O patinho feio virou cisne

Pastor Maldonado - GP da Espanha 2012

Na terra de Alonso quem brilhou foi Maldonado

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E deu Maldonado na cabeça. Quem diria? Quem apostou nele um centavo que seja? Ninguém, garanto eu. Mas ninguém mesmo. Porque, além do mais, ele corre com um carro da Williams, equipe que também estava longe, muito longe de figurar como vencedora em qualquer prognóstico, por mais tresloucado que fosse. Mas o venezuelano, visto como o patinho feio da Fórmula 1, ganhou com uma categoria digna de um sério candidato ao título deste ano e saiu de Barcelona como um cisne garboso. E tem mais: considerando o modo e o local desta vitória, ele pode mesmo chegar bem mais para a frente no campeonato. Basta repetir em Mônaco a atuação do domingo em na Catalunha.

Poderia ser já no próximo Grande Prêmio, o de Mônaco. Não por acaso, já que é exatamente nas ruas do principado que ele costuma obter seus melhores resultados. Venceu lá na World Series by Renault em 2006, e na GP2 em 2007 e 2009, subiu ao pódio em cinco corridas e era quinto colocado no ano passado quando foi abalroado por Lewis Hamilton – depois de ter colocado seu Williams em oitavo lugar no grid. Vença ou não nas ruas de Monte Carlo, Maldonado já sintetizou este campeonato, onde ninguém é de ninguém e qualquer resultado pode acontecer, por mais inesperado que seja. Mas depende não de um ou dois fatores, é o fruto de um conjunto que engloba a tática, a posição de largada, o trato correto dos pneus e uma pilotagem perfeita. Tem sido assim nas cinco corridas do ano, e tudo indica que assim será até a 20ª e última.

Está certo que a corrida de Barcelona veio logo após os três dias de testes em Mugello, mas e daí? Quem se lembra dos resultados, e não faz tanto tempo que se possa esquecê-los, a Williams foi destacadamente a mais lenta nos dois primeiros dias e a sétima entre 12 equipes no último. Mesmo assim, Maldonado deitou e rolou em Barcelona, palco presumido da festa de Fernando Alonso, cuja Ferrari vinha plena de inovações – ou seria melhor chamá-las correções? Sejam elas o que forem, o fato é que Alonso largou na primeira fila, batido apenas por Maldonado (sempre ele) e por Lewis Hamilton, que viu sua magnífica pole position desperdiçada por dois erros da McLaren e, principalmente, pela tentativa desonesta e arrogante de enganar os comissários técnicos travestindo como força maior sua enorme patacoada.

Pois bem reza a tradição que, no circuito da Catalunha vence quem larga na pole position. Tem sido assim desde 2001 – a exceção foi 2011, quando Mark Webber largou na pole e Sebastian Vettel venceu, mas ambos corriam com o mesmo carro, o Red Bull. Dessa vez a tradição foi mantida, mas não como das outras vezes, em que o dono do melhor tempo do qualify disparava na frente e sumia. Não, muito pelo contrário. Quem liderou as primeiras voltas foi Alonso, que havia trabalhado obsessivamente na embreagem para conseguir liderar mesmo largando na parte suja da pista, aquela por onde os carros nunca passam nos treinos e, portanto, carece do valioso emborrachamento.

Mas o venezuelano, cuja carreira até aquele momento se caracterizava por muita velocidade e pouco juízo, não se incomodou. Estabeleceu-se em segundo, se livrou de um possível, até provável, assédio da Lotus de Kimi Raikkonen e confiou no acerto de sua tática. Ela começou pelo qualify, quando Maldonado utilizou os três jogos novos de pneus macios e guardou igual número de duros para a corrida. Afinal, Barcelona é a pista que mais desgasta os pneus, pela ordem o dianteiro esquerdo e os traseiros. A seu asfalto altamente abrasivo se soma o traçado, que compreende curvas de alta velocidade, principalmente a 3, a 10 e a 11.

A posição de largada, mesmo herdada pela desclassificação de Hamilton, já tinha gerado temores. Desde o começo do ano está claro que, durante as corridas, os carros da Williams mantêm bom ritmo e não sacrificam demais os pneus. Largando na frente, a equipe inglesa parecia capaz de reviver seus dias de glória. E se não o fizesse, já se tinha um provável culpado: o açodado Maldonado, que havia jogado fora o sexto lugar no Grande Prêmio da Austrália na última volta, tentando se aproximar da Ferrari de Alonso mais do que permite a exacerbada dependência da aerodinâmica atual.

