No mundo cruel da F1, os cifrões falam mais alto

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Para enfrentar as despesas astronômicas, equipes vendem a alma

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Desde que se encerrou o último Campeonato Mundial, a Fórmula 1 voltou a revelar sua verdadeira cara. A emoção das corridas deu lugar à ansiedade, consequência da velha e quase insuportável dança das cadeiras, e a um certo desgosto, causado pelas demissões e contratações, algumas compreensíveis, outras nem tanto, todas cercadas por uma cínica versão da lei da sobrevivência.

Primeiro, foi a saga do Bruno Senna, a que mais cedo se definiu – infelizmente para o pior. Sem carro à altura, sem perspectiva melhor, ele hoje admite até ser terceiro piloto da Lotus, o novo nome da sua velha equipe. Vejam só, ser terceiro piloto de um time em que ele foi titular e que já defenestrou, somente neste ano de 2011, três pilotos: ele mesmo, Nick Heidfeld e Vitaly Petrov. Seriam eles merecedores do tratamento que receberam, todos, da mesma equipe? Sim, da mesma Renault que já desgraçou não só um piloto quando era capitaneada pelo infame Flavio Briatore, que se vestia de dono da equipe quando lhe era conveniente, e de empresário de pilotos, quando lhe convinha.

Por trás, a sempre tolerante e conivente Renault. Que hoje deve estar feliz de ver sua antiga equipe passar a ser chamada de Lotus. E assim se livrar de uma situação desconfortável, mas com que sempre conviveu passivamente: a de ter como principal dirigente da escuderia que levava seu nome uma pessoa que em paralelo gerenciava a carreira de pilotos. Dos Jarno Trulli, Jenson Button e Nelsinho Piquet que Briatore tanto prejudicou já sabemos de cor e salteado. Mas Heidfeld, Petrov e Senna mereciam o que este 2011 lhes trouxe?
 
Querem analisar um por um? Vamos lá: Heidfeld abriu o ano com um terceiro lugar na segunda etapa e chegou ao fim de 11 corridas com 34 dos 73 pontos que a Renault somou em toda a temporada. Mas foi escolhido com bode expiatório e demitido em uma vã tentativa de esconder a falta de desenvolvimento do carro, que se fez pesar à medida em que as outras escuderias aprimoravam seus equipamentos. Já sabendo que daquele carro não sairia mais coelho, o responsável pela equipe, o francês Eric Bouiller, despediu o alemão e abriu vaga para Bruno Senna que, ao contrário de Heidfeld, trazia patrocínios. Bruno conseguiu brilhar em algumas provas de classificação, mas das corridas só conseguiu extrair os ilusórios dois pontos do nono lugar em Monza.
 Petrov, desde o ano passado, vinha sendo criticado internamente por seus muitos erros. A tolerância acabou quando os pagamentos passaram a atrasar: seu contrato foi sumariamente encerrado.

Por menos que Bouiller queira admitir, a influência do dinheiro é marcadamente evidente em suas decisões. Mesmo assim, Bouiller veio a público nesta quarta-feira dizer que não foi o lado financeiro que o fez optar por Kimi Raikkonen e Romain Grosjean. Assim é o cara de pau Bouiller, o mesmo Bouiller que, no ano passado, prometeu que nunca haveria em sua equipe um lugar para Kimi Raikkonen. A promessa, hoje esquecida, se deu quando o finlandês, coberto de razão, o esculachou em alto e bom tom por usar seu prestígio de campeão da F1 na tentativa de angariar patrocínios. Para quem não se lembra, bastou começarem as negociações entre a Renault e o empresário do finlandês, o inglês Steve Robertson, para Bouiller alardear que Raikkonen era propriedade privada de seu time. Ao ser reduzido por Raikkonen à sua verdadeira dimensão, Bouiller se pôs em brios e o esconjurou, amaldiçoou, deserdou. Ah, quanta diferença um ano fez em seu quase ilibado comportamento…

Bouiller disse também, sem o menor constrangimento, que Grosjean não está levando dinheiro para a equipe. Será possível acreditar que a verba da Total não é condicionada à presença do franco-suíço em um dos seus carros? Será que ele acha que o mundo esqueceu que, no próximo ano a França retorna ao calendário da F1, e à frente do grupo formado (a pedido de autoridades governamentais) para promover o Grande Prêmio está o mesmíssimo Bouiller. Grosjean é suíço de nascimento, mas corre com licença francesa, é fruto do automobilismo francês, o francês é seu primeiro idioma, e a sabedoria popular ensina que quando não tem tu, vai tu mesmo. Sim, Grosjean não trouxe patrocínio para a equipe, mas em cima de sua presença foram carreados alguns milhões de dólares para a equipe e prestígio político para Bouiller. Sabe como se diz me engana que eu gosto em francês? Me trompe que j’aime, ou qualquer coisa assim.
 
