Lito Cavalcanti: Hoje era dia de falar de Alonso, mas…

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Christian Horner, Bernie Ecclestone e Paul Hembery

 

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Red Bull mostra força e coloca a Pirelli de joelhos

Não tem pra ninguém. A frase poderia ser sua, minha ou de qualquer outra pessoa, mas foi dos mecânicos da Ferrari à guisa de recepção para Fernando Alonso, autor de uma verdadeira, incontestável obra prima em sua vitória no Grande Prêmio da Espanha.

Que começou na segunda corrida da GP2, bem antes da largada da F1. Atento a tudo que acontece a seu redor, Alonso sempre acompanha todas provas com atenção especial. E não lhe passaram despercebidas as ultrapassagens que o piloto francês Tom Dillmann fez na importantíssima curva Três, todas por fora.

Ora, uma ultrapassagem por fora exige condições ideais. Por isso, Alonso aproveitou o desfile de carros antigos que precedeu a corrida de F1 e saltou de sua Alfa Romeo na Três, aparentemente para saudar o público. Acenando para a multidão, ele avaliava a aderência daquele trecho esfregando a sola do tênis no asfalto.

Com base no que viu e sentiu da curva Três, o asturiano largou relativamente bem, mas não ganhou posições. Preferiu poupar parte da carga do KERS e entrou na curva Um, para a direita, ainda em quinto. Na saída da Dois, para o lado oposto, ele acelerou bem mais forte e entrou na Três, de novo para a direita, por fora de Kimi Raikkonen – se beneficiando da aderência de que apenas ele e o francês Dillmann tinham conhecimento. Na metade da curva, já ao lado de Lewis Hamilton, acionou o que restava do KERS e tomou a terceira posição ainda antes da Quatro.

Daí para a frente, ciente que consumiria menos pneus que o líder Nico Rosberg e o segundo, Sebastian Vettel, se limitou a cumprir as planejadas quatro trocas de pneus. Magistral, Fernando Alonso construiu um resultado que se completou com o ótimo terceiro lugar de Felipe Massa. Sexto no grid, removido para nono por prejudicar Mark Webber no qualify, o brasileiro também fez uma primeira volta brilhante, se livrou rapidamente do McLaren de Sérgio Perez e caminhou para o pódio. Sim, Felipe Massa está de volta.

Neste ponto, eu devia começar a analisar o excelente trabalho de Kimi Raikkonen, que tira o máximo de um carro que, em termos de velocidade, não se equipara aos Red Bull nem às Ferrari, com quem sempre Kimi divide o pódio. Mas surgiu um tema irresistível: mais uma decisão que desencadeou uma nova teoria conspiratória no nem sempre aprazível ambiente da F1.

As referidas teorias de conspiração que pululam na Fórmula 1 são sempre exercícios de raciocínio refinados e quase sempre bem fundamentados. A mais recente, saborosíssima, envolve a Red Bull, a Mercedes e, claro, o todo poderoso Bernie Ecclestone de um lado; a Pirelli, a Ferrari, a Lotus e a Force India do outro. E é brilhante.

Tanto que chega a ofuscar os muitos assuntos decorrentes deste excelente GP da Espanha. O tema é a inesperada decisão da Pirelli de modificar seus pneus já a partir do GP do Canadá, a sétima etapa deste campeonato. Uma mudança de rumo um tanto brusca: no início do ano, as críticas desferidas pela Red Bull sempre que seus carros ficaram fora do pódio eram repelidas com veemência e argumentos inquestionáveis pela fábrica italiana.

Mas o fato de, no domingo passado, a maioria dos carros trocar pneus quatro vezes foi mais uma vez motivo de gritaria dos descontentes (leia-se Red Bull). Na ocasião, o diretor técnico da Pirelli, o inglês Paul Hembery, comentou sarcasticamente que a Red Bull pregava a volta das procissões que era a F1 antes de sua empresa se tornar a fornecedora de pneus.

Nesta segunda-feira, a Pirelli deu o dito por não dito e divulgou a decisão de modificar os pneus. Sequer argumentou que Barcelona é especialmente dura com os pneus e que nas próximas etapas se voltaria às velhas e boas duas ou três paradas. Optou pela submissão.

Em bem escrita nota à imprensa, que inclui até um discreto mea culpa, a empresa atribui a pouca durabilidade dos pneus às baixas temperaturas registradas na pré-temporada e condenou a impossibilidade de realizar novos testes. Ainda lembrou de lamentar o fato de não dispor mais de um carro para desenvolver seus pneus, como fez até o ano passado.

Só não falou que foi a própria empresa que cuida dos interesses comerciais da Fórmula 1 que lhe exigiu pneus de curta duração, a fim de apimentar as corridas, que acusam os danos causados pela sequência de modificações implementadas por ela mesma, a tal empresa que parece só ter olhos para os interesses comerciais.

