Rápidas do paddock da F1

Hospitality McLaren – GP do Brasil 2017

Por: Adauto Silva

A semana que antecede o GP do Brasil é a mais cheia do meu ano, talvez só comparada ao nosso “ao vivo” dos testes de pré-temporada que fazemos todos os anos desde 2010, se não me engano.

Ela é cheia porque existem inúmeros eventos das equipes, dos patrocinadores e de outras empresas envolvidas com a F1, além dos treinos de sexta e sábado e a corrida, é lógico.

Graças aos 17 anos que estamos no ar, fizemos muitas amizades – a maioria profissionais, mas algumas pessoais também – com muita gente envolvida na principal categoria do automobilismo mundial.

Então eu acabo indo em eventos todos os dias, às vezes até dois eventos numa mesma noite, como aconteceu na sexta-feira passada.

Os eventos são legais, as pessoas sempre estão mais descontraídas, mas bater papo com quem tem histórias e informações é realmente o que mais me interessa.

Esse ano tive sorte, consegui falar com algumas pessoas que queria há muito tempo e quando não conseguia, eu ajudei a sorte de alguma maneira…

É lógico que a maioria das conversas mais picantes são sempre em off. No caldeirão sempre fervendo da F1 ninguém quer se comprometer, ninguém quer criticar ninguém e ninguém quer prever o futuro de nada.

Mas acabam falando. Se você tiver paciência e souber levar a conversa em tom de bate papo informal, você acaba descobrindo um monte de coisas. Algumas você imaginava, outras não tinha nem ideia…

Bottas – GP do Brasil de 2017, sábado

Vamos à algumas delas!

Romain Grosjean
Grosjean é o piloto mais chato da F1, reclama de tudo o tempo todo e nem a equipe o aguenta mais. Eu não o conheço, nunca falei com ele, mas todo mundo com quem conversei levanta as sobrancelhas quando fala dele. Seu chefe de equipe está que nem quer mais escutar o rádio do francês (ou seria suíço, talvez franco-suíço?) durante os treinos e corridas. O caso é que fiquei com dúvida se ele emplaca na Haas o ano inteiro de 2018.

Kevin Magnussen
Apelidado de “Viking” por um monte de gente da F1, o companheiro de equipe de Grosjean é o oposto dele. Não reclama de nada, mas é esquentado e tem sua própria lógica de como se comportar na pista em disputas e às vezes em treinos mesmo sem disputa. Alguns pilotos não gostam dele, nem todos, mas ele não está nem aí. Diz que não está na F1 para fazer amigos – sequer colegas – e que “o meu espaço é meu espaço”. Se ele achar que alguém o fechou num treino ou numa corrida ele não diz nada, mas é certeza que dará o “troco” na primeira oportunidade. O acerto de carro é a equipe quem faz, ele não reclama. Só diz alguma coisa se achar que o carro está traseiro ou dianteiro. “Precisa dar um jeito nisso”, diz ele.

Hospitality da Williams

Williams
Ridículo. Usam todo e qualquer tipo de desculpa para justificar os mais de USD 40 milhões/ano que Papa Stroll coloca nos cofres da equipe. Ele é tratado a “pão de ló”, mas pelo menos não é arrogante, ainda. A equipe parece sem comando. Largaram tudo nas mãos do Paddy Lowe sem dar-lhe a palavra final sobre qualquer assunto. O negócio ali atualmente é ganhar dinheiro primeiro e depois ver a parte esportiva. Ninguém sabe exatamente o que a Claire está fazendo e ninguém entende a insistência de colocar um prejudicado Robert Kubica de novo no carro nos testes de final de ano. 2018 deve ser um ano muito ruim para a equipe na pista. É esperar pra ver.

E, ao contrário do que parte da imprensa brasileira está afirmando, eu não tenho a informação que Kubica já está contratado para 2018. O que deve acontecer mesmo é a Williams dar-lhe o carro deste ano para testar o polonês de novo em Abu Dhabi, logo após o último GP desta temporada.

Daniil Kvyat por enquanto está sumido. Ninguém sabe dele. Meu palpite é que o ex-piloto da Toro Rosso está atrás do governo russo para mantê-lo na F1, talvez não diretamente, mas através de “amigos” que devem muito a Vladimir Putin.

