Vitória para Kimi, glória para Vettel. Por Lito Cavalcanti

Alonso, Kimi e Vettel no pódio de Abu Dhabi

Alonso, Kimi e Vettel no pódio de Abu Dhabi

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Mas Alonso mostra que ainda vai lutar

No fim das contas, Sebastian Vettel foi ou não foi ajudado pela sorte no Grande Prêmio de Abu Dhabi? Que sua atuação foi digna, e sintomática, da eventual conquista de seu terceiro título mundial, isso não se discute. Mas pululam as controvérsias sobre o papel exercido pelas circunstâncias. Há duas correntes. A primeira diz, enfaticamente, que sim, claro, evidente. A segunda, ao contrário, diz que não, jura de pé juntos, nega peremptoriamente.

Na primeira destacam-se Lewis Hamilton e Fernando Alonso. O piloto da McLaren, mais uma vez traído pela sua McLaren, assistia à corrida nos boxes, depois da penosa caminhada de retorno ao mesmo ponto onde, pouco tempo antes, iniciara o que parecia se tornar, volta a volta, a sua despedida gloriosa da equipe que o revelou. Ao ver o choque assustador da Mercedes de Nico Rosberg na traseira do HRT de Narain Karthikeyan e a subsequente entrada do Safety Car, o piloto sacudiu suas pulseiras de rapper e mandou: “Sebastian é, certamente, o cara mais sortudo da Fórmula 1”.

Alonso, que hoje recorre até aos despenteados cabelos do alemãozinho para apontar sintomas de desespero na equipe concorrente, não fez por menos. Aliás, mais uma vez. Já havia dito naquele mesmo fim de semana que Vettel só ganhar porque larga lá na frente, e largar na frente com um carro da Red Bull é tão fácil que até Mark Webber consegue. E que os carros de Adrian Newey geram tanta pressão aerodinâmica que precisam de marchas curtíssimas para vencer a resistência do ar.

Discordo um pouquinho, se for isso permitido à minha humilde pessoa. Matutando sobre a declaração de Hamilton, não tive resposta quando me perguntei se, ao contrário, aquela parada para trocar a asa dianteira direita (e, em passant, os pouco aproveitados pneus médios pelos menos duráveis macios) não teria sido a razão e o motivo dele ter chegado apenas em terceiro. Eles o obrigaram a uma segunda troca, se fizesse uma só, quem sabe, talvez tivesse sido ele a ocupar o segundo degrau do pódio, e não Alonso.

Outros dois pilotos largaram com pneus médios: Michael Schumacher e Bruno Senna. Schummy trocou na 27ª volta, uma antes de Alonso – mas é sabido que a Mercedes é uma voracíssima devoradora de pneus. Bruno, cuja Williams tem apetite mais próximo da normalidade vigente, só o fez na 32ª volta. Na 13ª, quando parou, Vettel era o 11º colocado e Alonso era o quarto. Quando retornou, o alemãozinho havia caído para 21º. Foram necessárias mais 15 voltas para ele retornar ao 11º lugar, posição que estava quando iniciamos este nosso raciocínio, e Alonso já era o segundo.

Em contrapartida, na volta 37, o mexicano Sérgio Perez, imbuído da certeza de ser o enviado de Deus para mostrar ao mundo que ninguém pode nem merece andar na frente dele, provocou uma das mais espalhafatosas batidas do ano, tomando das mãos de Romain Grosjean o cetro de Rei das Lambanças. De uma só vez, eliminou o temível Grosjean e o ameaçador Mark Webber, o que nos fez acreditarmos na justiça divina. Webber, até aquele momento, distribuíra fartamente porradas disfarçadas de tentativas de ultrapassagem. Nada mais junto do que sair de cena.

A Perez, a presepada valeu um justíssimo stop and go, punição que o relegou ao 15º lugar em uma corrida que teve seu companheiro na Sauber, o japonês Kamui Kobayashi, em um honroso sexto lugar. E até aquele momento tresloucado, em que saiu da pista e a ela retornou como se andasse na sala de sua casa, Perez estava à frente de Kobayashi.
Não se deve omitir que Vettel, por ocasião da refrega tríplice, já estava em segundo – mas ainda voltaria aos boxes para a segunda troca de pneus. Não esqueçamos que ele optara pelos macios lá atrás, na 13ª volta. Quando chegou à 38ª, não tinha mais aderência para se manter à frente do terceiro colocado. Que era, adivinhem quem, ele mesmo, Fernando Alonso. Sim, retornando em quarto, Vettel provavelmente estaria à frente de Webber e Grosjean caso eles estivessem na pista. Talvez sim, talvez não. O quinto era Paul di Resta, que estava junto com Grosjean, Webber e o desastrado Perez antes da batida.

Caso tivesse o mexicano à frente, Vettel dificilmente teria tempo para tomar o terceiro lugar de Jenson Button. Aliás, o fez com uma ultrapassagem que merece aplausos de pé, gritos de bravo e bis. Talvez até ser exposta no Museu do Louvre, como obra de arte que foi. Por fora, longa e corajosa, a manobra de Vettel me leva a encerrar a discussão com uma conclusão: sorte não tem nada a ver com isso. É talento puro, in natura, valioso como ouro.

Como também nada tem a ver, a supracitada sorte, com a magnífica atuação de Alonso, o maledicente espanhol que luta com todos os recursos para chegar aonde seu carro não o leva. Não se negue o esforço da Ferrari em lhe proporcionar armas adequadas às batalhas que trava com garbo e dignidade, mas igualmente não se pode negar a pouca ajuda que as últimas inovações trouxeram. Elas se traduzem em centésimos de segundo, mas as diferenças são de décimos. Alonso, ainda assim, mantém Vettel a seu alcance; a diferença caiu para 10 pontos. Há 50 em jogo.