Destaque especial para os atores desta pantomima. De um lado, arauto das críticas, está Christian Horner, o chefe da Red Bull e aliado de Ecclestone. Seus pares lhe atribuem o vazamento de decisões sigilosas da FOTA, a associação das equipes – em bom português, é acusado de espionagem. Sua equipe é apontada como o principal obstáculo à instituição de um limite anual para os gastos das equipes, medida tentada pela FOTA e tida como vital para a sobrevivência das menos endinheiradas.

Horner repete como um mantra que está na F1 para vencer, não para fazer amigos. Principalmente após o reforço da suspeita de ser os olhos e ouvidos de Bernie quando se tornou o único membro da comunidade da F1 convidado para o recente casamento do manda-chuva. Mesmo visto todo emperiquitado em traje de gala na cerimônia, ele não dá a menor importância ao assunto nem às acusações que provoca.

Aos 83 anos, Bernie está à beira do indiciamento pela justiça alemã por suborno a um banqueiro em uma operação de compra de ações da F1 a preços escandalosamente inflacionados. Talvez por isso, nos últimos tempos parece não se importar com os estragos que a imagem da categoria vem sofrendo. A possibilidade de sua participação no lobby decorre dos incontáveis depoimentos contra a Pirelli nas transmissões das corridas, sempre a cargo da produtora da FOM (Formula One Management), uma das empresas que Bernie Ecclestone usa para dominar a categoria.

Nas transmissões, tem sido frequente a veiculação, via áudio, de queixas enfáticas dos pilotos contra os pneus, submetendo a indústria italiana a situações vexatórias. É bom lembrar que toda e qualquer troca de palavras entre os pilotos e as equipes é gravada, selecionada e previamente editada antes de ser veiculada. Nenhuma vai ao ar de forma inadvertida.

Sem ter como reagir à desconstrução de sua imagem, a Pirelli capitulou, triunfou o lobby de Horner e Ecclestone. Que também deve beneficiar a Mercedes, que vive hoje o drama de ver seu desempenho brilhante nos qualifies se transformar em queda vertiginosa nas corridas.

Em termos técnicos, o problema decorre da construção usada nos pneus desta temporada, que inclui uma cinta de aço sob a banda de rodagem – até 2012 esta cinta era de kevlar, mais flexível. Ela aumentou a área de contato da banda de rodagem com o solo, mas o resultado colateral é uma imprevista dificuldade de controlar a temperatura dos pneus.

De acordo com o depoimento do engenheiro Mark Gillan ao jornalista James Allen, esta modificação vai prejudicar Ferrari, Lotus e Force India e beneficiar Red Bull e Mercedes. As três primeiras priorizaram o controle térmico dos pneus ao desenvolverem seus perfis aerodinâmicos. A Red Bull, ao contrário, priorizou o desempenho puro.

Ainda de acordo com Gillan (um dos responsáveis pela evolução da Williams no ano passado), o problema da Red Bull se agrava porque seus carros não têm a qualidade mecânica das três prejudicadas, o que a impede de usar um acerto que amenize o aquecimento de seus pneus. Quanto à Mercedes, nem ela sabe o que causa a diferença de seus qualifies brilhantes e suas corridas nem tanto. Assim, qualquer mudança pode lhe trazer evolução.

É ou não é uma excelente teoria da conspiração? É bem arquitetada, tem fundamentos técnicos inquestionáveis. E ainda evidencia a disputa surda entre Ecclestone e a FIA, que impôs a introdução de um motor turbo de baixa cilindrada a partir de 2014. Ecclestone se opôs, mas não conseguiu demover o presidente da FIA, Jean Todt, de sua decisão.

Desde então, Bernie não perde a menor oportunidade de mostrar seu poder na F1 e de dificultar a vida de Todt, que antes de presidir a FIA tinha a mesma função na Ferrari. Por isso, atingir a Ferrari é atingir a FIA. As duas são velhas e fiéis aliadas. Mas neste caso a FIA está de mãos atadas.

Mesmo com toda sua autoridade, Todt só poderia vetar a mudança por motivos relacionados com segurança. O que se inviabiliza diante das cenas de Lewis Hamilton, Paul di Resta e Jean Eric Vergne chegando aos boxes com a supracitada banda de aço exposta pelo descolamento da banda de rodagem dos pneus traseiros.

Esta é a Fórmula 1, recheada de teorias conspiratórias, verdadeiras ou não. Pena. Poderíamos ter dedicado todas as linhas anteriores à genialidade de Alonso, à enorme competência de Raikkonen e da Lotus ou à volta de Massa ao pódio. Mas surgiu o lobby contra a Pirelli e a vitória de Alonso caiu no esquecimento…

Lito Cavalcanti

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