Lito Cavalcanti: GP de Austin, um espetáculo inesquecível

Lewis Hamilton - GP dos EUA 2012

Lewis Hamilton - GP dos EUA em Austin 2012

 

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Mas a volta aos EUA exige mais do que isso

Não sei a que creditar o sensacional Grande Prêmio dos Estados Unidos deste último domingo. Se ao excelente traçado saído da muitas vezes condenada pena do arquiteto Hermann Tilke, da escolha antecipadamente criticada dos pneus mais duros que a Pirelli produziu neste ano, ou se ao desempenho espetacular de Lewis Hamilton, de Sebastian Vettel e de Felipe Massa.

Da pista, nada a reprovar. A escolha do local, o brilhante aproveitamento da topografia, o traçado reproduzindo curvas célebres de circuitos históricos, a perfeita execução do asfaltamento, tudo merece os mais fervorosos aplausos. E ainda há que se elogiar a preservação dos espaços destinados ao público. Do alto das colinas se podia desfrutar da rara visão dos carros mais rápidos do planeta se contorcendo a altíssimas velocidades sob o comando irretocável dos melhores pilotos do mundo.

Da prova de classificação à volta final, o que se viu foi a face mais bela da Fórmula 1. Principalmente pela escolha dos pneus – e também a sábia decisão de se fornecer um jogo a mais para cada piloto na sexta-feira, lhes permitindo andarem muito mais do que de hábito. E os fez também darem voltas e mais voltas no qualify, o emborrachamento gradativo do asfalto novo (e escorregadio) transformando a guerra tática habitual em uma brilhante disputa homem a homem, máquina a máquina.

Foi já nesta fase que surgiram as primeiras e imprevisíveis emoções. Superando seu companheiro de Ferrari na segunda sessão de treinos livres, Massa dava sinais de que poderia repetir a dose na definição do grid – o que conseguira apenas uma vez neste ano.

Havia uma explicação técnica. O carro do espanhol estava equipado com um novo difusor que tem como objetivo melhorar a velocidade máxima, em que a Ferrari apostava, já que 45% da volta de Austin são constituídos por retas. Não deu certo, mas isso só ficou claro no qualify, e depois dele as equipes não podem fazer alterações na configuração dos carros. Quem as fizer é retirado do grid e tem de largar da pista dos boxes.

Na verdade, preocupava mais a fila em que cada piloto largaria do que seu resultado no qualify. Nos ensaios de largada que os pilotos fazem após cada treino livre, já ficara claro que o lado interno da reta dos boxes seria um desastre em termos de tração. Massa fez um destes testes no lado sujo e os computadores detectaram destracionamento mais intenso até do que se fosse em pista molhada. Calculava-se por baixo a perda de quatro posições.

No qualify, Massa foi o sétimo e Alonso o nono, mas a remoção de Romain Grosjean de quarto para nono por troca do câmbio antes das cinco corridas regulamentares os jogou para a escorregadia fila par. Foi aí que a Ferrari voltou a colocar em risco a recuperação de uma boa imagem da F1 nos Estados Unidos.

A ideia foi quebrar um dos lacres da caixa de marchas de Massa, o que o fez perder cinco posições, de sexto para 11º. Com isso, mais do que ganhar uma posição, de oitavo para sétimo, Alonso passou da fila par, a menos aderente, para a ímpar, bem melhor. Junto, Nico Hulkenberg passou de sétimo para sexto (lado sujo), Maldonado de 10º para nono (lado limpo) e Bruno Senna de 11º para 10º (lado sujo).

O assunto tomou de imediato nas mídias sociais, onde 99,9% dos comentários condenavam a atitude da Ferrari. Que tentou salvar sua cara admitindo que a manobra era apenas tática, que o câmbio de Massa estava perfeito e nem trocado foi; a motivação era apenas a de melhorar as chances de Alonso. Legal? Sem dúvida. Ética? Limpa? Moral? Pelo menos discutível. Seria o Grande Prêmio dos EUA o lugar indicado para tal atitude? Logo lá, o país onde ocorreu a vergonhosa corrida de Indianapolis 2005?