Não se pode deixar de admitir que Bouiller fala quase verdades, mas também é inegável que pinça seus aspectos mais favoráveis. Ora, meias verdades são também meias mentiras, como prova a não muito elogiável carreira de seu antecessor à frente da equipe Renault, Flavio Briatore.

Difícil engolir a Fórmula 1 atual, igualmente difícil não reconhecer que, diante dos custos atuais, não há outro caminho a escolher. Era disso que falava o ex-presidente da FIA Max Mosley, de triste memória. Em um de seus poucos acertos, Mosley fazia campanha aberta contra as grandes fábricas. Elas fazem os custos subirem e, quando, lhes convém, vão embora sem olhar para trás, afirmava ele com base em fatos que ele mesmo vivenciou em seus dias de dono de equipe. Dito e feito. Elas saíram e, para sobreviver às contas sufocantes, as equipes têm de vender a alma. Esta é a Fórmula 1 atual, para o bem e para o mal.

Outra notícia a partir o coração veio da Toro Rosso. Sempre simpática, a equipe/viveiro da Red Bull, sem mais aquela, demitiu Sébastien Buemi e Jaime Alguersuari para abrir lugar para seus mais novos protegidos Daniel Ricciardo e Jean-Eric Vergne. A seu favor, diga-se que desenvolver seus pilotos mais promissores sempre foi a filosofia da Toro Rosso. Buemi, somos obrigados a admitir, nunca se mostrou à altura das ambições do programa. O maior destaque do seu currículo são três vitórias na GP2, onde chegou a correr pela vitoriosa ART Grand Prix, a principal equipe da categoria, sem corresponder ao que dele se esperava.

Daniel Ricciardo e Jean-Eric Vergne

Daniel Ricciardo e Jean-Eric Vergne

Mas Alguersuari merecia mais crédito. Campeão inglês de F3 com sobras em 2008, ele foi jogado aos leões no meio do campeonato de 2009, em substituição a Sébastien Bourdais, outro a receber cartão vermelho. Era um dos primeiros anos de quase nenhum treino, o que em nada atenuava as cobranças. Fez apenas oito corridas. Em 2010, participou da pré-temporada, o que amenizou as dificuldades do aprendizado, mas o carro não ajudava. Neste ano, mostrou qualidades, foi ousado e veloz. Infelizmente, a comparação com Ricciardo e Vergne lhe foi desfavorável. A ironia é que os dois foram seus sucessores como campeões da F3 inglesa. A dura verdade, porém, é que a Toro Rosso existe para criar os sucessores de Sebastien Vettel, não de Mark Webber.
 
Buemi tem 23 anos, Alguersuari, 21. E agora? O que vão fazer da vida? O mesmo se pode pensar em relação a vários de seus contemporâneos que mostraram talento, chegaram à Fórmula 1, ou às suas portas, e não ficaram, sempre pelo mesmo vil motivo. Querem exemplos? Não faltam: Lucas di Grassi, Bruno Senna, Jérôme d’Ambrosio, Kazuki Nakajima, Giorgio Pantano, Vitaly Petrov, Karun Chandhok, Luca Filipi, Adam Carrol, Felipe Albuquerque, Mike Conway. Desta geração, ou de outra mais recente, ainda estão lá Sérgio Perez, Kamui Kobayashi e Pastor Maldonado.

Até quando, é a pergunta que se impõe. Perez e Maldonado parecem escudados por patrocinadores multimilionários. O mexicano tem por trás o imenso poderio financeiro do homem mais rico do mundo, Carlos Slim, o maior empresário de telefonia celular do mundo – é dele a Telmex e tem controle acionário da América Móvil, dona da Claro. Sua fortuna depende de oscilações dos mercados acionários mundo afora – em 2007, era calculada em 63 bilhões de dólares, em 2009, caiu para 35 bilhões. Hoje, ninguém sabe por quantas anda. Pode-se dizer, porém, que ele é quem dá as cartas na equipe Sauber, onde militam Perez e Esteban Gutierrez, ainda terceiro piloto da equipe mexicana. Perdão, suíça…

Maldonado também se escora em uma empresa de força e prestígio inabaláveis, a PDVSA, sigla da estatal Petróleo de Venezuela Sociedade Anônima. É hoje a terceira maior empresa da América Latina, atrás apenas da Petrobras e da Pemex. Como toda petroleira, tem poderio financeiro acima de qualquer suspeita, como prova o contrato de patrocínio que celebrou com a Williams – calculado em 30 milhões de dólares ao longo de cinco anos. Sim, é apenas uma especulação, mas que certamente não está muito longe da verdade.

