Alerta: isso não é um texto em defesa de Felipe Massa. Por Fernanda de Lima

Felipe Massa

Tem sido uma tortura para mim acompanhar os comentários simultâneos nas redes sociais durante as corridas de Fórmula 1. Mas, obviamente, trabalhando com redes sociais, internet, não há como fugir dessa realidade. E nesse meio encontramos de tudo, quem não goste de F1, quem seja apaixonado, os especialistas e os corneteiros de plantão da categoria mais famosa do automobilismo mundial.

Na prova de Spa-Francorchamps, realizada no último domingo, e vencida pelo mais líder do que nunca, Sebastian Vettel, seguindo uma linha rotineira ao longo dos últimos anos, o brasileiro Felipe Massa foi o principal alvo dos comentários. Volto a bater na tecla de que o torcedor brasileiro (NO GERAL) é passional, de que os maus desempenhos de brasileiros na F1 vão colaborando para a diminuição da exposição do esporte no Brasil. Essa paixão acaba cegando o torcedor, que passa a cornetar insistentemente o seu representante na categoria.

Felipe merece críticas? Sem dúvida. Tão duras? Passo a duvidar um pouco. Minha dúvida começa na confusão que se faz nesse esporte chamado Fórmula 1. Acredito que muita gente ainda não enxergue com clareza que a F1 é um esporte coletivo travestido de individual. O torcedor passa a avacalhar todo o trabalho de um piloto, única e exclusivamente por seus resultados, no entanto, esquece-se de que esse piloto faz parte de um time, uma equipe. Se há de se criticar com tanta veemência temos de ir um pouco mais em cima, onde está a raiz do problema e não tão somente na peça entre o assento e o volante.

Falo isso até por mim mesma. Essa F1 como esporte coletivo não vai exatamente de encontro ao que gosto, como bem defendi Sebastian Vettel quando desobedeceu as ordens da Red Bull. Mas acho que é como tem de ser encarada.

Felipe Massa, como todos os outros que vieram após a era Senna, convivem com as cobranças e expectativas deixadas pelo próprio Ayrton e seus antecessores. Dificilmente, num futuro próximo, teremos outro gênio brasileiro dentro das pistas.

Felipe está longe de ser gênio, mas está longe também de ser o “pior brasileiro da história da F1”. Mais do que nunca, acho que é a hora de Felipe largar o osso de Maranello. Não o isento dessa má fase pela qual tem passado, porém, como uma equipe, pensando na Fórmula 1 como um esporte coletivo, a Ferrari não serve mais a Felipe Massa.

A crise na Ferrari não está escancarada? E essa crise italiana não influencia diretamente no rendimento de seus pilotos? Felipe está abaixo de Fernando Alonso, isso não resta dúvida, porém, nem o espanhol está contente.

Há diferenças nos carros, sim. Pra mim é claro que a Ferrari não consegue trabalhar em dois bons carros e que vem fazendo lambança atrás de lambança. Não estou dizendo que com dois carros bons, Massa poderia se equiparar a Alonso. A Ferrari tem suas preferências, sempre teve. Ninguém chega lá bancando o inocente. Se Felipe foi, acredito que ele sabia que seria o segundo, a não ser que fatores circunstanciais o elevassem ao primeiro posto. A Ferrari, não obstante aos problemas enfrentados nos últimos anos, quer voltar a ser campeã. O quanto interessaria à equipe ter um segundo piloto ineficiente? Não interessaria, e é só por isso que ele ainda está lá. Ainda há, ou havia, uma fé no brasileiro. Onde o azar entra nessa história? Ao lado da incompetência, dos dois lados.

Felipe poderia render. Não seria campeão com um carro tão bom quanto o de Alonso. Alonso tira leite de pedra com a atual carroça vermelha, é, pra mim, um dos três melhores do grid. Sem o espanhol, a Ferrari seria 6ª, 7ª, 8ª colocada no Mundial. A cara feia de Alonso no pódio, ao lado de Vettel e Lewis Hamilton, após conquistar o segundo lugar no GP da Bélgica não foi só cara feia. É a insatisfação e a (quase) certeza de que do jeito que está a Ferrari não vai ser campeã.

Ferrari AND Felipe erraram na estratégia já pra classificação do GP desse domingo, Ferrari AND Felipe tiveram o desempenho prejudicado por causa dos problemas no carro durante a prova.

f1-massa-cingapura-2008

Em 2008, sucessivos erros da Ferrari na temporada tiraram as chances de título das mãos de Massa

A onipresente Ferrari vem sofrendo perdas irreparáveis nos últimos anos. A começar pela saída de Rory Byrne, que passou de projetista, após o ano de 2004, a consultor e colaborador de luxo nos dois anos seguintes. Byrne foi responsável por dois dos (talvez) melhores carros da era moderna da F1, o F2002 e o F2004. A máquina espetacular de 2002, pilotada por Michael Schumacher e Rubens Barrichello, venceu 15 das 19 provas que disputou entre as temporadas de 2002 e 2003, sendo quatro delas do brasileiro.

