MotoGP – O legado de Casey Stoner e a pré-temporada de 2019

Dovizioso e Marquez

Colaboração: Carlos Alberto Goldani

A foto acima foi obtida faltando poucos segundos para o final da etapa da Tailândia no Mundial de MotoGP de 2018. A Ducati #04 de Andréa Dovizioso e a Honda #93 de Marc Márquez tinham disputado palmo a palmo as três últimas voltas, seguidos de perto pelas Yamaha de Maverick Vinales e Valentino Rossi, em um dos finais mais eletrizantes da temporada. A prova foi vencida por Márquez com uma ultrapassagem antológica na última curva.

Foi a quarta vez nos dois últimos anos que Márquez e Dovizioso protagonizaram espetáculos semelhantes, antes em 2017 no GP da Áustria, GP do Japão no mesmo ano disputado com a pista encharcada e na prova noturna de abertura da temporada de 2018 no Catar. Nestas três oportunidades o piloto italiano levou a melhor.

Observem na foto que, embora na liderança e na entrada do último contorno a Ducati está com inclinação menor e suas rodas praticamente alinhadas. A Honda já está apoiada na borda do pneu traseiro e com a roda dianteira virada no sentido contrário da curva, indicando que o piloto está executando a manobra clássica de controlar a roda traseira escorregando para levantar a moto mais rápido e obter maior tração nos metros finais. A estratégia de Márquez funcionou, ele venceu a prova, com Dovizioso em segundo e Vinales fechou o pódio, os três com um intervalo de pouco menos de 0,250 segundos.

A técnica de condução utilizada por Márquez nesta ultrapassagem é herança dos pilotos formados em pistas de terra (dirty tracks) e foi desenvolvida quase à perfeição na MotoGP por Casey Stoner, o último vencedor de um mundial com uma Ducati em 2007. Uma comparação entre o atual campeão e o genial australiano mostra que ambos têm estilos semelhantes. A característica de condução de Casey era metódica e limpa, a de Marc mais instintiva. Stoner exercia um domínio sobre a moto dificilmente encontrado nos competidores atuais, não colocava o cotovelo no chão como Márquez, mas o ângulo de inclinação ao atacar uma curva era semelhante ao do atual campeão.

A MotoGP cria mitos e os define como verdades absolutas como, por exemplo, Casey tinha controle absoluto sobre o timing da aceleração e Marc se adapta melhor às mudanças de comportamento da moto durante uma prova. Ainda no tempo em que o composto dianteiro da Bridgestone tinha uma eficiência absurda de frenagem, Casey desenvolveu a técnica de utilizar o freio traseiro da Honda para obter maior velocidade nas saídas de curvas, Marc aprendeu com o australiano e o seu dom natural de improvisação justifica os atuais resultados nas pistas.

Cal Crutchlow em uma entrevista recente declarou que “Casey é a razão pela qual todos nós (pilotos Honda) utilizamos o freio traseiro. Ele controlava o acelerador e o freio traseiro com perfeição e, junto com Marc Márquez, criou um problema permanente para os pilotos de protótipos Honda, eles são tão bons que todos os outros que conduzem uma RC213V parecem lentos”. Perguntado sobre o que esperava de Jorge Lorenzo na equipe oficial o britânico não se furtou a dar a sua opinião: “É muito difícil antecipar qualquer avaliação porque ele é um piloto fantástico, entretanto imagino que ainda não saiba como extrair o máximo de uma Honda. Jorge é talentoso e pilota com naturalidade, talvez mais do que qualquer outra pessoa. Para o descrever com uma palavra diria metronômico, repetitivo. Quando Lorenzo estava na Yamaha suas parciais durante voltas seguidas eram muito semelhantes”.