A atrapalhar a vida de Maldonado há dois fatores: primeiro, a insuficiência de qualidades que demonstrou neste seu primeiro ano na F1, marcado pelas críticas à pouca qualidade de suas informações técnicas e à tendência a se envolver em acidentes quase sempre injustificáveis; segundo, o mau jeito do presidente, ou seja lá o que for, Hugo Chavez ao ignorar o congresso, que por força de lei deve avalizar todo contrato que envolva somas tão vultosas. Resultado: um congressista, opositor ao regime vigente, solicitou à Williams informações sobre o contrato. Até agora, não se sabe de nenhuma resposta dada pela escuderia inglesa à inquirição do parlamentar venezuelano. Disso tudo, uma única certeza: sem a verba da PDVSA, o sonho de Maldonado cai por terra como caiu o De Petrov, a despeito de toda a verba que trazia da Rússia.

Concordo que nem todos têm capacidade para ficarem na F1 – mas se isso é tão claro, por que entraram? O que nos leva de volta à dura realidade: porque alguém tem de pagar as contas. E o que dizer de Vitantonio Liuzzi, Adrian Sutil, até mesmo Rubens Barrichello. Poucos duvidam da superioridade destes três sobre muitos que estão por lá. Mas e daí? O que resta, por exemplo, para Lucas di Grassi, que sabe tudo que se precisa saber sobre os pneus que a Pirelli vai fornecer à F1 em 2012? Mesmo assim, tudo que pode almejar é um lugar de reserva em alguma escuderia, seja lá qual for?

Tudo bem, Lucas deve participar, como titular da equipe Peugeot, do novo Mundial de Endurance, nova denominação para o campeonato de protótipos. Os carros são extremamente sofisticados, carregam até mais tecnologia do que os F1, e segundo o piloto é muito similar em termos de guiada – mas ele ainda procura um lugar na F1. Esse sempre foi o sonho, o objetivo. E esteve muito perto de ser alcançado. Não lhe faltou talento, capacidade nem trabalho, mas lhe falta dinheiro.

Então, caríssimo leitor, pense bem e me responda: vale a pena você direcionar seu filho para esta carreira? O menino é rápido, concentrado, trabalhador e ama as corridas. OK. E você? Tem dinheiro para encarar os custos exorbitantes do kart; das categorias de acesso como a FRenault; da F3, que é absolutamente imprescindível na formação de um profissional; da World Series; da GP2? Tudo bem, você sabe que estamos falando de algo na casa dos cinco milhões de euros (caso tudo dê muito certinho), não sabe?

Pois bem. O menino abriu mão da adolescência para viver de pista em pista correndo de kart. Depois, perdeu a companhia dos amigos e dos primeiros namoros porque precisou se mudar para outro país a fim de se adestrar nas primeiras categorias. Já então, começou a sofrer as pressões de chefes de equipes, a responsabilidade de representar patrocinadores, caso os tenha tudo. Agora, está às portas da F1, possivelmente com um currículo altamente recomendável. Só falta arrumar uns 10 milhões de euros.

Diga lá: vale a pena? Não vale usar o Rubens Barrichello com o exemplo. Ele fez sua carreira, que por sinal foi e ainda é excepcional, em outros tempos e sobreviveu a estes tempos gananciosos.

Pergunte então ao Buemi, ao Alguersuari, ao Petrov, ao Liuzzi, ao d’Ambrosio, ao Bruno Senna ou ao di Grassi. Sabe o que eles vão dizer, sem sequer titubear? Ora, que pergunta. Claro que valeu. Sim, sempre, cada minuto. Afinal, é a F1. E igual à F1 não tem nada no mundo.

Quer saber? Também acho!!!

Daniel Ricciardo e Jean-Eric Vergne

Lito Cavalcanti
Quer comentar a coluna com o Lito? Escreva para: lito.cavalcanti@autoracing.com.br

AS – www.autoracing.com.br

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