MotoGP – Má notícia no final de temporada

Andrea Iannone, “The Maniac”, na Aprilia #29

Colaboração: Carlos Alberto Goldani

A temporada de 2019 da MotoGP não foi das mais disputadas, Marc Márquez no comando de uma RC213V venceu praticamente sozinho os três campeonatos da classe principal, pilotos, fábricas e equipes. Ainda assim a temporada apresentou fatos surpreendentes, o surgimento auspicioso da equipe Petronas como satélite da Yamaha, a performance do novato Fábio Quartararo e os fracassos retumbantes de Jorge Lorenzo (Honda) e Johann Zarco (KTM). A temporada não merecia ser encerrada com manchetes relacionadas com doping de um dos seus pilotos.

Em uma amostra de urina fornecida por Andrea Iannone na etapa da Malásia em Sepang, no início de novembro, foram identificados vestígios de esteroides anabolizantes. A análise da amostra foi processada em um laboratório credenciado pela WADA (World Anti-Doping Agency) em Dresden (Alemanha) e indicou a presença de esteroides androgênicos anabolizantes exógenos (AAS) constantes na relação de substâncias proibidas na edição de 2019. A característica exógena indica origem externa, excluindo a possibilidade de ter sido produzida pelo próprio organismo (endógena) e é quase impossível entrar acidentalmente em um corpo sem consentimento ou conhecimento da pessoa. O código antidoping da FIM (Federação Internacional de Motociclismo) afirma que os pilotos serão banidos por quatro anos ao testar positivo para uma substância não especificada (produtos susceptíveis de serem consumidos com o propósito específico de melhorar o desempenho), embora existam circunstâncias atenuantes – tais como uma violação não intencional das regras – que podem reduzir (não evitar) a duração da desqualificação.

Alguns ícones do esporte passam rapidamente do panteão da glória para o ostracismo e só são lembrados como exemplos a serem evitados. O corredor canadense Ben Johnson, perdeu sua medalha de ouro obtida na prova olímpica mais emblemática, os 100 metros rasos, dos jogos realizados em Seul em 1988. Substâncias não permitidas foram identificadas em seu exame antidoping. Lance Armstrong, que foi considerado por muitos anos um fenômeno no mundo esportivo, foi flagrado em um exame e em 2013 confessou que utilizou medicação não permitida para melhorar seu desempenho nos sete anos em que venceu o Tour de France. Armstrong perdeu todos os títulos conquistados e patrocinadores pessoais. Anderson Silva, mais conhecido como Aranha (Spider), é um lutador brasileiro de artes marciais mistas e ex-Campeão Peso Médio do UFC, conquistou 17 vitórias seguidas e 10 defesas de título consecutivas, tendo a sequência interrompida em 2013 quando perdeu uma luta e o cinturão. Spider, que chegou a ser considerado o melhor lutador de UFC da história, foi flagrado em um exame antidoping em 2015 quando tentava recuperar o seu sua antiga forma e prestígio.

Os episódios de Armstrong, Johnson e Spider indicam que sempre vai existir, em qualquer modalidade esportiva, competidores que decidem utilizar atalhos para adquirirem uma melhor condição física, arriscando a encerrar suas carreiras de um modo melancólico.

Andrea Iannone, da equipe Aprilia, recebeu uma suspensão provisória de acordo com o código de antidoping da FIM. O piloto pode (e vai) recorrer do resultado solicitando que a amostra B (segunda amostra colhida na mesma ocasião) seja analisada. Também pode recorrer ao CDI (Tribunal Disciplinar Internacional) para que sua suspensão seja suspensa, mas para isso teria de fornecer evidências de que as amostras que tenham sido contaminadas de alguma forma, ou que ele tinha ingerido substâncias proibidas por acaso (esteroides anabolizantes são usados para construir massa muscular e queimar gordura, é muito improvável que sejam consumidos acidentalmente). Esteroides podem ser uma droga extremamente útil para perder peso. Seu principal benefício nesse cenário é consumir gordura e promover a preservação muscular em uma dieta de restrição calórica.

Se não recorrer, ou a análise da segunda amostra confirmar os resultados da primeira, então Iannone está sujeito a uma proibição automática de participar do mundo da motovelocidade por quatro anos. Uma ausência por este período de tempo praticamente decreta o fim da carreira do piloto de 29 anos. Rumores dos boxes da MotoGP já listavam Iannone como um dos pilotos que provavelmente abandonariam categoria no final da próxima temporada para migrar para a WorldSBK, onde teria sido um reforço muito bem-vindo. Uma proibição por quatro anos torna isso impossível.

A suspensão de Iannone deixa a Aprilia em um dilema e a solução mais óbvia seria promover Bradley Smith do seu papel como piloto de testes. Smith tem sido fundamental no desenvolvimento da Aprilia RS-GP, fornecendo subsídios para um equipamento totalmente reformulado que deve ser apresentado ao público no teste de Sepang em fevereiro do próximo ano.

Andrea Iannone surgiu para o mundial de motovelocidade em 2005 disputando a categoria 125cc e sua primeira vitória ocorreu em 2008 (ainda na 125cc). Acumulou 10 vitórias até ser promovido para a 250cc em 2010, onde por três anos consecutivos obteve a 3ª colocação no mundial. Em 2013 chegou na MotoGP com a Pramac Racing Team, a consistência de seus resultados justificou sua contratação pela equipe oficial da Ducati em 2015 e no ano seguinte conquistou a sua primeira e única vitória na classe principal. Em 2017 perdeu a vaga para Jorge Lorenzo, mudou-se para a Team Suzuki Ecstar onde, mantendo seu estilo agressivo, colecionou bons resultados com alguns pódios impressionantes. Este ano competiu pela Aprilia Racing Team Gresini e se classificou em 16º no mundial, duas posições atrás de Aleix Espargaro, seu colega de equipe.

A convicção do piloto em sua inocência é total, ele confia que o exame da contraprova será suficiente para encerrar este incidente. Uma das características pessoais de Andrea Iannone é a vaidade, ele praticamente não participou de um dos testes pré-temporada deste ano, nas declarações à imprensa a equipe justificou a sua ausência alegando uma inflamação em um dente, entretanto outras versões sugeriam que estava convalescendo de uma cirurgia estética que o impedia de usar o capacete.

Em qualquer esporte, inclui motociclismo, atletas podem usar esteroides para alcançar algum tipo de vantagem, o que leva a crer que seu uso possa estar relacionado com a finalidade de aumentar o desempenho na condução dos protótipos, ser tão leve quanto possível e forte suficiente para pilotar um equipamento pesado e com muita potência.

Anabolizantes estão na contramão do motociclismo esportivo. A MotoGP está angariando cada vez mais adeptos por apresentar disputas equilibradas e grandes espetáculos, tudo o que não precisa, e os organizadores vão utilizar todos os recursos para evitar, é que a lisura do mundial seja contaminada com notícias de uso de doping.

Carlos Alberto Goldani
Porto Alegre – RS

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