Em 2016 quando a Michelin assumiu o fornecimento exclusivo de pneus as mudanças foram radicais, as características de maior grip dos pneus migraram do composto dianteiro para o traseiro. Esta alteração, junto com outras como o uso coercitivo da ECU padronizada, criou condições para uma temporada atípica com a vitória de 9 pilotos nas 18 etapas. A Ducati já utilizava o freio traseiro para controlar a potência de seu motor e deu um salto de qualidade em 2017, levando a decisão do mundial até a última etapa. A adaptação de Lorenzo com a Desmosedici GP17 foi prejudicada pela falta de hábito em usar o freio traseiro, em 2018 o tricampeão mundial já dominava melhor a nova técnica e os resultados apareceram.

Falta menos de um mês para a prova inicial da nova temporada e todas as fábricas estiveram presentes nos três dias da primeira seção oficial de treinos da temporada 2019 realizada na Malásia. O clima colaborou, normalmente nesta época costuma chover em algum período no circuito de Sepang, que resulta em limpar a pista eliminado a borracha acumulada que aumenta a aderência do piso. Não houve uma gota d’água nos três dias do teste, proporcionando condições excepcionais para um bom desempenho dos protótipos.

Aprilia
Foi uma semana de altos e baixos para a fábrica italiana. Aleix Espargaró ficou entusiasmado com a RS-GP 2019, acreditando que o desenvolvimento está na direção certa. O protótipo apresentou boa velocidade e ritmo estável, o piloto sentiu-se confortável com os freios, a única coisa que faltou foi mais potência do motor.

Andrea Iannone teve uma participação pífia, faltou ao teste “shakedown” de domingo, um período na quarta e quinta-feira e todo o último dia. Pela versão oficial da equipe foram efeitos colaterais de antibióticos utilizados para tratar a infecção de um dente, nos boxes os comentários eram de que ele teria feito uma cirurgia plástica recentemente. Iannone é um piloto competente e com mais talento que muitos que estão no grid da MotoGP, já venceu uma prova, acumulou poles e pódios e já fez parte das equipes oficiais da Ducati e Suzuki. Ele parece encontrar maneiras de sabotar sua própria carreira e desperdiçar as chances que lhe são oferecidas. Chefes de equipe costumam ter paciência com os pilotos talentosos, entretanto tudo tem um limite.

Ducati
Visualmente a Ducati foi a fabricante que apresentou o maior número de novidades: um novo pacote aerodinâmico; o retorno do braço de torque; a tampa do reservatório entalhada e ventilada para auxiliar o resfriamento e o mais instigante, uma alavanca tipo borboleta (wingnut) sobre a barra superior da direção, que pode (ou não) ser utilizada para comandar alguma traquitana dentro da caixa de salada montada na traseira. Os resultados apareceram nas quatro primeiras posições do quadro geral dos tempos. Danilo Petrucci comandou a esquadra italiana, seguido de Pecco Bagnaia (GP18), Jack Miller e Andrea Dovizioso.

Bagnaia é um aprendiz rápido, inteligente, disposto a aproveitar todas as oportunidades que tiver. Uma volta rápida prova seu potencial, porém o verdadeiro teste virá durante as corridas quando tiver que gerenciar pneus e maximizar o desempenho ao longo de cada fase da prova.

A Desmosedici GP19 é uma moto rápida, mas Dovizioso não se entusiasma muito com o resultado do teste, ele entende que o ritmo de corrida de Maverick Vinales e Alex Rins está um pouco melhor que o da Ducati.

Honda
A Honda operou uma quase uma clínica de fisioterapia em Sepang. Dos três principais pilotos, Jorge Lorenzo não compareceu por causa de uma fratura no escafoide em processo de consolidação, Cal Crutchlow ainda se recupera do acidente que destruiu seu tornozelo e o retirou das últimas provas da temporada passada e Marc Márquez está sem as melhores condições por ter recentemente operado o ombro. A performance de Marc Márquez no topo da tabela de tempos do primeiro dia serviu mais para provar a si próprio que ainda pode ser veloz com a RC213V. O britânico conseguiu rodar o tempo todo, embora sem poder calçar direito a bota e com um pouco de rigidez no tornozelo direito, que dificulta o acionamento do freio traseiro.