Mas não foi isso que se viu. Já na segunda volta, Maldonado foi mais de 3/10 de segundo mais rápido do que Alonso, e até a Ferrari se dirigir aos boxes para trocar os pneus macios por um jogo usado dos duros, a diferença entre eles só passou de 1s6 em uma única volta – na maioria, ficou abaixo de 1s3. A questão era saber como se comportariam os dois carros com o segundo jogo de pneus. Alonso preparou sua parada, na 10ª volta, com o tempo de 1min33s158, incluindo a desaceleração para entrar nos boxes. A resposta de Maldonado, na 11ª, foi melhor: 1min32s929. Isso depois de ter sido mais rápido que o espanhol nas duas voltas anteriores, reduzindo a desvantagem em quase meio segundo.

Os tempos no retorno à pista, porém, apontaram na direção do espanhol. Alonso marcou 1min45s421 e Maldonado, 1min46.213, mesmo tendo a vantagem incontestável de contar com pneus zero quilômetro, e a diferença entre os dois primeiros passou a ser de 3s452. Confortável, segura, um viva para Alonso, que vai ser o primeiro a vencer duas corridas neste imprevisível 2012!!!

Durou pouco a ilusão. Da 13ª à 23ª volta, a Williams só foi mais lenta que a Ferrari em uma ocasião, assim mesmo por meros 0s021. Quando a diferença caiu para 1s5 e a aproximação começou a trazer a ameaça da perda de pressão aerodinâmica, Maldonado e seu engenheiro Xavi Pujolar deram o golpe de mestre: mesmo com os pneus em melhor estado que os de Alonso, por serem novos e terem uma volta a menos, eles decidiram entrar nos boxes na 24ª volta. Na entrada, Maldonado marcou 1min32s910 e, na saída, 1min44s072, com mais um jogo novo de pneus duros; Alonso entrou na 26ª, marcando 1min33s382 e, ao sair, 1min46s610, caindo inexoravelmente para segundo. Na volta posterior, a 28ª, Maldonado foi 0s603 mais rápido e a diferença entre líder e vice-líder atingiu inacreditáveis 7s257 na 30ª passagem.

Absolutamente superior, o venezuelano ainda era encarado com desconfiança. Afinal, sua vida pregressa incentivava a previsão que, mais cedo ou mais tarde, ele erraria e devolveria a Alonso a vitória que lhe era de direito. Ledo engano. Sereno, maduro, Maldonado se mostrou perfeito volta a volta, sempre incentivado a pensar nos pneus por Pujolar – provavelmente uma maneira de evitar que ele perdesse a concentração e jogasse seu carro contra um guard rail. Deu certo. Alonso ainda tentou de tudo na fase final, chegou a estar a apenas 0s676 na 57ª volta, mas os pneus cobraram em desempenho este esforço e daí para a frente a diferença para o líder subiu até os 3s195 que os separaram na bandeirada.

Era apenas sua 24ª corrida na Fórmula 1. Mesmo assim, o venezuelano rápido mas amalucado de antes conquistou a vitória perfeita, trabalhada, batendo Alonso em seu território e levando a equipe inglesa de volta a um círculo de vencedores que ela não frequentava desde o GP do Brasil de 2004. Foi o 114º triunfo da gloriosa organização de Sir Frank Williams, que lá estava como se esperasse o sucesso daquele domingo de sol; foi também a 27ª vitória de Maldonado desde que, em 2003, chegou à Europa para disputar o campeonato italiano de F-Renault 2.000, cujo título conquistou no ano seguinte.

A ironia disso tudo foi o desempenho de Bruno Senna. Fazer o 18º tempo, ser eliminado na primeira sessão de classificação e só largar em 17ª por causa da punição a Hamilton contrasta fortemente com os resultados de Maldonado – aquele mesmo Maldonado a quem Bruno bateu na prova da GP2 de Mônaco em 2008, levando o mundo a sonhar com a volta do sobrenome Senna aos tempos de glória. Bruno havia largado e chegado em primeiro, com o venezuelano sempre em segundo. E se nos primeiros quatro pelotões de largada da F1 deste ano o venezuelano o superava por 3 a 1, nas corridas o brasileiro sempre levou a melhor. Voltas que o mundo dá…

Mesmo abalroado quando era o oitavo colocado, Bruno só havia chegado lá graças à sua estratégia (altamente discutível) de permanecer mais tempo na pista com o primeiro jogo de pneus. Mas eis que, de repente, surge um tresloucado Michael Schumacher em quem não se pode mais reconhecer o consagrado heptacampeão de tempos idos. Sem que nem por quê, o alemão bate no carro do brasileiro por trás ao errar claramente a avaliação da diferença de velocidade entre seu carro, que iniciava apenas a terceira volta com um jogo de pneus novos, e o de Bruno, que já percorria a 13ª com pneus macios – sabidamente pouco duráveis na pista catalã. Bastaria Schumacher considerar a velocidade com que se aproximara de Senna para se dar conta da formidável diferença de ritmos. Na volta anterior, a Mercedes marcara 1min32s294, a  manquitolante Williams 1min32s879.

