Ayrton. O ídolo de um grande amigo… Por Fernanda de Lima

Senna por alguém que o idolatrava

Primeiro de maio de 2014, obviamente todos vocês devem saber, completa-se 20 anos da morte do maior ídolo brasileiro. E hoje falo isso sem medo algum: Ayrton Senna é o MAIOR ÍDOLO que o Brasil já teve, e dificilmente será superado. 20 anos depois e mais vivo do que nunca.

Sempre me senti um peixe fora d’água e, quando mais jovem, até culpada por não ser devota dele como a imensa maioria. O nome Ayrton Senna ganhou relevância para mim exatamente no dia de sua morte. Aos 7 anos de idade, vi familiares chocados em frente a tevê, gente realmente chorando e desesperada por alguém que sequer conheciam. Hoje entendo que não era preciso conhecê-lo.

Dali um pouco pra frente comecei minha jornada na F1, e mesmo sem estar, Senna esteve sempre presente. Nos comentários, nas lamúrias, nas quebras de recordes, nas comparações de gente que nunca foi capaz de esquecê-lo, de gente que o tinha como um membro da família, de gente que ajudou a transformá-lo numa das maiores personalidades que o esporte já viu.

Eu não poderia falar de Ayrton e transmitir a emoção e o sentimento que muitos de vocês sentem ao falar dele, e mais uma vez quase me sinto culpada. Numa manobra arriscada, trago até vocês o relato de um grande amigo, companheiro de anos, que talvez tenha idolatrado Senna tanto quanto vocês, e que sem dúvida alguma fez com que eu respeitasse e admirasse um Ayrton que eu nunca conheci pelo simples fato de ter sido o ídolo do meu ídolo:

“Ele foi meu ídolo. Eu tinha 10 anos de idade e o via competir no kart e pensava “Quem é esse cara?”, sendo tão rápido, guiando do jeito que ele guiava, ultrapassando do jeito que ele ultrapassava. Aos 10 anos, eu já sentia “Ele é especial”.

A primeira vez que vi Ayrton foi no início da década de 80, acho que foi em 1980, em Nürburgring, em uma corrida de kart. Ele brigava pela quinta posição, ou seja, nem estava na frente. Mas a forma como brigava pela sua posição era incrível. Era contra um piloto alemão, Bertzen, que eu conhecia muito bem. A forma como o Ayrton ultrapassava e manobrava era incrível e era muito bom vê-lo pilotar.

A forma como ele usava o acelerador era especial, se adaptava a qualquer circunstância, era mestre nisso. Eu aprendi muito sobre a maneira de se adaptar a qualquer circunstância, a qualquer momento. Sem dúvida alguma, observar isso me ajudou muito.

Vencer o GP de Monza de 2000 e quebrar o recordes de vitórias de Ayrton foi um momento muito importante. Igualar tempos, recordes, era muito importante para mim. E foi por isso que naquele dia eu não consegui controlar minhas emoções. Afinal de contas, ele era um ídolo para todos nós. Eu o conhecia desde a época das corridas de Kart, competi com ele e, finalmente, após a sua tragédia, igualar seus recordes, significou muito para mim. Há certos sonhos que você pode alcançar, e aqui o meu sonho se tornou realidade.

Só há provavelmente uma estatística que conta depois de números de campeonatos, e essa é a de número de vitórias. Estar no mesmo nível que uma pessoa como Senna, significa muito pra mim. Eu o superei no GP Brasil de 1994, ele rodou enquanto tentava me alcançar. O fato de ele ter rodado me deixou particularmente orgulhoso, porque a sua aura era de invencibilidade.

Nós tínhamos visto muitos acidentes como esse [o de Senna em Ímola] ou ainda pior. Pensei que Ayrton poderia ter quebrado uma perna ou um braço, mas que tudo continuaria igual. Foi depois do pódio, quando Pasquale Lattuneddu, braço direito de Bernie Ecclestone, veio e nos disse que ele estava em coma. Não sabia o que pensar. Eu não conseguia imaginar que ele poderia morrer. Na melhor das hipóteses, ele perderia uma ou duas corridas e só.

E você volta, colocam o grid em ordem, não sabe o que está acontecendo, ninguém vem até você e explica a situação. Você só pensa “sim, a corrida tem de continuar, todos vão correr, e você vai correr, você não vê razões para não correr. E mesmo após a corrida, quando nós paramos e fomos para o pódio, vieram nos dizer que ele estava em coma, mas nós…

Ouvimos falar sobre coma, sabemos que pode significar muitas coisas, pode ser algo que vai estar tudo bem no dia seguinte ou melhor depois, mas você ainda não acredita em algo particularmente perigoso ou muito pesado. Você ainda não acredita…

Eu acho que duas horas após a corrida que chegaram até a mim e disseram “ele está muito mal”, e eu dizia “Não, ele está em coma. E coma não significa nada ruim”. E alguém me disse mais tarde “ele está morto”, e um minuto depois outra pessoa chegou e disse “Não, ele está em coma”,

Haviam tantas informações desencontradas naquele momento, que você não sabia o que pensar disso. E eu ainda acreditava que ele não iria morrer. Eu simplesmente não poderia pensar naquilo. Eu pensava “Não, não. Ele vai ser o campeão. Ele talvez perca uma ou duas corridas, mas ele vai voltar.”

O pior veio duas semanas depois. Ter que aceitar que ele estava morto… era inconcebível.

Eu achei que talvez eu tivesse medo de correr quando voltei ao carro no GP seguinte. E se eu tivesse medo, eu decidiria que não iria mais correr. Mas não tive medo. Automobilismo era a vida do Ayrton, o seu esporte. Ele desejaria continuar no esporte se ele estivesse vivo. É por isso que estávamos em Mônaco naquele momento, para continuar o seu esporte…”

Suponho que a essa altura todos saibam quem é esse meu grande amigo…

Michael Schumacher e Ayrton Senna

Michael Schumacher e Ayrton Senna

Tenho certeza que hoje ele também estaria pelo mundo afora prestando homenagens a seu grande ídolo. Mas nas entrelinhas, entrevistas, gestos, ele sempre acabou prestando homenagens ao longo de toda a sua carreira. Sem tirar nem por. Trechos de entrevistas, declarações concedidas por Michael Schumacher sobre Ayrton Senna não do Brasil… de um mundo todo.

Fernanda de Lima

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