As observações foram centradas em Stefan Bradl, piloto de testes, porque Takaaki Katagami pilota um modelo Especificação B. Bradl é um piloto excepcional, rápido o suficiente para ser competitivo, inteligente e observador o suficiente para fornecer feedback correto para a engenharia, mas se fosse tão bom quanto Márquez, Lorenzo e Crutchlow não seria só um piloto de testes.

Mesmo com todas as limitações enfrentadas em Sepang, a Honda deixou os concorrentes preocupados. Nas poucas voltas que realizou Márquez, mesmo com o ombro incomodando e não se arriscando para evitar quedas, conseguiu voltas rápidas. A LRC de Crutchlow foi muito consistente e Bradl marcou bons tempos, O que impressionou os concorrentes é que houve muito poucas reclamações, os três pareciam satisfeitos com a moto. Provavelmente Marc e Jorge não estejam nas melhores condições na abertura da temporada, mas com certeza se apresentam como candidatos ao título.

KTM
Os austríacos levaram para Sepang uma infinidade de peças para serem testadas. Houve progressos evidentes, Pol Espargaró sentiu que a moto está melhor em quase todas as áreas, suas fragilidades estão sendo gradualmente reduzidas e há muito trabalho para ser feito.

A contratação de Johann Zarco pela equipe já apresenta resultados, o piloto francês foi mais rápido que Pol Espargaró na quinta e repetiu o feito na sexta-feira. Ainda é muito cedo, mas parece que ao KTM tem equipamento e piloto para alçar voos mais altos em 2019.

Um fato extremamente positivo é que a moto responde bem tanto ao estilo selvagem de Pol Espargaró como à pilotagem precisa de Johann Zarco. Isso é um sinal de que a base da moto é sólida, estão em um estágio de ajustar detalhes, não em construir algo revolucionário.

O ritmo de Miguel de Oliveira foi uma boa surpresa para a KTM, O piloto estreante da equipe satélite Tech3 ficou a décimos de segundo de pilotos bem mais experientes e não sentiu muito a mudança de categoria.

Suzuki
O teste de Sepang sugere que a Suzuki aproveitou muito bem as concessões na temporada passada, como já demonstrava o resultado das últimas provas em 2018. A nova carenagem deu maior aproveitamento para a potência do motor e melhorou a velocidade máxima. Durante os testes o ritmo de corrida de Alex Rins foi inferior apenas ao apresentado por Maverick Vinales.

Apesar da pouca idade (23) e estar apenas a dois anos na MotoGP, Rins está liderando o desenvolvimento da Suzuki com bons resultados. Seu colega de equipe, o novato Joan Mir, também mostrou boa adaptação na categoria principal.

Yamaha – um novo estado de espírito
Um dos resultados mais evidentes do período de teste em Sepang foi a mudança do humor no box da Yamaha, Maverick Vinales voltou ao otimismo do início da temporada de 2017, quando venceu as duas primeiras provas.

Com um ritmo de corrida excelente na quinta e sexta-feira, a M1 foi rápida com pneus macios novos ou usados, Valentino Rossi não brilhou no quadro dos tempos, porém seu otimismo não foi menor que o do companheiro. Cada piloto trabalha nas seções de testes com uma agenda diferente, Rossi não se esforçou em ser rápido e concentrou sua atenção na aceleração e consumo de pneus. A sentimento no box da Yamaha foi que o estremecimento entre os pilotos e os engenheiros de desenvolvimento no Japão são coisas do passado.

Outra boa notícia para o fabricante foi o excelente desempenho de Franco Morbidelli da satélite Petronas SIC. O piloto adaptou-se muito bem e ficou entre os “top ten” no quadro geral.

PS: Depois da realização dos testes de Sepang as casas de apostas de Londres passaram a incluir Alex Rins junto a Márquez, Lorenzo e Vinales como prováveis candidatos ao título de 2019.

Carlos Alberto Goldani
Porto Alegre – RS

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