MotoGP – Detalhes tão pequenos…

Colaboração: Carlos Alberto Goldani

A RC211V foi um protótipo desenvolvido pela Honda com motor de quatro tempos, lançado em 2001 para substituir a legendária NSR500 de dois tempos. A mudança da MotoGP para motores de 4 tempos aconteceu quando os grandes fabricantes foram pressionados a encerrar a produção industrial dos motores de 2 tempos, pela emissão excessiva de poluentes. Não havia lógica para os fabricantes continuarem investindo no desenvolvimento destes motores se a tecnologia não puder ser portada para as motos comerciais. A mudança de 2 para 4 tempos exigiu uma nova curva de aprendizado, que resultou, cinco anos depois, na MotoGP V4 (800cc) RC212V, conservando a ideia básica da centralização das massas com o objetivo de melhorar o comportamento dos protótipos ao longo das corridas.

Importante para o balanceamento e bom desempenho é a localização do centro de gravidade do equipamento e uma das opções é utilizar o espaço atrás do assento do piloto para transportar controles eletrônicos, câmera embarcada, amortecedores de massa e outros componentes. Deslocar peso para a parte de trás da moto ajuda a amortecer a ressonância criada por sistemas rotativos como o contato do pneu traseiro com a pista, um dos grandes obstáculos para manter o controle do equipamento em voltas rápidas. Um efeito chamado “chatter” é resultado de uma vibração de alta velocidade identificada entre os pneus e a pista, criada pela incompatibilidade harmônica entre várias partes da moto. “Chatter” excessivo é quase um sinônimo de queda.

A justificativa científica para amortecer a vibração deslocando massa para a traseira do equipamento é simples: o momento da inércia aumenta em relação ao quadrado da distância, então adicionar peso que longe do centro de massa da motocicleta é uma ótima maneira de combater o “chatter”.

Os protótipos de corrida são incrivelmente sensíveis ao efeito “chatter”. Em 2012, quando a Bridgestone, então a fornecedora exclusiva de pneus, mudou no meio da temporada a consistência do componente dianteiro para um composto mais macio, a RC212V da Honda sofreu muito com os fenômenos causados pela ressonância, com sérios problemas de dirigibilidade para Casey Stoner e Dani Pedrosa em algumas corridas. Na época os engenheiros da HRC ficaram perplexos com a extensão das vibrações reportadas pelos pilotos, principalmente porque a telemetria indicava que se manifestavam de forma diferente nas curvas para a direita e para a esquerda. Como os desenhos dos autódromos não são simétricos e o conjunto de forças que atua sobre a moto varia em cada curva, os engenheiros custaram a identificar que a causa era o centro de massa levemente deslocado para um dos lados, uma anormalidade quase imperceptível, mas que causava um resultado devastador. Embora a diferença fosse mínima, a vibração era ampliada pela ressonância gerada pelo movimento rotativo da roda motriz e os outros componentes (virabrequim) do protótipo. O conceito de ressonância na mecânica dos movimentos define o fenômeno que um sistema cíclico, em algumas frequências específicas, provoca a oscilação de outros sistemas com amplitude maior. Nessas condições até mesmo forças periódicas pequenas podem produzir vibrações de grande amplitude, uma vez que o sistema armazena energia vibracional.

Embalar uma moto de corrida compactando componentes revestidos por soluções aerodinâmicas nunca é fácil, mas fica cada vez mais desafiador na MotoGP à medida que as fábricas buscam ganhos cada vez menores em desempenho. Por fim, é importante lembrar que os fabricantes não buscam só maior aceleração em linha reta pelas razões mais óbvias, além de maior equilíbrio durante as frenagens e facilitar a retomada depois das curvas, o aumento da velocidade máxima diminui o estresse no pneu dianteiro, o piloto não precisa deixar a frear a moto muito perto do contorno para compensar tempo perdido. A Honda está particularmente interessada em reduzir o calor em seus pneus dianteiros para que os irmãos Márquez, Cal Crutchlow e Takaaki Nakagami possam completar os GPs utilizando compostos dianteiros mais macios.

A pandemia do Corona Vírus está gerando um clima de incertezas, não só em relação as datas dos GPs, mas principalmente porque os fabricantes perderam as referências dos testes conjuntos. Algumas equipes e pilotos, e o exemplo mais significativo é do atual campeão do mundo e da Honda, ganharam mais prazo para consolidar a condição física e recuperar o atraso no desenvolvimento de seus protótipos. A especificação dos motores ainda não está lacrada, ou seja, as equipes ainda estão trabalhando em seu desenvolvimento e as observações comparativas coletadas nos últimos testes podem não ser mais válidas.

A parte financeira também foi seriamente afetada, e de modo desigual. Os seis fabricantes que disputam a categoria máxima são em parte subsidiados pela MotoGP. O mesmo ocorre com as equipes das categorias menores (Moto3 e Moto2), embora em valores muito menores. A ausência de GPs interrompeu o fluxo de caixa da entidade organizadora e os orçamentos têm que ser cuidadosamente reavaliados. Existem diversos pontos contratuais pendentes de análise, os prejuízos causados pela pandemia atingiram os também os patrocinadores e a maioria dos contratos está vinculada ao número de GPs, que nesta temporada ainda não está definido.

Os campeonatos de esportes motorizados ficam inviabilizados se houver GPs sem público. Ao contrário de outras modalidades onde os ginásios ou arenas costumam ser propriedade das equipes ou clubes, autódromos são mantidos por instituições autônomas que arcam com os custos de manutenção e pagam valores significativos pela oportunidade de hospedar algum evento. Uma corrida sem assistentes mantém as despesas e priva as entidades de administração das receitas, não só na venda de ingressos, também do aluguel de espaços para comercialização de alimentação e produtos relacionados, sem citar que marcar uma prova sem espectadores acaba com a indústria do turismo na região. O recente cancelamento do tradicional TT Isle of Man privou a dependência britânica de uma fonte importante de recursos (fluxo de turistas) para equilibrar seu orçamento anual.

Nas disputas pessoais ou entre equipes praticadas em quadras ou locais fechados os atletas podem ser incentivados por aplausos ou influenciados por vaias dos espectadores. O motociclismo é um esporte onde desde a autorização da largada o piloto fica solitário, isolado do que acontece fora de seu cockpit. Ovações ou apupos tem pouco significado durante a prova, portanto a presença ou ausência de público não é um fator relevante para o resultado de uma competição.

Carlos Alberto Goldani
Porto Alegre – RS

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