MotoGP – Gerações

Moto GP

Colaboração: Carlos Alberto Goldani

A vida tem uma sequência lógica.

Na medida que os anos passam, ela vai nos tirando coisas, destreza, agilidade, acuidade visual, velocidade de raciocínio. Os cabelos escasseiam e perdem a cor, escadas ficam mais íngremes e com mais degraus, caminhos ficam mais longos. Entretanto o roteirista de nossa existência incluiu algumas compensações, experiência, sabedoria e o privilégio de acompanhar “in loco” a evolução das novas gerações.

Quem cresceu convivendo com o apogeu de Valentino Rossi, que reinventou o motociclismo esportivo, observa agora a escalada de Marc Márquez, o mais provável candidato a ser a referência para os próximos anos. Nesta conjuntura é oportuno analisar comparativamente o início da carreira destes dois pilotos que já fazem parte da história da MotoGP.

Valentino Rossi estreou no mundial em 1996 com 17 anos, disputando a classe 125cc com uma Aprilia. Obteve uma vitória em seu primeiro ano e com o mesmo equipamento foi campeão no ano seguinte, vencendo 11 das 15 etapas. Márquez foi mais precoce, disputou seu primeiro campeonato da FIM em 2008 aos 15 anos com uma KTM, também na classe 125cc. Passou seus dois primeiros anos em branco, porém pilotando uma Derbi em 2010 venceu 10 das 17 etapas e conquistou seu primeiro título.
Rossi evoluiu em 1998, ainda conduzindo uma Aprilia, para a classe 250cc. Em dois anos disputou 30 provas, venceu 14 e conseguiu seu segundo mundial em 1999. A passagem de Márquez pela Moto2, a 250cc repaginada, também foi meteórica, entre 2011 e 2012 participou de 32 provas e venceu 16. Assim como Valentino, Marc também foi campeão em sua segunda temporada.

Valentino Rossi migrou para a classe principal do mundial da FIM, na época a 500cc, pilotando uma Honda em 2000. Conquistou duas vitórias no ano e foi campeão em 2001, o último antes da reformulação do mundial que passou a se chamar MotoGP. O piloto italiano conquistou o tricampeonato com a Honda (2001, 2002 e 2003) e enfileirou os dois títulos (2004 e 2005) conduzindo uma Yamaha. Nos 4 primeiros anos na classe de elite (2000 a 2003) Rossi disputou 64 GPs e venceu 33 vezes. A carreira de Marc Márquez na MotoGP consegue ser igualmente impressionante, venceu o primeiro mundial que disputou em 2013 e no período de 4 anos foi campeão 3 vezes, disputando 72 provas e vencendo 29. Os números de Márquez são mais impressionantes porque, excetuando 2014 quando dispôs da melhor máquina do grid, nos outros anos brigou com um equipamento problemático.

Rossi está em seu 22º mundial e em todos estes anos apenas em 2011 e 2012, quando correu pela Ducati, não conseguiu pelo menos uma vitória. Seu recorde pessoal por temporada foram 11 primeiros lugares em 1997, 2001, 2002 e 2005. Marc Márquez fez uma temporada de estreia medíocre e teve participações inexpressivas em 2008 e 2009, desde então esteve no lugar mais alto do pódio em pelo menos 5 vezes por temporada. Em 2014 obteve seu melhor resultado, 13 vitórias nas 18 etapas do ano, um recorde absoluto.

A exuberância de resultados não é, por si só, um indicativo de genialidade. Para um piloto correto dispondo de um equipamento muito superior aos demais a vitória é consequência, não mérito pessoal. Nos últimos anos foi criada a expressão “Modo Lorenzo” para descrever vitórias em provas onde o piloto com uma moto com desempenho superior às demais larga na frente e mantém a liderança até a bandeira quadriculada. A principal característica de um piloto diferenciado é conseguir vitórias em situações adversas.

Bons resultados e técnicas de condução não são as únicas características necessárias para individualizar uma carreira extraordinária. A história da motovelocidade está repleta de pilotos vencedores que não conseguiram se impor como exemplos a serem seguidos. Em 2012 durante a conferência de imprensa da 4ª etapa da temporada o australiano Casey Stoner, bicampeão da MotoGP anunciou a sua aposentadoria aos 27 anos de idade, no auge de sua carreira, com a melhor moto do grid e faturando milhões. Várias hipóteses foram citadas para justificar esta atitude, o nascimento de sua primeira filha, um possível efeito do óbito de Marco Simoncelli no ano anterior e o desprezo pela mídia em geral. A evolução da MotoGP passou a exigir que os pilotos sejam mais acessíveis e politicamente corretos, contemplam um número excessivo de participações externas para promover a competição e os patrocinadores, coisa que o australiano abominava. Stoner era um monstro na pista, porém nunca teve o carisma de Valentino Rossi.

O abandono de Stoner obrigou a Honda a promover precocemente um piloto que impressionava nas classes de acesso. Dois anos antes, em outubro de 2010, a prova no Estoril da 125cc foi disputada em um clima hostil para a motovelocidade. Marc Márquez, 17 anos, já havia conquistado 9 vitórias e alinhou para a largada na penúltima prova do campeonato. Na sua frente um único piloto, Nico Terol, também candidato ao título, a diferença entre ambos eram escassos 12 pontos. Depois da largada as posições foram mantidas por 6 voltas, até a prova ser interrompida por absoluta impraticabilidade das condições da pista. No retorno para o grid da nova largada, Márquez caiu e danificou a carenagem da sua Derbi #93. A equipe trabalhou alucinada para permitir a sua volta, infelizmente não a tempo de alinhar na sua posição, 2ª, ele foi obrigado a largar em 16º no fim do grid. Nas 9 voltas restantes, com uma pilotagem extremamente agressiva, Márquez ultrapassou todos os concorrentes e venceu a prova por uma diferença de 0,150 segundos.

Valentino Rossi é o piloto mais longevo em atividade, e mantém alto nível de competitividade. A característica mais marcante do italiano é a sua adaptabilidade às mudanças de equipamentos e técnicas de condução. Em sua longa e vitoriosa carreira ele competiu com motos de 2 e 4 tempos, 125cc, 250cc, 500cc, 990cc, 800cc e finalmente 1000cc, e foi vencedor em todas, com ressalva dos 2 anos na Ducati. Sua história contempla múltiplos exemplos de performances de exceção e protagonizou no GP Dutch TT, em 2015 no circuito de Assen, uma das mais brilhantes vitórias de sua carreira. Foi uma prova excitante onde o ídolo italiano italiano largou da pole e participou de uma disputa hercúlea com Marc Márquez. Os dois trocaram várias vezes de posições e Rossi chegou liderando nas curvas finais, o espanhol tentou uma ultrapassagem “in extremis” na entrada da última chicane e os dois fizeram contato. A Yamaha de Valentino foi forçada a ir para o cascalho, o piloto conseguiu recuperar o controle e voltou para a pista a tempo de vencer, foi a sua sétima vez no circuito, um recorde.

Valentino Rossi e Marc Márquez são representantes de gerações distintas. Antes de disputarem colocações nas pistas, Márquez foi um fã declarado de Valentino e colecionador de miniaturas de suas motos. A admiração continuou até ser abalada em Sepang em 2015, desde então os dois optaram por um tipo de relacionamento protocolar.

Carlos Alberto Goldani
Porto Alegre – RS

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