O espanhol recorre à arte da guerra dos samurais. Cita e põe em prática seus ensinamentos a toda hora. Mas no domingo seus argumentos caíram por terra, e está difícil arrumar novos. Sua expressão sisuda no pódio mostrava o gosto amargo de ver ali um adversário que largara dos boxes. O terceiro lugar do alemãozinho lhe negara proveito maior que três míseros pontos na melhor chance que já teve neste ano e invalidou a provocação de que Vettel só ganha quando larga na frente. Pior, mostrou que os carros de Adrian Newey, ao contrário do que ele alardeara, também podem voar nas retas e ultrapassar qualquer um.

Talvez a punição que relegou Vettel do grid para os boxes tenha também abalado a confiança com que Alonso propaga que será ele o campeão. Ao optar por largar dos boxes, a Red Bull se viu livre da obrigação de manter o carro nas condições em que havia terminado a classificação. Foi como a F1 fazia em tempos de maior liberdade. Novas relações de marcha e menos inclinação do aerofólio traseiro elevaram a velocidade final de 311,4 km/hora no qualify para 321 na corrida. A de Alonso? Ora, 319,6.

A isso se somaram um acerto de suspensão mais agressivo e, principalmente, um Vettel inabalável. Cerca de uma hora antes da corrida, o chefe da Red Bull, Christian Horner, procurou seu principal piloto para lhe dar apoio. Encontrou-o no motor home, cantarolando e batucando ao lado de seu preparador físico. Depois de uma troca breve de palavras, Horner ouviu de Vettel um relaxado “nos vemos no pódio”.

O espanhol fez o que pôde, e fez muito. Passou Button já na largada, aproveitou a quebra do KERS do venezuelano Pastor Maldonado para subir para terceiro e quando Lewis Hamilton foi forçado a abandonar, voilà, era ele o segundo colocado. E lá ficou até a bandeirada, deixando claro que é bom a Red Bull manter os olhos bem abertos, os pés no chão. O menor vacilo pode significar Alonso à frente. E a próxima vez pode ser definitiva.

Foram duas atuações brilhantes, a do alemão e a do espanhol, mas a de Vettel se sobressai porque o mundo adora a reação. A verdade é que já não torço por A ou por B. Ou melhor, por A ou por V. Seja quem for o título estará em justíssimas, mais do que meritórias mãos. E pensar que há dois anos apenas a F1 era uma insuportável procissão, de monotonia infindável. Era isso que se esperava do GP da Abu Dhabi. Só que a F1 de hoje sabe se reinventar, se adaptar e evoluir. Que venham mais GPs de Abu Dhabi, se for este seu novo padrão.

E que venham junto mais performances como as de Hamilton, e de Kimi Raikkonen. Sim, enfim, o finlandês venceu; sim, enfim, a Lotus venceu. Quanta justiça neste primeiro primeiro lugar. Não, não é erro de digitação, repito o primeiro para enfatizar o que espero que seja o início de uma fase mais venturosa para esse grupo que ousa, saídos do quase nada que restou da tristemente famosa Renault de Flavio Briatore (com o perdão da má palavra), adotar um nome de tantas glórias e alegrias e nos trazer à memória e às retinas o preto-e-dourado que tanto significa para os corações verde-amarelos.

Gostei pelo Eric Bouiller, gostei pelo Kimi, gostei pelo diretor técnico James Allen, gostei por tudo, enfim. Nasceu no domingo uma nova Lotus, um time respeitável, temível, superior até à poderosa Mercedes. Está agora a apenas 30 pontos do terceiro lugar da McLaren no Mundial de Construtores; se passar, garante mais 20 milhões de dólares em seus cofres para 2013. Merece. Principalmente por reconduzir Raikkonen ao local de onde nunca devia ter saído e por apostar no talento ainda selvagem, mas amplamente promissor, de Grosjean. Mesmo que para isso tenha ido ela mesma, a equipe, em busca da verba que outros pilotos lhe ofereciam.

Mas não gostei de tudo. Não gostei, por exemplo, da atuação do Webber. Atabalhoado, precipitado, largou mal e daí para a frente transformou cada tentativa de ultrapassagem em um festival de erros e agressões. Nunca vi nele um campeão em potencial, mas também nunca vi tamanho trapalhão. Também não gostei da Ferrari do Felipe Massa. Como os pneus macios, que na sexta-feira lhe permitiram tempos e duração tão bons quanto os de Button, duraram tão pouco na corrida? Por que a equipe adiou tanto a troca? O atraso, ininteligível mas intencional (na 20ª volta lhe foi dito que era necessário ficar na pista por mais algumas voltas), lhe custou perder a quinta posição para Perez e rodar ao reagir ao ataque de Webber. Perguntas que ficarão sem resposta, devido à filosofia de manipulação da verdade que a Ferrari adota.

Elogiável também a corrida de Bruno Senna – mas não o qualify, como de hábito. Os carros da Williams vêm evoluindo e seu oitavo lugar o fortalece em um momento tão importante. Parece ter chegado ao fim sua passagem pela equipe inglesa, que parece preferir Bottas ao lado de Maldonado. Mas dinheiro sempre foi o argumento preferido de Frank Williams, Nico Hulkenberg que o diga. Depois de uma inesperada e consagradora pole position no GP do Brasil de 2010, o alemão foi defenestrado para abrir espaço para a torrente de dólares que chegava da Venezuela. Bottas que se cuide, mas tudo indica que o futuro de Bruno seja a Force India. Seja qual for, qualquer uma das duas parece uma boa alternativa para o brasileiro. Desde que o contrato não o obrigue a ceder as manhãs de sexta-feira para um estagiário qualquer…

Lito Cavalcanti

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