MotoGP – Tailândia 2018

Marquez, Dovizioso, Vinales e Rossi na última curva do GP da Tailândia

Prolegômenos
Ato 1: Red Bull Ring, GP da Áustria, agosto de 2017. Andrea Dovizioso e Marc Marquez disputam metro a metro a última volta, a Ducati lidera com a Honda grudada em sua rabeta. Na última curva o espanhol tenta uma manobra improvável, retarda a frenagem além do razoável e consegue a ponta por alguns instantes, no entanto é obrigado a abrir a trajetória e permite que o italiano mergulhe por dentro e vença a prova.

Ato 2: Motegi, GP do Japão, outubro de 2017. Sob uma chuva torrencial Marc Marquez mantém uma pequena diferença sobre Andrea Dovizioso até a última volta. Na curva 8 o espanhol vacila, quase perde o controle e é ultrapassado. A disputa nos últimos metros da prova é eletrizante. Na última curva o piloto da Honda repete a manobra tentada em Red Bull Ring, o resultado é o mesmo, é obrigado a fazer o contorno por fora consegue uma liderança efêmera, Dovi mergulha por dentro e vence a etapa.

Ato 3: Losail, GP do Catar, abertura do mundial de 2018. Os dois pilotos que disputaram o título do ano anterior até a prova final em Valência se reencontram na pista. O italiano e o espanhol protagonizam um duelo épico durante a corrida e novamente chegam juntos à última curva. Marquez sempre soube que as chances de sucesso eram mínimas, ainda assim retardou o acionamento dos freios e conseguiu tomar a frente . Como era inevitável, abriu demais para realizar o contorno e foi ultrapassado quando Dovizioso. Utilizando a maior capacidade de retomada de velocidade da Ducati, cortou o caminho por dentro e venceu.

O GP da Tailândia
Uma das tarefas dos publicitários é criar frases que sejam adotadas pelo público como sinônimos de produtos específicos. Algumas se perpetuam como, por exemplo, “Mil e uma utilidades”. Em outras ocasiões pela forma como é apresentada a criação permanece na memória das pessoas, embora a maioria não lembre qual o produto relacionado, por exemplo, o jingle dos “Pôneis malditos”. Há ainda os casos em que a criação é extremamente feliz e adotada como referência genérica, o objetivo original era promover uma marca de sutiã e a ideia foi adotada para praticamente todas as atividades, “A primeira vez a gente nunca esquece”. Esta última é uma definição apropriada para o GP da Tailândia.

A gestão da MotoGP atendeu às solicitações dos fabricantes para realizar provas localizadas no mercado em expansão do Sudeste Asiático, como a recente etapa realizada em Buriram, na Tailândia. A iniciativa foi um sucesso, nos dias que antecederam ao evento os pilotos foram tratados como Pop Stars pela população local. Em dia quente com baixa umidade mais de 100 mil pessoas assistiram a prova ao vivo.

Em termos esportivos o circuito internacional de Chang é uma pista aprovada pelos pilotos, o asfalto tem uma composição que responde de forma adequada para altas temperaturas, existem amplas áreas de escape e o acesso e saída da pit lane estão bem localizados. O desenho lembra um pouco o Red Bull Ring, com uma parte extremamente veloz e um trecho lento e complicado. Por sua semelhança com o traçado da Áustria chegou a ser considerado um circuito Ducati, ou seja, mais apropriado para as características dos protótipos da fábrica italiana, suposição não prosperou.

Uma métrica para dimensionar a qualidade da prova pode ser o gap de tempo entre o primeiro e o décimo quinto colocados, menos de 24 segundos, a quarta menor diferença nos 15 anos recentes dada história da MotoGP. As três últimas voltas da corrida foram uma guerra total, com a liderança trocando várias vezes como resultado de ultrapassagens quase impossíveis. A Michelin preparou um composto especial para um clima de monção, mais fresco, não para o inusitado calor do ambiente com a temperatura da pista 10° C acima do previsto. Como resultado, a última curva provou ser um ponto ideal para ultrapassagens e sua proximidade com a linha de chegada criou a receita ideal para um fim de corrida fantástico na Tailândia.