Motor de 2021
Tive um bate papo com uma pessoa influente na categoria que conheci ano passado. Ele acha que deviam fazer o “mais lógico” nas palavras dele:
“Mas o que seria o mais lógico?”
“Não mudar nada. Esse motor em 2021 vai custar menos da metade do que custa agora e já vai estar com cerca 1.200 hp.”
“Tudo isso?”
“Só não vai ser mais por causa do limite de unidades por temporada. O investimento já foi feito e continua sendo feito. Começar outro motor do zero para quê? Vão gastar mais do que agora e vai perder relevância para os carros de série das montadoras.”
“Mas e o barulho?”
“Você não achou que o barulho melhorou muito este ano?”
“Melhorou mesmo, mas os fãs vão querer mais…”
“A audiência não caiu nesta temporada, pelo contrário, aumentou”.
“As equipes independentes não vão aceitar isso muito bem, a menos que o preço caia mesmo como você está dizendo”.
“Mas vai cair. Eu iria mais longe ainda e congelaria o motor a combustão no final de 2020 e liberaria totalmente o desenvolvimento dos motores elétricos”.
“É o futuro…”
“Lógico, a F1 não pode retroceder”.
“E essa ideia do Ross?”
“É só para começar a negociar. Ele é mestre nisso”.
“Ele é mestre em Formula 1”
“Isso é um fato”.

Faz sentido o que ele disse. Realmente o barulho melhorou este ano e pode melhorar mais até 2021. 1.200 hp é sensacional e tem lógica pensar que os custos vão diminuir, afinal o investimento inicial já foi feito e não me parece haver muito para avançar no motor a combustão 1.6 turbo. Pode ter uma coisa aqui e outra ali para melhorar, inclusive no turbo, mas o que importa mesmo para o futuro é a outra parte do motor, que ainda está na infância do desenvolvimento.

Interlagos
Ao contrário do que grande parte da imprensa publica, o pessoal gosta muito da pista, principalmente os pilotos. Gostam muito da atmosfera, da torcida, das churrascarias de São Paulo, da caipirinha e das brasileiras… Respeitam muito a tradição do GP do Brasil e dos pilotos brasileiros na F1.

O que eles não gostam é o trânsito pra chegar na pista, a infraestrutura ainda inacabada e o problema de segurança. O trânsito não tem jeito, mas a infra e a segurança precisam melhorar de fato, ou corremos risco de perder a corrida.

Uma outra coisa que ouvi bastante e vem me preocupando faz tempo é o fato da pista estar muito curta para os atuais carros da F1. Ouvi isso bastante, inclusive de gente graúda. Completar voltas em menos de 1min10seg tornou Interlagos a pista mais curta em tempo da F1. Até Monaco ficou mais longa com a pole deste ano feita em 1’12.178 contra 1’08.322 de Interlagos.

Mas eu tenho uma ideia de como alongar a pista de Interlagos sem mexer nas arquibancadas atuais, mantendo o ponto de ultrapassagem da curva do Lago, espaço para áreas de escape e ainda aproveitando partes da pista antiga. O que você vai ver abaixo é uma antiga ideia minha postada no Forum do Autoracing em novembro de 2016 e que foi aprimorada pelo forista MaNoMaNiA a meu pedido esses dias.

Essa modificação bastante fácil de ser feita aumentaria a pista em cerca de 850 metros, quase sem mexer na estrutura existente e portanto gastando pouco dinheiro. Veja o que você acha:

Ideia para Interlagos – Adauto Silva (clique para ampliar)

Mercedes
A pergunta que não quer calar é: Como será o carro de 2018? Infelizmente não tenho certeza. Meu amigo que trabalha lá disse que esse é o segredo mais bem guardado da equipe. Ele disse que só o pessoal da fábrica sabe, mas não podem falar. O pessoal de pista só fica especulando. Ele mesmo tem suas ideias, que são diferentes da ideia do amigo dele que estava conosco numa churrascaria sábado a noite. Ele acha que o carro vai mudar, vai incorporar partes do carro da Ferrari e do da Red Bull. Para ele esse carro “já deu o que tinha que dar” e precisa ser mais curto e ter rake mais acentuado, o que muda completamente tudo em termos de chassi, aero, suspensão, bargeboards, sidepods e difusor. O amigo dele acha que se encontrarem o “X” da questão da suspensão, o problema está resolvido.