Não seria necessária a capacidade dedutiva de um Einstein para pressentir que Bruno, já sem aderência em seus pneus, frearia muito antes dele. Mas Schumacher não notou e bateu na traseira do adversário como se tivesse perdido os freios. E ainda se deu à arrogância de classificar sua vitima como idiota, adjetivação que o expôs a profundo ridículo ao ser recuperada e exibida para todo o mundo pela transmissão do Grande Prêmio. Além disso, ainda vai amargar a perda de cinco posições no grid de Mônaco, o que para muitos parece até pouco.

Na verdade, não chega a surpreender, não foi a primeira vez que o alemãozão fez dessas lambanças. Nem que se recusou a admitir seus erros. O que ele não parece ver é que, pouco a pouco, corrida a corrida, ele vem desconstruindo sua imagem de grande campeão. Na semana que antecedeu à prova espanhola, ele voltou a criticar a pouca durabilidade dos pneus deste ano. Em sua muito particular opinião, eles deviam aceitar que os pilotos andassem todas as voltas de todas as corridas nos seus limites. A Pirelli reagiu dizendo que faz o que lhe foi pedido, que se fosse esta a vontade dos pilotos e dos organizadores (leia-se Bernie Ecclestone), ela lhes proporcionaria pneus eternamente duráveis. Mas, infelizmente, prosseguiu a empresa, só um piloto, apenas e tão somente um piloto, parecia descontente com a situação.

Para completar seu constrangimento, Schumacher teve de engolir a opinião de seu companheiro de equipe e algoz Nico Rosberg que são exatamente os pneus que ensejam um campeonato tão imprevisível quanto este. E a de Mark Webber, que se os pilotos pudessem andar nos seus limites o tempo todo, como nos tempos da Bridgestone, todas corridas seriam vencidas pelo melhor carro, e não é isso que o público quer.

A consequência destes desagradáveis momentos protagonizados por Schumacher foi que todo o paddock voltou a questionar o acerto de seu retorno às pistas. Desde que chegou, em 2010, ele não produziu um único momento que lembrasse o que um dia já foi. Se começou o ano melhor que Rosberg nas provas de classificação, agora já perde por 3 a 2. No campeonato, a surra é impiedosa: mesmo sem marcar pontos nas duas etapas iniciais, Nico tem hoje 41 pontos contra 2, apenas 2 de Schumacher.

Talvez isto explique seu azedume, sua precipitação e seus erros de novato sem lá muito jeito para a coisa. Em sua coluna, o editor de Fórmula 1 da insuspeita BBC inglesa, o respeitado e experiente jornalista Andrew Benson, relata um fato pelo menos sintomático. Ao questionar um dos hierarcas da equipe sobre a renovação do contrato do alemão, que se encerra neste ano, ele recebeu uma resposta em que o adjetivo medíocre foi usado sem a menor cerimônia para classificar suas atuações. Isso, porém, não significa que ele estará fora em 2013, mas apenas por seu valor comercial. Ao definir o GP da China, aquele vencido por Rosberg, como um fim de semana perfeito, o chefe do setor de competições da Mercedes, Norbert Haug, considerou memorável a atuação de Schumacher no encontro com clientes da indústria alemã. E para sua empresa, isso parece bastar.

Se Schumacher ainda sobrevive em meio a águas revoltas, tudo indica que seu irmãozinho Felipe Massa, como ele o chama, esteja a ponto de naufragar. Em mais um de seus comentários recobertos de cinismo, a Ferrari renova seus votos de que o brasileiro a ajude a conquistar o campeonato de construtores, urgindo-o a marcar pontos já em Mônaco. Para isso, lhe garante um carro igual ao de Alonso. Melhor seria dizer que lhe garante um carro igual ao feito sob medida para Alonso, desenvolvido para Alonso, a quem incumbiu de avaliar e desenvolver as novas peças testadas em Mugello. Onde o espanhol teve carro e equipe a seu dispor por dois dias, enquanto a Felipe coube comparar sistemas de descarga já usados neste ano.

Não sou cego. Concordo que Felipe Massa está longe do que foi um dia, que suas atuações atuais não são nem sombra do que foram até o malfadado acidente da Hungria em 2009. Ou à ainda mais malfadada ordem de ceder a Alonso o primeiro lugar no GP da Alemanha de 2010. Naquele dia, a Ferrari quebrou o espírito de Massa, aquela ordem soou a ele, e a muitos, como uma traição. E consolidou a imagem de que Maranello só sabe e só quer fazer um carro, que só sabe e só quer conviver com um piloto vencedor e para tanto faz do seu companheiro gato e sapato.

