F1 – A novela que nunca acaba

Mercedes e Ferrari

Por: Bruno Aleixo

E eis que no domingo, no GP da Rússia, tivemos mais um capítulo da conhecida novela “A Fórmula 1 sempre foi assim”. Confesse: quantas vezes você já ouviu, ou mesmo usou este argumento, no meio de uma discussão sobre as situações pouco esportivas que a F1, ao longo de sua história, tratou de produzir?

E não deixa de ser uma verdade, a categoria sempre foi assim mesmo, especialmente em alguns aspectos polêmicos. E o jogo de equipe é um deles, sem dúvida. Como bem lembrou o mestre Adauto Silva, no Loucos por Automobilismo da última semana, nos anos 70 e 80 os jogos de equipe já ocorriam com frequência. Gilles Villeneuve, por exemplo, morreu antes que pudesse fazer as pazes com Didier Pirroni, depois que os dois brigaram por causa de uma desobediência do francês a um resultado manipulado no GP de Ímola de 1982. A pergunta é: a quem interessa a manipulação de resultados proposta constantemente pelas equipes, tendo a Ferrari como principal expoente? Bom, ao contrário do que possa parecer, nem ela se beneficia com isso.

Antes, vamos esclarecer as coisas: embora eu tenha verdadeira ojeriza por essa política da Ferrari (e de muitas outras equipes, né Dona Mercedes) de manipular resultados a seu bel prazer, reconheço que algumas poucas vezes isso pode ser necessário. Exemplo: Felipe Massa e Kimi Raikkonen no GP do Brasil de 2007. Massa não tinha pretensões naquele ano, era a última prova, e Raikkonen dependia da vitória para bater Hamilton, que fazia prova apagada. Não fazia nenhum sentido deixar os pilotos brigarem naquela situação. Outro: Eddie Irvine e Michael Schumacher se revezando para segurar Jacques Villeneuve, no GP do Japão de 1997. Esse último, aliás, eu nem chamo de jogo de equipe, mas de tática mesmo. Acabou tornando a corrida até mais interessante.

Voltemos então ao último GP da Rússia. Aparentemente, a Ferrari determinou que Charles Leclerc deixasse que Sebastian Vettel, que largava logo atrás, se aproveitasse de seu vácuo para ultrapassar Lewis Hamilton. Vettel conseguiu passar não somente o inglês, como deixou o companheiro de equipe para trás e passou a abrir vantagem na liderança. Seguiu-se, então, uma longa discussão pelo rádio já que Vettel deveria devolver a posição. No final das contas, a Ferrari inverteu os dois nos boxes, mas o alemão teve problemas no carro e gerou um Safety Car que prejudicou Leclerc na luta pela vitória.

Ora, lendo o parágrafo anterior novamente, me deparo com o roteiro de uma esquete de humor. E das ruins. Vettel largava em terceiro, numa pista na qual se percorrem muitos metros até a primeira freada. Uma simples conta matemática já mostraria aos gênios da Ferrari que ele, não fazendo nenhuma bobagem na arrancada (como não fez), chegaria à frente de Hamilton na curva sem maiores problemas, já que os italianos têm um carro com arrancada e velocidade final bem melhores que a Mercedes. Assim, sem tática nem nada, Leclerc poderia defender a liderança trazendo seu carro para a linha de dentro, mantendo-se em primeiro e seguindo a prova sem interferência da equipe.

Conclusão: a Ferrari não precisava de tática nenhuma na Rússia. Assim como não precisava, em 2002, mandar Barrichello deixar Schumacher passar. E o que dizer de 2010, quando deu ordem para Felipe Massa deixar Fernando Alonso ir embora, sendo que o espanhol era muito mais rápido e poderia passar na pista? E só para não ficar na Ferrari, alguém acha que a vitória de Lewis Hamilton, na mesma Rússia, em 2018, depois de uma ordem da Mercedes para que Valtteri Bottas o deixasse ultrapassá-lo, faria alguma diferença?

Não, não fazem. Essas táticas ridículas e covardes servem apenas para estragar o espetáculo, tirar do público que paga ingresso, ou que se coloca na frente da TV, a chance de ver disputas entre companheiros de equipe que são, ou deveriam ser, rivais também. Há um limite entre disputar e bater o carro um no outro, e espera-se que os 20 pilotos que correm na categoria mais importante do automobilismo saibam isso.

Mas as equipes não sabem, ou não confiam, ou dão mais importância aos seus balanços financeiros. E também não sabem que vitória se conquista na pista, sendo mais rápido, ou mais esperto, ou mais malandro. Nunca com a equipe determinando quem deve chegar em que posição, de acordo com seus estatutos. Mas, desconfio, essa discussão não acabou no último GP da Rússia. Novas ordens virão, bastando apenas que aguardemos onde e quando.

P.S.: concorda? Discorda? Então vamos continuar essa conversa também no Twitter, @brunoaleixo80!

Bruno Aleixo
São Paulo – SP

AS - www.autoracing.com.br

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