A controvérsia, porém, logo caiu no esquecimento, ofuscada por uma corrida que já começou sensacional. Certo ou errado, o sétimo lugar no grid permitiu a Alonso largar brilhantemente e superar Michael Schumacher e Kimi Raikkonen por fora na espetacular curva Um. No topo da subida íngreme que fecha a reta dos boxes, os pilotos não conseguem ver a tangência no momento da freada, e voltam ao acelerador sem ver a saída da curva.

O espanhol sabia que sua sorte seria decidida na primeira volta. Jogou todas as fichas naquela curva e ganhou. Saiu dela em quarto e passou para terceiro quando o Red Bull de Mark Webber apresentou, mais uma vez, falhas no alternador de voltagem. Daí para frente, não houve mais nada a fazer. A não ser subir ao pódio e lá agradecer ao ex-desafeto Lewis Hamilton por ter evitado que Vettel saísse de Austin com vantagem praticamente decisiva.

Chegando em segundo, o alemãozinho aumentou de 10 para 13 sua vantagem sobre Alonso. Mas se fosse dele, e não de Hamilton, a vitória, a vantagem seria agora de 20 pontos. Não que a vida da Ferrari em Interlagos, neste fim de semana, se afigure das mais fáceis, mas se Vettel tivesse vencido em Austin, lhe bastaria o sétimo lugar para se tornar o novo campeão, mesmo no caso de uma improvável vitória de Alonso.

Com 13 pontos de frente, Vettel precisa apenas do quarto lugar, vença quem vencer. Ele assim chegará a 285 pontos, e mesmo que uma vitória leve Alonso a igual número de pontos, ele perderia no primeiro critério de desempate: o número de vitórias. E é bom lembrar que o espanhol não lidera uma corrida desde o Grande Prêmio da Alemanha, em julho. Pensar em vitória neste momento parece apenas exercício de imaginação.

Imaginemos então que Alonso chegue em segundo, uma colocação ainda difícil, porém mais ao alcance da Ferrari. No caso, fica ainda mais fácil para Vettel: basta chegar em oitavo para garantir o título. E será ainda mais se Alonso for terceiro: bastará o 10º lugar para a Red Bull cair na festa. E que festa. Ele se tornará assim o terceiro piloto a vencer três campeonatos consecutivos nos mais de 50 anos da F1, juntando seu nome ao de ícones como Juan Manuel Fangio e Michael Schumacher.

Nesta altura do campeonato, é difícil acreditar que a Ferrari surja em São Paulo com uma inovação que lhe permita enfrentar de igual para igual a Red Bull. Ou a McLaren, que entrou com muita força nesta equação. Mas há ainda outros fatores que podem jogar a favor da Rossa e portanto precisam ser observados com muito cuidado pela Red Bull.

Ainda antes dos treinos serem iniciados em Austin, Mark Webber admitia que a equipe ansiava pela decisão do título lá mesmo. A Red Bull teme, com razão, a imprevisibilidade do clima, que costuma provocar resultados surpreendentes. Como a vitória de Giancarlo Fisichella em 2003 com um carro da quase nanica Jordan. Tão inesperada que o troféu só foi entregue ao italiano na corrida seguinte, em Imola. O pior é que a previsão é de chuvas fortes durante todo o fim de semana, sempre por volta das 15 horas, quando a corrida irá pela metade.

Ainda há mais. Por ser 800 metros acima do nível do mar, o ar menos denso de Interlagos causa a perda de oito por cento da potência normal, cerca de 65 cavalos. Se isso vale para todos motores, inclusive os da Ferrari, o mesmo não ocorre com o KERS, sistema que aproveita as freadas para gerar até 80 cavalos. Só que, por ser elétrico, o KERS não é afetado pela atmosfera.

Pode ser exatamente aí que a genialidade do projetista mostre sua outra face. Para dar a seus carros a melhor penetração aerodinâmica possível, o genial Adrian Newey teve de fazer concessões. Uma delas foi a adoção de baterias menores, para poder utilizar uma carenagem ainda mais estreita e reduzir assim a área frontal dos RB8. A contrapartida desta inventividade é a menor capacidade de armazenar gerar potência. O KERS dos carros de Vettel e Webber gera apenas 62 cavalos.