Não consigo entender como a Ferrari tem o desplante de emitir notas em que tenta travestir de justa sua postura infame. O que explica ela mandar Massa à pista no Q2 no meio de um pelotão que ainda aquecia os pneus? Por que não o soltou um pouco antes, quando a pista estava vazia e havia enorme probabilidade dele poder fazer uma volta no limite? E durante a corrida, quando Massa manteve Hamilton na sua cola, bufando como um touro, da 17ª à 28ª volta, a atuação do brasileiro foi acima até à do Bahrein, onde sua volta mais rápida foi melhor que a de Alonso.

Mas o drive through por ter aberto a asa traseira em zona de bandeira amarela lhe foi fatal. Estranho, não consigo me lembrar de ter ouvido seu engenheiro Rob Smedley adverti-lo de que havia uma bandeira amarela no fim da reta. Logo ele, que quase sempre que usa o rádio me deixa a impressão de que está tentando se eximir de culpa nas más atuações do piloto. Por sinal, o piloto que foi buscá-lo na equipe de testes para ser seu engenheiro nas corridas. Como são irritantes as expressões de desaprovação e desânimo quando a televisão o mostra no muro da Ferrari. Fico sempre com a impressão de que os ratos estão abandonando o navio.

Seja como for, são muitos os erros da Ferrari em relação a Massa. Erros? Mais parece que por trás de tudo há uma clara intenção de queimar a imagem dele. Só não o substitui agora por falta absoluta de opções. Ainda chamuscada com a risível decisão de tirar Giancarlo Fisichella da Force India para substituir Massa enquanto ele convalescia, o que se revelou um golpe fatal na carreira do italiano (quando ele vinha de uma pole position e um brilhante segundo lugar na Bélgica), a Scuderia não se arrisca a convocar o piloto de testes Marc Gené nem o terceiro piloto, o ainda imaturo Jules Bianchi – cujo empresário é o mesmo de Massa, o primeiro filho Nicolas Todt. Como Sérgio Perez também não está pronto, só resta no momento o alemão Adrian Sutil, uma aposta condenada a não dar em nada. Além de propenso a exageros que nem sempre acabam bem, Sutil surpreenderá o mundo se algum dia se mostrar à altura de substituir Massa ou qualquer outro piloto da Ferrari.

No comunicado em que aumenta a temperatura do fogo em que frita o brasileiro, a Ferrari comparou sua pontuação com a de Alonso nestes três anos em que estão juntos. Esqueceu de considerar as muitas corridas em que Massa foi prejudicado por ela própria ou pelas loucuras de um  Hamilton furioso. De fato, Felipe Massa não se tem mostrado à altura de uma grande equipe da Fórmula 1 – nem mesmo à altura de seu próprio passado. Mas até aí empate, a Ferrari também não. E ela se eximir de qualquer culpa neste processo me parece cinismo demasiado.

Como também foi demasiada a sequência de besteiras da McLaren que acabaram com uma provável vitória de Hamilton já durante a prova de classificação. Ele estava no meio de sua segunda tentativa no Q3, aquela que lhe daria a pole position com mais de meio segundo sobre Maldonado, quando os engenheiros notaram que não havia em seu tanque gasolina suficiente para fechar a volta e, como manda o regulamento, levar o carro até o parque fechado. Houveram por bem esperar o fim da volta e só então mandá-lo parar na pista, mesmo sabendo que isso redundaria em desclassificação. Em seguida, convidado pelos comissários a explicar suas razões, Sam Michael, o responsável na McLaren pelo cumprimento das regras, se permitiu alegar força maior para explicar a quebra das regras. Não colou, lógico.

O mais correto, o mais inteligente seria mandá-lo abortar aquela volta e ficar com o tempo de 1min22s560 que havia marcado no começo do Q3, ainda com pneus usados. Abriria mão da pole position, mas garantiria o sexto lugar no grid. Posição esta que fatalmente lhe garantiria pelo menos um lugar no pódio – provavelmente no degrau mais alto, considerando o desempenho que o levou do 24º ao oitavo posto na corrida, mesmo com a estratégia extremamente conservadora de trocar pneus apenas duas vezes.

Não sei por quê, mas frequentemente tem-me acontecido de achar que, mesmo com corridas tão boas e um campeonato tão imprevisível, a Fórmula 1 já foi melhor do que isso. Bem melhor….

Lito Cavalcanti

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