Formula 1 fora de Interlagos no Brasil? Esquece…

Fórmula 1

Por: Adauto Silva

Antes de mais nada é necessário dizer que esse texto não é sobre política. O Autoracing não se interessa pela posição política de seus leitores. Nem a sua orientação sexual, etnia, religião, nacionalidade, condição sócio-econômica ou qualquer outra característica que você queira dar.

A única coisa que nos importa é você gostar de esportes a motor, particularmente automobilismo e motociclismo. E ter discernimento suficiente para entender, aprender, comentar trocando ideias conosco e com os demais leitores e ouvintes do “Loucos” sobre qualquer aspecto relacionado a automobilismo e motociclismo de competição.

Nessa semana o governador e prefeito do Rio de Janeiro, apoiados pelo presidente Bolsonaro, disseram uma série de bobagens – e coloca bobagem nisso – sobre a Formula 1 sair de São Paulo e ir para o Rio de Janeiro já em 2020.

Mas porque usei a palavra “bobagens”?

Porque eles não sabem o que falam. Infelizmente e presumivelmente demonstraram não ter o mínimo conhecimento sobre o que é necessário para construir e manter um autódromo com porte suficiente para a F1. Falaram até em MotoGP também.

Apesar de eles terem dito que o autódromo em Deodoro não teria um centavo de dinheiro público, vou colocar abaixo dois cenários.

Primeiro vou “acreditar” que eles querem fazer e manter um autódromo para F1 sem dinheiro público.

Um autódromo com capacidade para ter a F1 precisa de uma pista com no mínimo 5 km de extensão, acomodações de box, imprensa, torre de controle, paddock grande e moderno, alguns heliportos, estacionamento para no mínimo 15 mil veículos e inúmeros outros itens que nenhum autódromo existente no Brasil tem hoje.

Além disso, é absolutamente necessário que exista toda uma infraestrutura ao redor do autódromo que também não existe em nenhuma cidade do Brasil, ainda mais em Deodoro, um lugar cercado de favelas. São necessários hotéis, restaurantes, shopping centers, segurança, transporte público e facilidade de transporte particular, ou seja, grandes avenidas, enorme área de estacionamento, estações de metro e ônibus, etc.

Nada disso existe em qualquer cidade do Brasil. A que mais se aproxima é São Paulo porque o autódromo de Interlagos já está lá, já funciona, tem quase todos os itens listados acima, tem mais de 250 dias de eventos por ano para ajudar a pagar sua manutenção, mas mesmo assim precisa de reformas todos os anos para receber uma Formula 1 cada vez maior e mais exigente.

Se existisse outro lugar com todas as características necessárias para receber a F1 no Brasil, somente a construção do autódromo e sua infraestrutura interna custaria cerca de 1 bilhão de reais (sem contar as propinas para os diversos agentes públicos que mordem dia sim e no outro também). Ah, ainda tem o terreno, que dependendo do lugar – e precisaria ser um lugar com toda aquela infraestrutura que apontei acima, custaria também próximo de 1 bilhão de reais.

Então vem a pergunta: Qual empresário da iniciativa privada seria retardado o suficiente para botar 2 bilhões de reais num negócio basicamente impossível de retornar o investimento em, digamos, 10 anos?

Eu respondo por todos: Nenhum. Não existe uma pessoa que ganhou esse dinheiro e seja retardada a esse ponto.

“Ah, mas os governantes do Rio disseram que o exército vai doar o terreno!”

Então estamos falando em dinheiro público em pelo menos metade do investimento!

Mesmo assim, nenhuma pessoa que tenha 1 bilhão de reais é retardada o suficiente para colocar esse montante num negócio de tamanho risco. E nenhum Banco no mundo vai emprestar esse dinheiro para um negócio fadado ao fracasso financeiro.

Nem os principais clubes de futebol conseguem manter estádios próprios sem prejuízo, mesmo colocando 20 mil pessoas praticamente duas vezes por semana lá dentro, recebendo dinheiro da TV, vendendo produtos do time, fazendo milhares de pessoas pagarem como “sócio-torcedor” e etc. Imagine um autódromo começando do zero!

Portanto esqueçam a iniciativa privada numa roubada dessas. É absolutamente impossível.

O segundo cenário seria usar dinheiro público para bancar tudo ou quase tudo.

Qual estado ou cidade brasileira tem alguma condição de fazer isso? Nenhum ou nenhuma. Todos os estados da federação estão em regime pré-falimentar ou completamente quebrados. O Rio de Janeiro é um dos piores, já que não consegue pagar sequer aposentadorias e/ou salários para quem ainda está trabalhando no setor público. Isso sem falar em saúde, educação, segurança e transporte, praticamente inexistentes no Rio e em boa parte dos outros estados.

Como explicar para o contribuinte que o estado vai gastar mais de 1 bilhão de reais num autódromo de corridas, quando falta todo o básico para a população?

É tão absurdo que se algum governante do país quiser fazer isso, ele teria que ser preso por improbidade administrativa, malversação do dinheiro público e uma série de outros crimes que não interessa listar aqui.

Portanto leitor, não caia na conversa de políticos totalmente ignorantes no assunto – para não dizer mal intencionados – porque a F1 não sai de Interlagos tão cedo. E se sair, provavelmente ficaremos sem o GP do Brasil por muitos anos. Pelo menos até que um dia “isso aqui” funcione minimamente como um país razoavelmente bem administrado e não com problemas seríssimos em todo e qualquer lugar que se “puser a mão”.

Tenho 57 anos e ouço que o Brasil é o “país do futuro” desde que me conheço por gente.

Nunca vi esse futuro nem de luneta.

Adauto Silva
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