MotoGP – Em busca do nirvana

Marquez x Rins – Silverstone 2019

Colaboração: Carlos Alberto Goldani

“Às vezes quero crer, mas não consigo. É tudo uma brutal insensatez”. Um verso escrito por Vinicius de Moraes, em parceria com Toquinho, é uma maneira de definir o sentimento sobre o que está sendo publicado pela mídia digital nas últimas semanas em relação a retomada do Mundial da MotoGP. Recapitulando, houve três provas depois das férias de verão (na Europa), Marc Márquez venceu na República Tcheca e foi segundo colocado na Áustria e na Grã-Bretanha, sendo ultrapassado na última curva da última volta em ambas as ocasiões. Nas redes sociais, que permitem a qualquer indivíduo registar a sua opinião, o sentimento que prevalece é que descobriram uma maneira de vencer o atual campeão do mundo, uma distorção da realidade.

A MotoGP reúne os melhores pilotos do planeta, com poucas exceções impostas por pressões comerciais ou poder econômico. Na classificação geral depois de 12 etapas da temporada os 3 primeiros classificados pilotam equipamentos de 3 fábricas diferentes, Honda com Marc Márquez, Ducati com Andrea Dovizioso e Suzuki com Alex Rins. Valentino Rossi, mesmo sem apresentar o brilho usual nas últimas temporadas, é responsável por grande parcela do público presente aos circuitos e ampla cobertura da mídia.

O italiano Andrea Dovizioso participa do mundial de motovelocidade desde 2001 e largou em 306 GPs conseguindo 23 vitórias. Campeão na classe 125cc em 2004, em 12 temporadas na categoria principal participou de 190 largadas e obteve 14 vitórias. Dovizioso, que está no comando de uma Ducati nos últimos 7 anos, foi vice-campeão em 2017 & 2018 e consolidou uma fama de piloto frio e calculista.

Com um currículo enxuto e participando de campeonatos desde 2013, Alex Rins esteve presente em 131 largadas, 88 nas categorias inferiores e apenas 43 na principal. Rins foi promovido para a MotoGP como companheiro de Andrea Iannone na Suzuki no mundial em 2017, este ano não pontuou em só duas etapas e sua regularidade garantiu 149 pontos e a 3ª colocação até agora no mundial.

Valentino Rossi é um personagem que mais contribuiu com a história e o sucesso mundial do motociclismo esportivo. O italiano de 40 anos de idade está participando de GPs de motovelocidade nos últimos 24 anos, 20 disputando a categoria máxima (500cc & MotoGP). Contabiliza 395 participações em provas oficiais (60 nas classes de acesso), obteve 115 vitórias (26 nas categorias inferiores) e conquistou 9 títulos mundiais (6 na MotoGP, 1 na 500cc, 1 na 250cc e 1 na 125cc). O sucesso nas pistas, carisma pessoal, criatividade em comemorações e tino comercial transformaram o nome de Rossi em sinônimo de motovelocidade e nos dias atuais não existe nenhuma competição oficial onde não estejam presentes as bandeiras amarelas com o número 46. Valentino é o decano dos pilotos e, sem vitórias desde Assen em 2017 e com três desistências na presente temporada, ocupa a 6ª posição no atual campeonato.

O nome do espanhol Marc Márquez entrou para a história do motociclismo em seu 3º ano disputando a 125cc. Após 2 temporadas inexpressivas onde conseguiu apenas duas poles, dominou a categoria em 2010 quando obteve 10 vitórias e o título da temporada. No ano seguinte (2011) não pontuou em 5 das 17 provas da 250cc e perdeu o título para Stefan Bradl, mas voltou com força total em 2012 conquistando o seu segundo mundial. Em 2013 Márquez ocupou a vaga aberta pela aposentadoria precoce de Casey Stoner e, em sua primeira participação na principal categoria, aproveitou as infelicidades de Jorge Lorenzo e Dani Pedrosa para conquistar o título de mais jovem (20 anos) campeão Mundial da MotoGP. Os resultados de Márquez são impressionantes, em 198 GPs (120 na classe principal), obteve 76 vitórias (50 na MotoGP), largou na pole em 88 oportunidades e, contabilizando só a MotoGP tem 60 poles, ou seja, largou na primeira posição em metade de suas participações. Marc Márquez já venceu 7 mundiais e tem o 8º título praticamente assegurado.

A equalização na competitividade dos fabricantes imposta por regulamentos draconianos desaparece na corrida pelo mundial de pilotos deste ano. A Honda de Marc Márquez conquistou 250 do máximo de 300 pontos possíveis com 6 vitórias, 5 segundos lugares (em 4 ocasiões com uma diferença para o vencedor abaixo de ½ segundo) e uma desistência, abrindo uma enorme diferença de 78 pontos sobre a Ducati de Andrea Dovizioso, que se habilita a ser o vice-campeão pela terceira vez consecutiva. O piloto da Honda não pontuou em uma única prova e nas restantes esteve sempre entre os dois primeiros, uma eficiência absurda considerada a proximidade das especificações dos protótipos. Sua vantagem no mundial é potencializada pela pulverização de resultados entre os outros fabricantes.

A MotoGP convive com um paradoxo. O esforço dos promotores do mundial, orientado para promover a competitividade, não permite identificar um protótipo muito superior aos demais. Nas 12 provas realizadas nesta temporada a diferença entre os 2 primeiros foi em 5 oportunidades menor que ½ segundo, em uma única prova mais de 5 segundos. A equalização do desempenho dos equipamentos via restrições no regulamento da competição está apresentando resultado, as disputas pelas primeiras colocações envolvendo protótipos de diferentes fabricantes são frequentes. Entretanto não há especificar limitações para itens como técnica de pilotagem e estratégia durante as provas, nestes pontos o talento de Marc Márquez faz uma enorme diferença.

Os resultados das duas últimas provas apresentaram vitórias de Andrea Dovizioso e Alex Rins, ambos ultrapassando Marc Márquez na última curva da última volta. Foi o suficiente para as redes sociais vaticinarem que a fraqueza do atual líder tinha sido descoberta e que o campeonato depois de Silverstone vai ser diferente, a prova do próximo domingo na Itália é aguardada com ansiedade.

Com a vitória de uma Ferrari no GP de Monza de Fórmula 1 no último fim de semana, os fanáticos torcedores italianos vivem um momento mágico. Uma possível vitória de um piloto italiano (Dovizioso ou Petrucci) com uma moto italiana (Ducati) ou o retorno de Valentino Rossi ao ponto mais alto do pódio em Misano seria o nirvana, um estado definitivo de felicidade para os “tifosi”.

Carlos Alberto Goldani
Porto Alegre – RS

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