MotoGP – Silverstone 2019

Alex Rins & Marc Márquez na linha de chegada – Silverstone 2019

Colaboração: Carlos Alberto Goldani

Um erro comum quando se analisa provas da MotoGP é imaginar que a rigidez do regulamento, orientado para aumentar a competitividade, determine que todos os protótipos estejam baseados na mesma concepção. Cada fabricante opta por uma linha de desenvolvimento centrada em princípios e conceitos próprios. A escolha dos motores, por exemplo, define se o fabricante busca produzir uma moto com excelente resposta em baixas e medias rotações (V4), ou uma com maior estabilidade em curvas (4 cilindros em linha). Na temporada atual Ducati, Honda, Aprilia e KTM optaram pelo V4, Yamaha e Suzuki escolheram o 4 em linha. As diferenças entre os dois conceitos explicam os motivos das constantes reclamações de Andrea Dovizioso (Ducati, V4) por mais velocidade em curvas e de Valentino Rossi (Yamaha, 4 em linha) por melhor aceleração e velocidade final.

Algumas características são importantes enquanto um protótipo está sendo desenvolvido. A RC213V foi concebida em 2012 seguindo a linha de explorar o bom desempenho do motor (potência e torque) em baixas rotações, ideal para características de para/arranca, que permite que os pilotos Honda ganhem tempo freando mais tarde e retomando a velocidade mais rápido. A vantagem de Marc Márquez sobre seus colegas de equipe é que ele consegue alguma velocidade adicional nas curvas combinando o wheelspin (derrapagem) da roda traseira com um maior ângulo de inclinação. A RC213V é um protótipo adequado para a maioria dos layouts dos circuitos que hospedam a MotoGP.

O projeto da GXS-RR da Suzuki é mais recente, ficou pronto em 2014 e é centrado nas propriedades do motor de 4 cilindros em linha, mais compacto, que facilita o setup para distribuição de peso e deixa a moto mais ágil em curvas. Motores com cilindros em linha obrigatoriamente utilizam eixo de manivela mais longo, cuja inércia produzida contribui para manter a moto em seu arco quando está realizando um contorno.

Durante a semana que antecedeu o GP da Grã-Bretanha, Marc Márquez disse que seu objetivo era terminar a prova na frente de Dovizioso e em mais de uma ocasião declarou que temia o desempenho das Yamaha. Não estava errado, sua Honda foi a única V4 nos Top Five, lembrando que outra moto com cilindros em linha e chances de bom desempenho, de Fabio Quartararo, abandonou a prova prematuramente.

A vitória de Alex Rins em Silverstone foi merecida, o piloto da Suzuki assumiu a perseguição a Márquez desde a primeira volta, nunca permitindo ao líder do campeonato abrir uma diferença confortável. Enquanto a sua moto fluía através das curvas do circuito conservando os pneus, o protótipo da Honda parecia estar sofrendo crises de Alzheimer na saída de curvas, chacoalhava muito exigindo do campeão um esforço brutal e muita perícia para manter o controle. Márquez, ao receber a sinalização em seu painel, confirmada pelo aviso da placa na primeira volta, “DOVI OUT”, poderia optar por uma corrida mais conservadora, afinal qualquer pontuação significaria um acréscimo em sua vantagem no campeonato. O DNA do campeão, entretanto, falou mais alto, ele manteve em toda a prova o objetivo da vitória, que só foi frustrado nos últimos metros.

Embora com um desfecho igual, a vitória de Rins em Silverstone não guarda semelhança com a obtida por Dovizioso em Red Bull Ring. Na Áustria Márquez havia escolhido mal os pneus e ficou sem aderência na última curva. Em Silverstone um dos aspectos mais importantes foi a largura da pista, na penúltima curva o atual campeão do mundo optou por uma linha defensiva para não permitir que a Suzuki utilizasse sua maior velocidade no contorno, Rins manteve a linha eterna e aproveitou o melhor estado de seus pneus para preparar o ataque final. Foi a segunda vitória da Suzuki no circuito inglês, sua primeira depois de retornar para a MotoGP foi obtida por Maverick Vinales em 2016.

A disputa entre os líderes eclipsou a prova dos demais concorrente, que foi bastante disputada até consolidar as colocações finais. As Yamaha de Vinales (3º), Rossi (4º) e Morbidelli (5º) comprovaram a adequação dos motores com cilindros em linha ao circuito. Cal Crutchlow, o piloto de casa, levou a segunda Honda para a 6ª posição, à frente das Ducati de Petrucci (7º) e Miller (8º). Pol Espargaro classificou a KTM na 9ª posição e Andrea Iannone com a Aprilia foi o décimo. Os 6 fabricantes ficaram representados no Top Ten. Também merecem citações a 14ª colocação de Jorge Lorenzo, depois de uma longa ausência e ainda não totalmente recuperado. Cinco pilotos não terminarem a prova.

Diversas mídias noticiaram uma possível esperteza de Márquez para obter a sua 60ª pole, aproveitando o vácuo de Valentino Rossi nos últimos minutos do Q2. O próprio Marc reconheceu que usou a estratégia andar atrás do italiano, mas lembrou que seu tempo foi quase meio segundo mais rápido, que é equivalente na pista a uma distância percorrida de quase 25 metros.

Carlos Alberto Goldani
Porto Alegre – RS

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