Eles sentirão esta carência claramente quando apontarem na saída da curva da Junção para iniciar a subida da reta dos boxes. Ela não é nem de longe tão íngreme quanto a que precede a curva Um de Austin, mas exerce papel importantíssimo na conquista de uma boa posição no grid; ainda mais na hora de tomar a posição de um adversário.

Aí repousam parte das esperanças da Ferrari. São poucas, mas crescerão se ao KERS mais eficiente se juntar uma boa quantidade de chuva. Então, as cartas podem se embaralhar, dando a Alonso o terceiro campeonato que vem lhe escapando desde 2006, quando conquistou seu segundo campeonato, correndo pela nada saudosa equipe Renault de Flavio Briatore & Cia Bela.

Outro tema que causa excitação na Casa de Maranello é a excelente atuação de Felipe Massa nos Estados Unidos. De volta a seus melhores momentos, ele mostrou a velocidade e a combatividade que abriram para ele os corações brasileiros. Largou em 11º, fez uma corrida repleta de duelos e ultrapassagens e chegou em quarto, a melhor posição que poderia obter se tivesse largado em sua posição original no grid.

Chego até a sonhar com uma vitória redentora de Massa em Interlagos, mesmo sabendo que ela só lhe será permitida se Alonso já tiver o titulo garantido ou estiver fora da corrida. Mas seja qual for o resultado de Interlagos ou do campeonato, uma coisa muito positiva aconteceu neste fim de semana: a volta da F1 aos Estados Unidos.

Se faltava alguma coisa para a categoria se estabelecer de forma convincente junto a maior economia do mundo, parece já não faltar. A corrida de Austin teve tudo do melhor, e o público acorreu em massa. Na sexta-feira, foram contadas 64 mil pessoas; no sábado, 82 mil; no domingo, 117 mil. Dia a dia, parecia cair a crença de que a F1 não agrada ao público norte-americano, este insondável misto de raças e nacionalidades que habita a terra de Tio Sam.

Mas o fato é que a F1 ainda paga caro pelos maus feitos de Indianapolis 2005, quando 19 dos 25 carros do grid se recolheram aos boxes ao fim da volta de apresentação, se negando a largar. A farsa, com razão, foi considerada intolerável, cobrindo de indignação os mais de 100 mil torcedores presentes e deixou na categoria a marca da indignidade. Acima de tudo, exibiu claramente a incapacidade da F1 de enxergar além de seu próprio umbigo.

Isso ainda não está esquecido. O publico presente a Austin foi expressivo, mas um terço do total era de torcedores mexicanos e venezuelanos que apoiavam Sérgio Perez e Pastor Maldonado. Os jornais de Austin, todos pequenos, foram receptivos, mas os de alcance nacional ignoraram a corrida. Se ao menos a F1 tivesse o zelo de garantir a presença de um americano legitimo, branco, anglo-saxão e protestante, a repercussão provavelmente seria melhor. Mas sua arrogância não lhe permitiu sequer pensar nisso.

O espetáculo merecia bem mais. Mas a F1 parece se negar a aprender lições óbvias, e por pouco não se teve a volta do pesadelo. Foi quando a Ferrari decidiu forçar a perda de cinco posições do grid para Felipe Massa. Uma falha do regulamento confere legalidade à atitude, mas a maior parte do publico a considera imoral. Mesmo assim, foi coonestada pelas outras equipes, que alegam estarem lá para ganhar corridas e campeonatos, não para fazer amigos. Pelo visto, nem amigos nem fãs…

Por estas e outras, a Fórmula 1 é vista em diversos setores, inclusive o cobiçado mercado norte-americano, como um bando de oportunistas reunidos sob o comando tolerante de entidades que não merecem mais que a frieza e a distância com que a trata a imprensa americana. Por isso, de pouco lhe serve a altíssima qualidade que, nas pistas, vem marcando este excepcional ano de 2012.

Que venha Interlagos. Que venha uma nova Fórmula 1.

Lito Cavalcanti

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