É do fim que se recomeça. Por Fernanda de Lima

Ferrari

Aqui em casa é assim: a cada dois anos (no máximo, estourando mesmo) minha mãe sente uma vontade descontrolada de mudar. Não de casa, mas de algo em casa. Sofá, mesa, cama, armários, o quarto todo. Quebra parede, pinta parede, troca os móveis, arrasta daqui, arrasta dali.

Pois bem, essa necessidade de mudança atingiu a sala de casa numa reforma daquelas pra te deixar com a cabeça latejando de dor. Porque imagine só o barulho daquelas ferramentas irritantes, arrancando pisos e portas e literalmente cortando paredes desde às 6h durante três dias seguidos?

Por 2 segundos minha mãe sempre se arrepende dessas decisões. “Minha nossa! Por que eu fui fazer isso? Olha essa bagunça!!”. Porém são só 2 segundos. Em seguida, ela dá aquela chacoalhada no cabelo e diz: “Mas vai ficar ótimo!”. Essa mulher definitivamente não tem medo de mudanças!

Minha mãe é a exceção à regra. A maioria das pessoas não deixa a sua zona de conforto nem uma vez ao longo da vida. A maioria das pessoas tem medo de mudanças. Medo de perder algo que às vezes nem sabe se é o que realmente quer. Algo que, no entanto, lhe convém mais ter do que não ter.

O que é melhor (ou pior): mudar ou não mudar? Nessa terça-feira, Felipe Massa mudou. O anúncio de sua saída veio através dele próprio, nas redes sociais. Um fim que veio se desenhando ao longo dos anos. Ao lado de Fernando Alonso na Ferrari, Massa nunca foi livre e, especialmente, nas duas últimas temporadas foi cada vez mais prisioneiro. O brasileiro desapareceu diante do espanhol. Felipe teve dois momentos distintos na Ferrari, mas que de maneira alguma podem se sobrepor um ao outro. Não dá pra julgar o Felipe pós-Hungria 2009 e esquecer seu trabalho antes disso.

Tenho a impressão de que Felipe sai da Ferrari de cabeça erguida, não por cima e com a faca e o queijo na mão para bater à porta de outras equipes, mas acho que sai seguro. Seguro, talvez, de que para onde quer que vá estará mais feliz no próximo ano. O peso carregado por Felipe começa a aliviar, quer seu caminho siga na F1 ou não. Particularmente acho que ainda tem espaço na categoria (ou estou torcendo para isso?). 133 provas disputadas, 15 poles, 11 vitórias, um vice-campeonato . Não é uma história de todo ruim (aliás, em nada ruim). Fatores circunstanciais deram a muitos, por muitas vezes, a impressão que Felipe é um piloto ruim. A fase não é boa, mas está longe de ser ruim.

Dupla ultrapassagem de Felipe no GP do Canadá de 2008:

Tenho curiosidade de saber como as outras equipes enxergam Felipe Massa como piloto. Será que o julgam pelos últimos anos? Pelo início na Ferrari? Pelo campeonato perdido na última curva? Um Felipe ruim? Fiel escudeiro? Capaz de brigar por um título? Como um piloto agressivo?

E a Ferrari, como se comporta agora com relação ao bambino que vai embora? Pode ter influência numa possível negociação entre Massa e Sauber, à qual fornece os motores Ferrari? Ou a relação Massa-Ferrari acabou aqui e agora. Nisso uma coisa me chamou atenção: a forma como foi anunciada a saída do piloto. EU gostei, mas não era o que eu esperava vindo da Ferrari. Deixar o piloto se pronunciar, ficar quieta, na dela, sem nenhuma declaração de imediato? Pra mim, não é a cara de Maranello. Mas, enfim, até essa tal de Ferrari pode estar tentando mudar.

Foi assim que Felipe anunciou a sua saída:

“Nao vou mais correr pela ferrari a partir de 2014 ! Gostaria de agradecer pela amizade , Vitorias e um lindo momento com a Ferrari . A ajuda da minha esposa , da minha familia e de todos os meus Fans. Toda a ajuda dos meus patrocinadores !! vou com tudo para as ultimate 7 corridas como piloto da Ferrari !A partir de agora quero achar uma equipe que me de um carro competitivo para conseguir mais vitorias e vencer um campeonato q e o meu sonho !! Um beijo a todos !! Felipe.”

Senti algo cortante na declaração de Massa. Aquela sensação de “fiz o que pude, insisti num relacionamento que eu sabia que estava ruim, mas que, de certa forma, ainda tinha esperança”. É claro que a dispensa partiu por parte da Ferrari, mas mesmo assim… Falou com simplicidade e humildade. Uma humildade de quem não baixou a cabeça e parece firme na posição de continuar no grid em 2014. Inclusive, senti a segurança de que ele tem opções dentro da F1. Vale lembrar que as 11 vitórias que mencionei acima colocam Massa na quarta colocação de pilotos que mais venceram na escuderia italiana, atrás de Michael Schumacher (72), Niki Lauda (15) e Alberto Ascari (13). Isso tem de contar alguma coisa.

Mudanças de imediato são mesmo assustadoras, dão trabalho e conturbam o ambiente, mas depois de sentada a poeira, passada a vassoura, recolhidos os destroços, tudo tende a se acalmar e começar a entrar no eixo novamente. E se eu sou qualquer outra equipe do grid, contrato Felipe na hora! Afinal, não estaria ele com sangue nos olhos para bater a Ferrari? rs

pit stop 1. A torcida italiana parece aceitar Felipe melhor que a brasileira. O número de torcedores da Itália comovidos e agradecendo a Felipe pelos anos à disposição da Ferrari me impressionaram.

pit stop 2. Toda reforma deveria ser igual ao GP de Monza, rápido e tranquilo. E, é claro, com uma equipe que entrega um trabalho cada vez mais eficiente. Esse ano, apesar de o jogo ser jogado e o lambari pescado, da Red Bull, o título ninguém tira. Tira?

pit stop 3. Nem a saída de Kimi tira o bom humor da Lotus.

Lotus-lamenta-saida-de-kimi

"So #Kimi is off to #Ferrari for 2014; it hurts a little bit…", a Lotus lamentou em suas redes sociais.

Fernanda de Lima

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