa comparação.

FL – Ciclo menstrual, obviamente, o homem não possui, mas existe algum período de “irritação” parecido que poderia dar alguma vantagem à mulher?

Dra. – Não sei te dizer sobre isso. Mas vale ressaltar que, apesar de a TPM ser sempre vista como “uma grande vilã”, homens e mulheres apresentam alterações de humor que independem do ciclo menstrual e podem estar muito mais caracterizados pelas características de sua personalidade. A TPM em si, acontece 7-10 dias antes do fluxo menstrual e deve melhorar com o mesmo. Sintomas fora dessa fase mereceriam outra avaliação muito mais detalhada, a qual, infelizmente, por vezes é subestimada. Com isso, muitas mulheres e o próprio sexo feminino recebem erroneamente o diagnóstico “simplista” e “caricato” de TPM de maneira imprudente.

FL – “A mulher precisa trabalhar duas vezes mais que o homem para se destacar”. Do ponto de vista de uma ex-atleta e do seu trabalho realizado com várias delas, você acredita nessa afirmação? Ou a mulher, com a mesma preparação do homem, é capaz de entrar numa competição, como a F1, em pé de igualdade com ele?

Dra. – Acho que a mulher precisa trabalhar o que for preciso para ser o que ela quer e obter o que sonha. Se é mais ou menos que o homem, na verdade, não importa. A F1 é uma das poucas modalidades que homem e mulher competem um contra o outro, como na sociedade, em termos de trabalho. Mas, no caso, a mulher tem que se preparar fisicamente para fazer “o seu” melhor. A outra coisa realmente necessária é que tenha condições para competir de igual pra igual (carro, patrocínio…). Aí… que vença o melhor!!

giovanna-amati

Giovanna Amati

É isso, amigos. Claro que o aspecto ginecológico não deve ser o único levado em consideração como a própria Dra. Tathi disse, mas essa é uma boa resposta a declarações como a de Jenson Button em 2005, lembram-se? “Danica [Patrick] é muito rápida. Mas em carros de F1, não consigo ver isso acontecer, devido à força G em curvas de alta velocidade. E uma semana por mês você não gostaria de estar no circuito com elas, gostaria? Uma garota com grandes seios nunca poderia ficar confortável nos monopostos. E os mecânicos não iriam se concentrar”.

Giovanna Amati (Brabham, 1992), última representante feminina na F1, talvez tenha a melhor explicação para essa discussão. A italiana vistosa, no auge de seus 29 anos, foi questionada com “O que é ser mulher na F1? Os homens te intimidam? Te tratam bem?”. Giovanna respondeu: “Fora da pista sou mulher, lá dentro sou só piloto, e piloto não tem sexo.” Giovanna não participou de provas efetivamente porque não conseguiu se classificar para nenhuma das três corridas que tentou. Foi substituída por Damon Hill, que também não conseguiu se classificar com o mesmo carro.

O problema não está na capacidade das mulheres mas sim nas oportunidades. Um número muito restrito de pilotos alcança a categoria. Percentualmente, o número de mulheres no automobilismo é inferior ao do homem, reduzindo drasticamente a possibilidade de uma delas chegar a um F1. Ainda falta incentivo e apoio desde o início da carreira, como o mesmo Button que criticou há alguns anos, voltou com um discurso mais ameno recentemente: “O grande problema é que não creio que são dadas oportunidades à elas quando mais jovens. Há algumas mulheres correndo na Nascar, que inclusive venceram provas”.

As portas ainda andam enferrujadas, mas as mulheres na F1 podem trazer de volta o interesse pela categoria que tem diminuído a cada ano. O mercado e os investidores, se não estão, deveriam estar de olho nessa lacuna que tudo para ser bem preenchida. E acho que as mulheres no pitwall serão grandes aliadas nisso. Aprovando ou não, a novidade sempre atrai. Basta reparar no quanto foi repercutida e, de certa forma, celebrada a presença de Gill Jones, engenheira eletrônica da Red Bull, como representante da equipe vencedora no GP do Bahrein de 2013.

Fernanda de Lima

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