Suspensão Mercedes – Foto: Albert Fabrega

Esse papo foi mais ou menos assim:

Eu: “Mas não fizeram progressos desde o início do ano?”
“Não significativos”
“A dianteira melhorou bastante, Dude.”
“Mas a traseira nada, você sabe disso.”
Eu: “É difícil achar o acerto, né?”
“O carro passou a escapar de frente, ficou difícil demais guiar no limite.”
Eu: “Por que precisa pregar a traseira?”
“Isso, então a frente tende a ficar mais solta.”
“O Finn (Bottas) está na esperança…”
“Mudar tudo?”
“Não, só a suspensão.”
“Eu acho que estão fazendo outro carro.”
“Não tenho tanta certeza. E tem aquela questão do dinheiroooooo.” (risos)
Eu: “Muito mais barato mudar só a suspensão, lógico.”
“Não conseguimos até agora, ninguém garante que vamos conseguir.”
“Você não sabe se já conseguiram!”
“Se tivessem conseguido estaria no carro!”
“Agora não mais, você sabe.”
“E lá no deserto (Abu Dhabi), podiam testar!”
“Não vão fazer isso. Tudo que eles tiverem certeza que fará diferença só vão testar em Barcelona ano que vem.”
“Eu testaria agora.”
“Você e o Finn.” (risadas)
Eu: “O que o Hamilton fala sobre isso?”
“Nada. Ele senta lá, guia o carro e muda a tocada, se precisar.”
Eu: “Mas ele não tem uma opinião sobre isso?”
“Tem, mas não fala pra nós, não deve poder falar nada sobre isso. O que ele quer é confiabilidade.”
Eu: “Depois das quebras do ano passado…”
“É, nós todos sabemos que ele perdeu por isso.”
Eu: “O Nico sabe também?”
“Deve saber, até se aposentou!”
Eu: “Ninguém sabia que ela ia se aposentar mesmo?”
“Eu não sabia, você sabia?”
“Ninguém sabia, Dude, nem o Lobo.”
Eu: “Mas o Nico é muito bom!”
“Bommmm…” (risadas)
Eu: “Por que vocês estão rindo?”
“Nada não”
Eu: “Fala aí, pow!”
“Adauto, não tem piloto ruim na F1, mas tem os fora de série!”
Eu: “Não estou falando que ele seja um fora de série, mas não era bom o bastante?”
“Sério agora? Muito bom, não deu chances ao Michael (Schumacher) e depois que o Lewis chegou ele foi melhorando mais a cada ano.”
Eu: “Então…”
“Ganhar do Lewis sem quebras?”
“Difícil…”
Eu: Alguém ganharia do Lewis hoje sentado no carro do Valtteri?”
“Ele (apontando para o amigo) acha que não.”
Eu: “E você, o que acha?”
“Não falo da concorrência, mas tem um que daria uma boa briga.”
Eu: “Quem?”
“Quem você acha?”
Eu: “Alonso?”
“Você quem está dizendo, não eu!” (risos gerais)
Eu: “E o Massa, o que vocês acham dele?”
“Nunca trabalhei com ele, mas todo mundo fala muito bem.”
“Concordo.”
Eu: “2008 foi uma judiação.”
“Bem, não pra mim, eu estava na McLaren, você sabe.”
“Concordo com o ‘Adauwtow’. Felipe merecia aquela.”
“Merece quem ganha.”
“Foi azar, assim como Lewis ano passado.”
“Mais uma (caipirinha)?”
“Esse troço é bom demais, mas não vou ficar muuuuito bêbado!” (muitas risadas)
Eu: “Bom, aquele lugar que vocês querem ir depois…”
“Ele não vai, olha o estado deplorável do pobre bastardo!”
“Você que é fraco, Dude, estou inteiro num pedaço só.” (mais risadas)

E assim acabou a noite. Não quiseram carona. Pediram um Uber e me perguntaram se eu achava que o motorista ia entendê-los.

Respondi: “Perfeitamente. Igual ao outro que trouxe vocês aqui”.

Gargalhadas múltiplas.

Adauto Silva
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