F1 – Colin Chapman

Emerson Fittipaldi e Colin Chapman - Brands Hatch,1972

Emerson Fittipaldi e Colin Chapman – Brands Hatch, 1972

Colaboração: Carlos Alberto Goldani

Em 1958 a FIA anunciou que a Fórmula 1 que passaria a premiar dois campeões mundiais em cada temporada, um título para o piloto com melhores resultados e um para o fabricante da melhor máquina. Na época, fabricantes tradicionais olhavam com desprezo os construtores ingleses independentes, chamados pelo Comendador Enzo Ferrari de “Garagistas” porque não construíam seus próprios motores. Neste ambiente brilhou a genialidade de Colin Chapman, um hábil e criativo engenheiro inglês, fundador da Lotus Cars em 1952, uma empresa criada para produzir carros esportivos.

Chapman utilizou seu conhecimento em engenharia aeronáutica para criar sucessivos modelos de carros vencedores, sempre com ênfase em pouco peso e boa aerodinâmica. Seu princípio básico era que “mais potência resulta em maior velocidade em retas, menor peso implica em maior velocidade em toda a pista”. Sob a direção de Chapman o Team Lotus venceu, entre 1962 e 1978, sete títulos de construtores, proporcionou a seus pilotos seis mundiais e venceu uma edição das 500 Milhas de Indianópolis (Jim Clark, 1965). A equipe de Colin Chapman comemorou campeonatos mundiais para cinco de seus pilotos, Jim Clark (1963 e 1965), Graham Hill (1968), Jochen Rindt (1970), Emerson Fittipaldi (1972) e Mario Andretti (1978). A Lotus Cars não teve musculatura suficiente para enfrentar a crise mundial no final da década 70, enfrentou problemas econômicos, tentou uma nebulosa associação com John DeLorean (criador do carro utilizado em “De volta para o futuro”) e sofreu processos por supostas fraudes fiscais. Colin Chapman foi vitimado por um ataque cardíaco em 1982 e faleceu com 54 anos de idade.

Algumas das criações de Chapman influenciaram decisivamente o esporte motorizado e ainda podem ser encontradas na Fórmula 1 atual e em diversas outras categorias. A suspensão independente nas quatro rodas e o chassi monochoque, utilizados em 1962 no modelo Lotus 25, resultaram em equipamento com estrutura mais leve e mais resistente, com maior proteção ao condutor em caso de acidentes.

O piloto americano Dan Gurney ficou impressionado com design avançado do Lotus 25 e sugeriu ao construtor britânico participar das 500 milhas em 1962. O resultado não foi encorajador, porém depois da prova Chapman preparou uma proposta para Ford Motor Company, um carro monochoque com propulsor traseiro utilizando um motor de alumínio Ford V-8 de 4,2 litros. Sua proposta foi aceita e o Lotus 29 estreou em Indianápolis em 1963, com Jim Clark terminando em segundo. Este conceito de design substituiu rapidamente o padrão utilizado por muitas décadas na mítica pista de Indianápolis.

Chapman convenceu a Cosworth a retrabalhar um bloco do motor Ford e criar o lendário Blake Bartelli V8 (450hp) para a equipe Lotus de Formula 1 na temporada 1967, conquistando em sua primeira temporada o segundo lugar no campeonato de construtores. Já na temporada seguinte (1968) conquista o Título de Pilotos, com Graham Hill e o de Construtores. Os carros com motores Cosworth DFV conquistam todos os títulos de construtores entre 1968 e 1974. O material do chassi evoluiu de vigas de alumínio para fibra de carbono e o conceito básico continua a ser utilizado até os dias atuais na construção de carros de corrida.

Chapman identificou nos carros de competição desenvolvidos nos EUA por Hap Sharp e Jim Hall (Chaparral) a importância da aerodinâmica no design para os Fórmula 1 e foi um dos primeiros a utilizar o conceito de downforce aerodinâmico através da utilização de asas. Os carros da época eram monstrengos semelhantes a biplanos e diversos incidentes aconteceram antes da tecnologia ser totalmente compreendida. Na Espanha, no segundo GP da temporada de 69, Chapman ordenou aos seus mecânicos aumentassem as asas dos Lotus de Graham Hill e Jochen Rindt. Durante a prova, a fixação das asas de ambos os carros não resistiu e entrou em colapso, a de Graham foi a primeira a ceder e, antes de Rindt poder ser avisado, aconteceu o mesmo com o seu carro na mesma curva uma volta depois. Hill escapou ileso e auxiliou o socorro de seu colega, Rindt sobreviveu com o nariz quebrado, maxilar fraturado e com a confiança no homem que construía os seus carros profundamente abalada.

Rindt viria a falecer um acidente em Monza em 1970, quando pediu para que removessem as asas de seu carro para desenvolver maior velocidade nas retas. O alemão radicado na Áustria Jochen Rindt é o único piloto da história que obteve o título campeão póstumo, graças a primeira vitória de Emerson Fittipaldi na F1, na última prova da temporada daquele ano em Watkins Glen.

Chapman foi o pioneiro em mover os radiadores para as laterais do carro, para diminuir a área frontal (redução aerodinâmica) e centralizar a distribuição de peso. Criou o carro em forma de cunha e o carro-asa. Foi o primeiro construtor a utilizar as laterais dos carros como outdoors, a Gold Leaf Team Lotus foi a primeira equipe da Fórmula 1 com patrocínio regular. Alguns dos conceitos criados pelo britânico ainda são utilizados no desenvolvimento dos carros de corrida atuais..

Em uma época onde as fatalidades de pilotos eram aceitas como um efeito colateral das corridas, os carros produzidos pela Lotus eram super leves, muito rápidos e surpreendentemente frágeis, projetados inicialmente para serem velozes e, se possível, seguros. A relação de acidentes fatais com máquinas da equipe britânica na F1 ascende ao número de sete e inclui além do campeão Jochen Rindt em 1970, o mexicano Ricardo Rodriguez (um dos Hermanos Rodriguez) em 1962 e Ronnie Peterson em 1978. Rindt e Ayrton Senna são os dois únicos campeões mundiais da F1 que morreram em razão de acidentes nas pistas. Porém a perda mais sentida por Colin Chapman foi a do seu amigo pessoal, o multi campeão Jim Clark, acidentado pilotando um Lotus 48 F2 em Hockenheim em 1968.

Emerson Fittipaldi, que conquistou seu primeiro mundial com um Lotus 72D em 1972, conta que em uma conversa informal Chapman confessou evitar muita proximidade com seus pilotos desde o acidente que vitimou Jim Clark, temia perder um mais um amigo envolvido em um acidente com um dos carros construído por ele.

Carlos Alberto Goldani
Porto Alegre – RS

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