MotoGP – O sonho (pesadelo) da Aprilia

Andrea Iannone, “The Maniac”, na Aprilia #29

Colaboração: Carlos Alberto Goldani

O Grupo Piaggio com sede corporativa localizada em Pontedera, uma comuna italiana da região da Toscana, província de Pisa, administra um complexo industrial que atua na produção de veículos automotores de duas rodas e equipamentos comerciais compactos. As industrias controladas pelo grupo produzem viaturas comercializadas por sete marcas, Piaggio, Vespa, Gilera, Moto Guzzzi, Scarabeo, Derbi e Aprilia.

Na MotoGP a Aprilia sempre foi considerada o “primo pobre”, a menor fábrica a participar da competição e com o menor contingente de técnicos e engenheiros nos boxes durante os GPs. Na temporada de 2018 a equipe foi a 6ª e última colocada no campeonato dos construtores marcando apenas 88 pontos (59 de Aleix Espargaro e 29 de Andrea Iannone). A Aprilia, assim como a Suzuki, não tem equipe satélite, que implica em menor número de pilotos coletando dados para alimentar a retaguarda técnica.

A fábrica anuncia o único equipamento original na temporada de 2020, com motor e chassi radicalmente novos, resultantes de aumento expressivo de investimento financeiro do Grupo Piaggio. A Aprilia ainda não anunciou a especificação do novo equipamento, é provável que ele seja impulsionado por um motor V4 90°, substituindo os V4 75° que aparentemente atingiram seu limite na geração de potência. Em 2012 a Honda substituiu o RC212V de 75° de 800cc pelo seu RC213V 90° 1000cc, inspirada no sucesso do lay-out utilizado pela Ducati, a Aprilia pode seguir este mesmo caminho. Um V4 90° não é tão esguio quanto um V4 75°, porém os engenheiros da Honda encontraram maneiras de produzir um protótipo compacto, a fábrica italiana tem este mesmo objetivo.

O V4 90° entrega melhores resultados na aceleração, freio motor (torque negativo) e habilita configurações mais efetivas na temporização de disparos (big bang). Diferentes ordens de disparos permitem maior eficiência na gestão da travagem do motor. Estima-se que o novo motor da Aprilia entregue 280 cavalos de potência, um acréscimo de 10% sobre o atual, o que sugere que o novo equipamento Aprilia deve ter um desempenho competitivo em linha reta.

Na MotoGP o torque negativo é quase tão importante como a retomada de velocidade nas curvas porque o comportamento dos pneus dianteiros da Michelin não é tão eficiente como eram os Bridgestone, que obriga os pilotos a usar o pneu traseiro para parar a moto. Em seu primeiro ano na Ducati Jorge Lorenzo disse que as GP17 o obrigaram a reaprender a pilotar, preocupar-se em utilizar mais a traseira, “como num barco” em suas próprias palavras. Em 2019 Aleix Espargaro e Andrea Iannone tiveram sérios problemas para frear a RS-GP porque o freio motor era ineficaz, a esperança é que um novo propulsor corrija este problema.

Coincidindo com o início das novas regras que elevaram a capacidade cúbica do motor para 1000cc (2012) a FIM permitiu, para aumentar o número de participantes no grid, as motos classe CRT (Claiming Rules Team) que utilizavam motores comerciais e tinham uma série de concessões para obter um desempenho semelhante aos dos protótipos, além da classe Open, sem apoio da eletrônica.

A construtora italiana obteve um expressivo ganho de qualidade com a contratação de Andrea Iannone. Até então, por ter desenvolvido sua carreira em equipes CRT o piloto Aleix Espargaro começou na MotoGP competindo com motores comerciais sem grandes recursos, com a experiência de Iannone houve expressivo avanço na eletrônica e consequente melhor desempenho. A Aprilia, com o apoio incondicional do Grupo Piaggio, está investindo muitos recursos (pessoas, tempo e $) para superar o gap que a separa das outras equipes, recontratou um eng. eletrônico da equipe Ferrari de Fórmula 1 que já havia trabalhado para fábrica e resgatou outro eng. eletrônico que a Suzuki roubou há alguns anos. Também buscaram um especialista em aerodinâmica da Ferrari, reforçando todos os departamentos.

