F1 – Gilles Villeneuve, o cara

Gilles Villeneuve, Long Beach, California

Gilles Villeneuve, Long Beach, California

Por: Adauto Silva

Para os fãs de uma certa idade, o dia 08 de maio de 1982 é tão triste como o 1 de maio de 1994. Como muitos outros, lembrarei para sempre exatamente o que eu estava fazendo nessas duas datas. Na primeira eu só soube num boletim especial da TV, porque naquela época os treinos de classificação não eram televisionados. Quando vi aquele boletim informando que Gilles Villeneuve havia morrido durante a classificação para o GP da Bélgica em Zolder naquela tarde de sábado, fiquei completamente estarrecido. E triste, muito triste.

Pra mim Gilles era imortal. Já tinha sofrido tantos acidentes graves em sua carreira que eu pensava que o cara era de outro planeta. Emerson não corria mais na F1 e toda minha torcida, adrenalina e admiração eram por Gilles. Na verdade – com 20 anos de idade – assistir Gilles era minha principal motivação para acompanhar a Formula 1. Depois daquele dia, joguei tudo que eu tinha até então sobre corridas fora, inclusive meu macacão, capacete e vendi o kart que eu costumava andar pelo menos uma vez por mês em Interlagos e as vezes em alguma pista do interior de SP.

Vi Gilles ao vivo no GP do Brasil em Jacarepaguá em 1982. Alguns amigos e eu conseguimos credencial de box e tenho até hoje uma foto transformada em poster que tiramos dele momentos antes de ele entrar no carro…

Gilles Villeneuve - Jacarepaguá 1982

Gilles Villeneuve – Jacarepaguá 1982

Gilles – o cara que fazia o inesperado nas pistas – havia morrido e automobilismo não fazia mais sentido. Lógico que com 20 anos e acostumado a ver aquelas disputas inenarráveis do grande canadense, era tudo que fazia eu e muita gente acordar cedo nos domingos para se emocionar.

Mas o próprio Gilles junto com Emerson haviam sido os responsáveis por eu ter adquirido aquele famoso “vírus” da Formula 1 e, apesar de não mais assistir F1 pelo resto de 1982, o vírus não saiu completamente de mim, apenas adormeceu naquele fatídico ano. Em 1983 eu voltei a assistir todas as corridas de F1, ainda mais porque comecei a me identificar demais com o grande Nelson Piquet, que inclusive ganhou o título naquele ano.

Racionalmente não deveria ter sido uma grande surpresa Gilles ter morrido na pista. Guiava sempre no limite total do carro e da pista, não importava as condições. Numa época em que a segurança dos pilotos mal era considerada, ele tinha uma coragem e uma habilidade muito acima da média. Frequentemente passava muito perto de grandes acidentes e chegou a ter alguns.

Em 1979 ele poderia ter sido campeão, mas a Ferrari decidiu que o título seria de Jody Scheckter – depois de Gilles ter vencido duas  das quatro primeiras corridas do ano, mas não ter marcado pontos nas três corridas seguintes, Espanha e Bélgica em P7 e quebra de câmbio em Monaco. Depois ainda quebrou na Inglaterra, não marcou na Alemanha e teve um pneu dechapado na Holanda. Mesmo assim ele ainda venceu a última corrida do ano nos EUA e ficou com o vice, apenas 4 pontos atrás de seu companheiro sul-africano.

Sheckter era um piloto que guiava mais com a cabeça do que com o coração. Gilles era 90% coração e 10% cabeça. Em 1982 Maranello tinha carro novamente para ser campeão e seria a vez de Gilles dentro da Ferrari. Sua primeira vitória do ano aconteceria em Imola, quarta corrida daquela temporada. Já estava combinado que se Didier Pironi estivesse na frente de Gilles, o canadense nem deveria atacar, pois a Ferrari daria a ordem para eles trocarem de posição.

O problema foi que faltando algumas voltas para o final, René Arnoux liderava a corrida e então Villeneuve e Pironi começaram a brigar atrás dele para ver quem o alcançaria primeiro. Villeneuve conseguiu se livrar de Pironi e foi pra cima de Arnoux, que quebrou quando estava a ponto se ser ultrapassado por Gilles. Parecia que tudo havia terminado e ambos iam apenas levar “os carros pra casa” até o final. Mas Villeneuve cometeu um erro na volta 47 e Pironi o ultrapassou.

Gilles continuou em seu encalço, mas Pironi – que também era um grande piloto -, não parecia disposto a diminuir para Gilles ultrapassá-lo, então eles começaram uma luta feroz, até que Gilles conseguiu ultrapassá-lo na marra de novo na volta 59. Parecia tudo resolvido, mas na última volta Pironi não manteve o acordo e partiu para cima de Gilles pegando-o desprevenido no final da reta e o ultrapassando para a vitória.

A amizade deles acabou naquele dia, assim como a vida de Gilles duas semanas depois na Bélgica, quando ele vinha desesperadamente em sua última tentativa para obter a pole. O acidente foi horrível. A Ferrari decolou após encostar no pneu traseiro da March de Jochen Mass e quando bateu de bico no solo, Villeneuve foi jogado para fora do carro junto com seu banco e cinto de segurança. A pancada foi tão violenta que inclusive arrancou seu capacete e parte de seu couro cabeludo. Gilles ficou ali, imóvel ao lado de uma grade de arame e morreu lá mesmo.

Gilles Villeneuve não teve muitas vitórias, apenas 6 em 67 largadas. Não conquistou nenhum título na F1, fez apenas 2 pole-positions e 8 voltas mais rápidas.

Mas quem se importava com esses números quando ele era o único capaz de fazer isso?

Adauto Silva
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