Histórias de Interlagos – A diferença entre Preço e Valor

Por: Fernanda de Lima

“Desde pequeno, como qualquer menino de 10 anos adoramos brincar com carrinhos. Essa paixão por carros e motores é presente na infância de muitas crianças. Como nasci em São Paulo e sempre morei próximo ao autódromo de Interlagos, era difícil não se envolver com o mundo das pistas. Com meu pai também não foi diferente, e acabei seguindo a paixão dele pelo automobilismo. Desde pequeno acompanhei corridas e sem dúvida as de Fórmula 1 eram mais aguardadas que o Natal ou aniversário. Me recordo de estar presente desde as primeiras provas em Interlagos. O final de semana das corridas era mágico e vivíamos a emoção do Grande Prêmio Brasil de forma intensa durante toda a semana.

Para uma criança de 10 anos, prestar atenção na aula já é difícil… Imagine em um colégio próximo ao autódromo, onde o ronco dos motores (na época V10 e V12) falavam mais alto que qualquer professora do primário (risos). Me recordo que nos finais de semana de corrida, acompanhávamos desde os treinos classificatórios de sexta-feira até a bandeirada de forma religiosa.

Em mais de 10 corridas que pude acompanhar com meu pai, sem dúvida as mais marcantes foram as de 1991 e 1993, com as vitórias de Ayrton Senna. Me recordo que em um dos anos, estávamos na fila (onde passávamos parte da madrugada para conseguir um lugar melhor na arquibancada) e vimos carros batedores da polícia abrindo passagem. Em um dos carros que seguiam logo atrás estava no volante nosso grande ídolo: Ayrton Senna. Ali, dirigindo na nossa frente. A comoção foi instantânea. Foi como se estivéssemos diante de uma santidade das pistas. E carregávamos naturalmente esse sentimento para dentro do autódromo.

Uma das sensações que mais me marcaram foi ver um Fórmula 1 “rasgando” a reta oposta pela primeira vez. Nunca vou me esquecer pois eu sentia a arquibancada vibrar antes do carro passar. O ronco do motor, a velocidade e o impacto audiovisual me fascinavam. Era fácil ver muitos sorrisos após a passagem de um desses carros.

Desse final de semana, em especial, me recordo que Senna brigava com as Williams que eram muito melhores. Foi uma corrida cheia de altos e baixos. Lembro que antes da largada a arquibancada era tomada e mal conseguíamos ficar sentados. Todos se levantavam e aguardavam ansiosamente pela largada. Lembro que eu estava na reta oposta e não conseguia ver a largada, apenas o ronco dos motores subindo. A primeira visão que eu tinha eram os carros descendo o ”S” do Senna. Nas primeiras voltas ninguém ficava sentado, somente depois de algum tempo de prova os carros começaram a parar nos boxes e ficávamos um pouco perdidos com as posições. Lembro da correria nas arquibancadas para colocar a capa de chuva que alternava sua intensidade.

Em uma dessas alternâncias, lembro que houveram alguns acidentes – o que a gente na arquibancada gostava – e forçaram muitos pilotos a trocarem os pneus. Em uma das trocas o carros se juntaram novamente e, se não me engano, o Senna estava em segundo lugar, atrás do Damon Hill. Após a relargada, do ponto que eu estava, vi o Senna passar colado na Williams. Ambos fizeram a Curva do Lago enquanto todos já estavam em pé e molhados com a chuva que caía. Por um instante não foi possível ver os carros na Subida do Lago, e nesse momento parece que ficamos em câmera lenta, e era possível ouvir até os batimentos cardíacos. Quando os carros apontaram novamente, Senna tinha ultrapassado e foi como uma explosão. A corrida seguiu até a bandeirada, e acompanhar a última volta foi algo inesquecível.

Enquanto a chuva caía, eu olhava pro lado e via pessoas chorando antes mesmo da bandeirada. Lembro que quando olhei pro meu pai, vi as lágrimas nos olhos dele. Aquela vitória foi um presente e ao mesmo tempo uma recompensa por todo nosso esforço.

Após a bandeirada, Senna apareceu com a bandeira em punho e parou milagrosamente a poucos metros de onde nós estávamos, no setor G. Vi muitas pessoas invadindo a pista e não me contive, comecei a subir o alambrado, quando meu pai me puxou. A polícia tentava conter a invasão, e hoje entendo seu instinto de proteção. Fiquei de frente para meu ídolo, de braços abertos embaixo daquela chuva, e essa cena eu jamais esquecerei.

Quanto vale um ingresso? Não me recordo o preço. Mas essa é a diferença entre preço e valor. Preço é o que você paga e valor é o que você leva, e dinheiro nenhum no mundo me fará esquecer aquele domingo em Interlagos…”

Resolvi ir atrás de histórias de Interlagos que não fossem as minhas, e saí perguntando por aí: “vocês conhecem alguém com uma história especial em Interlagos?”. A primeira resposta que tive foi: “eu conheço uma pessoa que tem o capacete do Senna. Não sei como mas sei que ele tem”.

O capacete, Michael Queiroz comprou de um piloto de kart do Rio Grande do Sul através de um leilão na internet. Perguntei a ele se ele tinha certeza que o capacete tinha sido realmente do Ayrton, mas a resposta pouco importa. Todo o sentimento criado em torno do mito Ayrton Senna, sim. Hoje o capacete está em uma estante na casa de Michael e como ele mesmo diz “é um dos maiores troféus” de sua vida. E vá dizer que não a um “menino” que leva até hoje na memória lembranças tão fortes como essa…

Fernanda de Lima

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