Todos esperam muito de 2020. A reorganização comandada pelo CEO da Aprilia Racing, Massimo Rivola, ajudou a libertar o engenheiro-chefe Romano Albesiano para projetar uma nova RS-GP a partir do zero. A esperança é que a moto seja muito mais competitiva do que a V4 75° atual. Com a notícia do doping de Andrea Iannone agora a equipe fica sem um recurso importante do programa de MotoGP, um piloto experiente e comprovadamente veloz. O advogado de Iannone declarou que a amostra B do teste de drogas confirmou a anterior (nem poderia ser diferente, o material foi colhido na mesma ocasião). De acordo com os regulamentos da FIM o italiano está automaticamente banido por quatro anos por uso do esteroide anabolizante Drostanolona.

As quantidades encontradas na amostra foram mínimas, o advogado de Iannone informa que a contraprova indicou mostrou a presença de metabólitos igual a 1,15 nanogramas por mililitro. Considerando que a amostra estava extremamente concentrada por ter sido colhida com o piloto desidratado logo após a corrida quente e húmida na Malásia, indicaria uma presença ainda menor em condições normais, apoiando a teoria da contaminação acidental através de alimentos.

Em favor de Iannone, foi a primeira vez que foi testado em 2019, no ano anterior foi um dos cinco pilotos escolhidos para seguir o programa ADAM (Arrestee Drug Abuse Monitoring), sistema onde os atletas têm de informar continuamente onde estão e o que estão fazendo para habilitar a colheita de amostras a qualquer tempo. Suas opções de defesa agora são limitadas, a FIM, como a maioria das federações esportivas internacionais, adotou o código WADA (Agência Mundial Antidopagem), que afirma explicitamente que os atletas são responsáveis por todas as substâncias encontradas em seus corpos. Pode haver circunstâncias atenuantes, mas a Drostanolona, um esteroide androgênico anabolizante, conhecido no jargão da medicina esportiva como “substância não especificada”, é visto como extremamente improvável de ser encontrado como resultado de processos naturais ou contaminação acidental.

As chances de evitar ou reduzir uma condenação são escassas. Se a defesa é contaminação acidental, Iannone tem o ônus da prova. O vetor comum para a contaminação com esteroides anabolizantes é o consumo de carne. Clenbuterol é amplamente utilizado no México, América do Sul e partes da Ásia para o gado ganhar peso, então a contaminação por este esteroide é comprovadamente uma possibilidade real, assim como a contaminação com uma série de outros produtos semelhantes. No entanto, a Drostanolona, por reduzir a gordura corporal, expelir a água e ser um produto cuja produção demanda um custo bem maior que a maioria dos esteroides comuns, não é atraente para os produtores de proteína animal, assim a chance de ser ingerido através de carne contaminada é extremamente improvável.

Normalmente esta substância é encontrada em fisiculturistas, pugilistas e lutadores MMA que buscam o enquadramento em determinadas categorias do esporte. Pode ser usado em ciclos relativamente curtos – duas a quatro semanas – e seus componentes são expelidos normalmente do corpo de forma relativamente rápida, desaparecendo totalmente após cerca de três semanas. Para um piloto da MotoGP o resultado da ingestão do produto seria perder peso e obter mais massa muscular. A quantidade encontrada é consistente com o fim de um ciclo anabolizante, ou seja, pouco mais de duas semanas depois do esteroide ser ingerido.

Iannone admite que estava seguindo um programa de perda de peso até 2019, mas disse o foco era alimentação controlada e exercícios aeróbicos. A Aprilia estava ciente e o objetivo era reduzir a diferença corporal entre ele e seu companheiro de equipe Aleix Espargaro, cujo vício em ciclismo moldou em um atleta extremamente leve.

O teste positivo de drogas de Iannone coloca a Aprilia em uma situação complicada. A fábrica italiana decidiu apoiar (e pagar salários) ao seu piloto até o fim do processo legal (argh, o tal Trânsito em Julgado). O italiano está proibido de participar de qualquer atividade oficial e a equipe precisa urgentemente de um substituto. A nova moto vai ser apresentada no teste de Sepang, uma máquina que se espera muito mais competitiva do que a antiga RS-GP. O candidato mais óbvio é o piloto de testes Bradley Smith, o inglês é veloz e competente, fornece um bom feedback para os engenheiros e a sua relação com toda a Aprilia é boa. Não é a única opção, mas certamente faz dele o favorito. Karel Abraham também está disponível e existem outras opções fora do restrito ambiente da MotoGP.

Mesmo uma sanção reduzida, um ano talvez, pode ser fatal para a carreira do piloto. Com exceção de Tito Rabat, todos os contratos da MotoGP vencem no final de 2020, as equipes acompanham atentas os jovens pilotos da Moto2 visando repetir o fenômeno Quartararo, que com certeza vai tornar muito mais difícil uma vaga para Iannone.

Carlos Alberto Goldani
Porto Alegre – RS

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