Schumacher a bordo da F2002:

Outra saída que pode ter culminado no declínio italiano foi a de Ross Brawn. Em 2006, após ter sido campeão com a escuderia por seis temporadas, Brawn passou o comando da equipe ao competente Jean Todt, que não muito tempo depois deu lugar a Stefano Domenicalli, antes diretor esportivo, no comando da equipe até hoje. O time vencedor da Ferrari composto por estrategistas por todos os lados foi aos poucos se desfazendo. A Ferrari tinha o time dos sonhos, apesar de sempre ter se inclinado a um único campeão, a equipe era um time. Com um competente diretor-técnico, um projetista espetacular e uma das duplas de pilotos mais vencedoras da história recente, com 24 dobradinhas, 5 mundiais pro alemão e dois vice-campeonatos pro brasileiro.

Massa e Alonso, apesar da diferença de pontuação e desempenho no campeonato, sofrem do mesmo mal: a incompetência ferrarista. A fragilidade e os equívocos dos comandantes da equipe não são novidades, mas só estão cada vez mais escancarados.

Levantamento feito pela Náyra Vieira, ferrarista fanática, mostra os seguintes números conquistados por alguns dos personagens centrais da Ferrari entre 1996 e 2013:

Ross Brawn: 6 vezes 1°; 3 vezes 2°; 1 vez 3°

Jean Todt: 7 vezes 1°; 4 vezes 2°; 1 vez 3°

Rory Byrne: 6* vezes 1°; 4 vezes 2°; 1** vez 3°

Aldo Costa: 2 vezes 1°; 1 vez 2°; 3* vezes 3°; 1 vez 4°

Nicholas Tombazis: 1 vez 2°; 2*** vezes 3°

Stefano Domenicali: 1 vez 1°; 1 vez 2°; 3*** vezes 3°; 1 vez 4°

Obs.*: Atuou como consultor em uma das temporadas.
Obs.**: Atuou como consultor na temporada.
Obs.***: Inclui colocação da temporada atual.

Aqui os números da equipe por temporada entre 1996 e 2013:

Temporada 1996: 2° lugar, 70 pontos (Michael Schumacher 59 + Eddie Irvine 11)

Temporada 1997: 2° lugar, 102 pontos (Michael Schumacher 78 + Eddie Irvine 24)

Temporada 1998: 2° lugar, 133 pontos (Michael Schumacher 86 + Eddie Irvine 47)

Temporada 1999: 1° lugar, 128 pontos (Michael Schumacher¹ 44 + Eddie Irvine 74)

Temporada 2000: 1° lugar, 170 pontos (Michael Schumacher 108 + Rubens Barrichello 62)

Temporada 2001: 1° lugar, 179 pontos (Michael Schumacher 123 + Rubens Barrichello 56)

Temporada 2002: 1° lugar, 221 pontos (Michael Schumacher 144 + Rubens Barrichello 77)

Temporada 2003: 1° lugar, 158 pontos (Michael Schumacher 93 + Rubens Barrichello 65)

Temporada 2004: 1° lugar, 262 pontos (Michael Schumacher 148 + Rubens Barrichello 114)

Temporada 2005: 3° lugar, 100 pontos (Michael Schumacher 62 + Rubens Barrichello 38)

Temporada 2006: 2° lugar, 201 pontos (Michael Schumacher 121 + Felipe Massa 80)

Temporada 2007: 1° lugar, 204 pontos (Kimi Raikkonen 110 + Felipe Massa 94)

Temporada 2008: 1° lugar, 172 pontos (Kimi Raikkonen 75 + Felipe Massa 97)

Temporada 2009: 4° lugar, 70 pontos (Kimi Raikkonen 48 + Felipe Massa² 22)

Temporada 2010: 3° lugar, 396 pontos (Fernando Alonso 252 + Felipe Massa 144)

Temporada 2011: 3° lugar, 375 pontos (Fernando Alonso 257 + Felipe Massa 118)

Temporada 2012: 2° lugar, 400 pontos (Fernando Alonso 278 + Felipe Massa 122)

Temporada 2013: 3° lugar, 194 pontos (Fernando Alonso 218 + Felipe Massa 67)

Observação¹: Ano em que Michael Schumacher sofreu acidente que o tirou de sete corridas. Essas corridas foram disputadas por Mika Salo que obteve 10 pontos.

Observação²: Ano em que Massa sofreu acidente, tendo feito nove corridas e ficando de fora em oito oportunidades. Essas corridas foram disputadas por Luca Badoer (0 pontos) e Giancarlo Fisichella (8 pontos).

Fernanda de Lima

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