O calor excepcional significou que todos os pilotos tiveram uma preocupação extra em gerenciar seus pneus. Para estratégia da corrida existe mais de uma maneira de esfolar um gato: uma das possíveis é acelerar no início e abrir uma distância confortável, outra é preservar o máximo desempenho possível para o final da corrida. Uma variável importante é que, por falta de antecedentes histórico, ninguém sabia se seria possível ultrapassagens a não ser nas óbvias curvas 1, 3 e 12.

Partindo da pole, Marc Marquez optou pela estratégia mais segura, o chamado “Modo Lorenzo”, porém seu projeto foi abortado pela excepcional performance de Valentino Rossi nas voltas iniciais, que comandou um número compacto de competidores. O multicampeão italiano liderou até a volta 11 quando sua moto começou a apresentar instabilidade na traseira e foi ultrapassado por Dovizioso e Marquez. Dovi optou por um ritmo mais conservador e resultou na aproximação dos primeiros colocados. Até quase o final da prova a diferença entre os três primeiros nunca cresceu mais que mais de um segundo. No último giro Marquez ultrapassou por dentro na curva 5 e impediu o revide na 6. Na 12, curva imediatamente anterior a linha de chegada, Dovizioso atacou pela parte interna da pista e freou forte, conseguindo a liderança, mas abriu demais, Marquez cortou por dentro e cruzou a linha em primeiro lugar. Dovi e Vinales chegaram décimos de segundo atrás.

Reedição de Kevin Schwantz versus Wayne Rainey
Foi a quarta vez nas duas últimas temporadas que Marc Marquez e Andrea Dovizioso se encontram na última curva de uma prova, além de vários outros GPs onde protagonizam grandes batalhas. A mídia começa a formar o quadro de uma rivalidade histórica, semelhante a que existiu entre Kevin Schwantz e Wayne Rainey, dois gigantes da história do motociclismo esportivo. A disputa atual é potencializada pelo fato de que Honda e Ducati são motos muito diferentes. Talvez seja mais apropriado comparar o estilo de Marquez com Freddie Spencer, que foi abençoado com um talento sobrenatural a ponto de muitos não acreditarem que ele era capaz de fazer com uma moto. Dovizioso é a encarnação do espírito de Eddie Lawson, que fez história com sua condução suave e inteligente.

Yamaha, finalmente
Atrás da épica disputa entre Honda & Ducati, as duas Yamaha de fábrica terminaram em 3º e 4º, primeiro pódio da equipe nas últimas 5 provas. Em 5º, sem aparecer na foto, um desanimado Johann Zarco com uma Yamaha satélite. Apesar do bom resultado, Vinales não ficou otimista, como não houve nenhuma mudança na moto que justificasse o excelente desempenho, ele suspeita que as dificuldades possam reaparecer nas próximas etapas, Sua confiança está abalada.

Conclusões
A madrugada do último domingo proporcionou uma rara oportunidade de colocar lado a lado duas competições que dividem a atenção dos apreciadores de esportes motorizados, o GP do Japão de Fórmula 1 e o GP da Tailândia de MotoGP. A comparação entre os dois foi inevitável. Em Suzuka, no Japão, o provável vencedor foi definido segundos depois da largada, quando Lewis Hamilton confirmou a pole e largou na frente. No circuito Chang, em Buriram, a definição só aconteceu literalmente nos últimos metros, em uma disputa eletrizante que envolveu Marquez, Dovizioso, Vinales e Rossi. Hamilton venceu com quase 13 segundos de diferença para o segundo colocado, Marquez chegou 0,115 segundos à frente de Dovizioso. O comportamento dos competidores e equipes também é muito diferente. Jorge Lorenzo, que não pode correr em função de um acidente nos treinos livres, mandou felicitações aos dois primeiros colocados pelo espetáculo apresentado. No parque fechado, antes da premiação do pódio, houve uma efusiva confraternização entre pilotos e equipes, todos com a satisfação de terem se esforçado ao máximo, independente do resultado.

Carlos Alberto Goldani
Porto Alegre – RS

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