MotoGP – Misano 2019 – O melhor da festa é esperar por ela

Marquez x Quartararo – MIsano 2019

Colaboração: Carlos Alberto Goldani

Para diversos participantes, o GP de San Marino prometia ser uma festa. A Yamaha estava particularmente entusiasmada com a etapa programada para o circuito Marco Simoncelli em Misano, próximo do rancho de Valentino Rossi. Nas seções de testes oficiais realizadas nos últimos dias de agosto no circuito, a fabricante colocou quatro equipamentos entre os cinco com melhores tempos. Fabio Quartararo brilhou liderando a maioria dos testes. A Yamaha também programou um evento de marketing criativo, o traslado de Valentino Rossi do seu rancho até o circuito a bordo de um protótipo M1. As vias públicas foram temporariamente fechadas ao tráfego para permitir à população aplaudir a passagem do seu ídolo.

O otimismo também estava presente nos boxes da Ducati, graças ao bom desempenho obtido por Danilo Petrucci e Jack Miller nos dias de testes. Andrea Dovizioso, vencedor do GP da Áustria estava recuperado do acidente em Silverstone e a equipe só não colocou seus dois pilotos no pódio na prova de 2018 devido a uma queda de Jorge Lorenzo faltando menos de duas voltas.

Vitorioso na prova anterior na Inglaterra, Alex Rins avaliava que sua Suzuki era rápida o suficiente para repetir o feito. Tinha a certeza que ele era uma alternativa viável para derrotar o atual campeão do mundo.

A tranquilidade da Honda aparentemente não havia sido afetada por duas derrotas consecutivas de Marc Márquez na última curva da última volta, na Áustria e em Silverstone. A vantagem do #93 na pontuação para o título de pilotos foi suficiente para absorver os resultados e esperar pela lenta recuperação de Jorge Lorenzo. A equipe liderava com folga o título de construtores (pontua apenas o melhor resultado de cada fábrica) e, apesar de ser um exército de um homem só, estava em segundo na corrida por equipes.

A MotoGP é fascinante por que, ao contrário de outras modalidades de esporte a motor, não implementa artificialismos para oportunizar ultrapassagens entre os competidores. A Fórmula 1 utiliza o recurso da “abertura de asa” para reduzir o arrasto aerodinâmico em trechos da das pistas, a Stock Car tem o “Botões de Push” que liberam potência extra durante algum tempo e algumas competições obrigam pit-stops de reabastecimento e troca de pneus para estimular as trocas de posições. A MotoGP implementa velocidade pura desde a largada até a bandeirada final, os únicos limites são a eficiência do equipamento e talento do piloto.

Com o início das atividades oficiais na sexta-feira (13/09) a realidade começou a ter contornos definidos, as Yamaha confirmaram o seu favoritismo e a única ameaça era a Honda de Márquez, que repetia nos treinos uma estratégia já utilizada em outras provas. Logo no início do TL1 (5ª volta) ele marcou um tempo suficiente para ser elegível direto ao Q2 e passou o resto do treino rodando com pneus usados, simulando o comportamento na prova. Os 10 tempos mais rápidos do acumulado do TL1, TL2 & TL3 ficam isentos de disputar o QL1, razão pela qual a maioria dos pilotos reserva os últimos minutos de cada seção para calçar pneus macios novos para marcar tempos, o atual líder do mundial nunca teve esta preocupação. Fabio Quartararo liderou o TL1 & TL3, Maverick Vinales foi o mais rápido no TL2 e Márquez só marcou presença conseguindo os melhores tempos no TL4 e Warm Up. O Q1 promoveu Johann Zarco em sua última aparição na KTM e Joan Mir para a disputa de um Q2 cheio de surpresas.

A pole foi conquistada por Vinales e a composição da primeira fila contou ainda com a surpreendente presença de Pol Espargaro com a KTM, já apresentando resultados do trabalho de Dani Pedrosa, e Fabio Quartararo na 3ª posição. Na segunda fila ficou com a Yamaha de Franco Morbidelli, a Honda de Marc Márquez e a Ducati de Andrea Dovizioso. Valentino Rossi, na sua corrida caseira, foi apenas o 7º colocado, a pior das Yamaha do grid.

Houve mais um incidente envolvendo os multicampeões Márquez e Rossi no final do Q1. Márquez alega que encontrou Rossi lento no traçado ideal e teve sua volta arruinada, Rossi por sua vez não entendeu o procedimento de Márquez e disse ter sido prejudicado em sua volta rápida. A transmissão da TV não foi conclusiva e nenhum dos pilotos, chamados a dar explicações pelos comissários, foi penalizado. Na MotoGP largar na segunda ou terceira fila não é um prejuízo irrecuperável e no final das contas o incidente só serviu para aumentar o tráfego em redes sociais e estimular teorias de conspiração.

A prova transcorreu em um clima previsível. Os dispositivos Holeshot da Ducati e Aprilia não ajudaram muito seus pilotos, Vinales contornou a primeira curva na liderança seguido de Quartararo, Pol Espargaro e Márquez. Logo o piloto da Honda livrou-se da KTM e acomodou-se em 3º e permaneceu nesta posição até Quartararo ultrapassar Vinales. Quando o francês ensaiou abrir alguma distância sobre a Yamaha #12, Márquez ultrapassou Vinales e colou na traseira da moto #20. Todos os espectadores (e telespectadores) notaram que ultrapassar o líder não era a opção preferencial para Márquez. Durante a semana anterior ele havia comentado sobre a solidão de um líder. Sozinho na ponta o piloto não consegue avaliar os prós e os contras dos concorrentes, se o adversário consegue evitar a abertura de uma distância confortável, é mais sábio ficar atrás, estudando os seus movimentos e tentar a ultrapassagem nas últimas voltas. Foi exatamente o que ele fez, e foi como ganhou a prova.

A comemoração de Márquez foi exacerbada por diversos motivos, (1) ampliou a sua vantagem no mundial para 93 pontos, abrindo a possibilidade de alcançar seu 6º título da principal categoria do motociclismo esportivo mundial já na prova da Tailândia e (2) venceu Valentino Rossi em sua casa, com um circuito colorido de amarelo pelas bandeiras do #46. Este ano o ídolo italiano evitou comparecer no pódio pra saudar seus torcedores. Marc Márquez, falando para a mídia, reconheceu que não era páreo para Rossi nos microfones, entretanto lembrou que as pistas contam outra história.

O resultado final provocou sentimentos conflitantes no box da Yamaha, alegria por ter colocado seus 4 equipamentos (Quartararo, Vinales, Rossi e Morbidelli) nas 5 primeiras colocações e decepção pela prova ter sido vencida por uma Honda. A TV flagrou a falta de entusiasmo dos dirigentes da fábrica com o resultado da prova.

Carlos Alberto Goldani
Porto Alegre – RS

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