Por que as grid girls ofendem e o GP do Bahrain não?

Grid girls no GP do Bahrain em 2017

Adeus para as grid girls, que foram banidas da mesma maneira que o reabastecimento, o efeito-solo e as corridas com pontuação dupla, consignadas na lata de lixo das ideias da F1, que às vezes vem disfarçadas de progresso.

Um centavo para os pensamentos de Lewis Hamilton, que no ano passado deu uma olhada na massa de jornalistas masculinos em Melbourne para declarar que a F1 precisava ter “mais senhoras” no paddock. “Tem muitos caras”, ele lamentou.

A decisão dos proprietários da F1, a Liberty Media, de dispensar as modelos, com base em que o costume “não ressoa com os valores da nossa marca”, privará a todos da beleza num mundo tão feio como o de hoje. Pilotos, espectadores e as próprias modelos, que sempre fizeram um trabalho honesto, bem remunerado e que servia inclusive de trampolim para a carreira de muitas delas nas passarelas, revistas femininas, TV, cinema e etc.

Em um nível – aquele da histeria coletiva, o movimento de Liberty é salutar, significando não apenas o pensamento (?) do século XXI, mas um repúdio aos elementos do circo da era Bernie Ecclestone. Nomeado ainda “presidente emérito” do esporte que ele transformou em um gigante global, Ecclestone, que criticou a banimento das meninas, foi devidamente encaminhado para escanteio. Mas, em outro nível, o aerógrafo das grid girls é mero vestíbulo, ameaçando expor uma hipocrisia mais profunda.

Como, por exemplo, a F1 pode orgulhosamente dizer que está abandonando uma prática “em desacordo com as normas sociais modernas”, enquanto ainda está feliz em defender as normas terríveis de um governo ditatorial e sanguinário como o do Bahrain?

O GP do Bahrain, presente no calendário da F1 desde 2004, é um testemunho da infame pergunta feita por Ecclestone: “Que direitos humanos? Não sei o que são”. Foi cancelado em 2011, depois que o governo declarou lei marcial para esmagar protestos pró-democracia. Em 2012, de alguma forma avançou, apesar de mais derramamentos de sangue a poucos quilômetros da pista, com o pai de cinco filhos, Salah Abbas, supostamente espancado até a morte pela polícia na véspera da corrida. Desde então, graças a uma operação de Relações Públicas cara por parte do governo Al-Khalifas, tais ultrajes foram habilmente varridos para a areia do deserto.

Não tenha dúvida, porém, de que o punho de ferro permanece. Só nesta semana, dois cidadãos foram condenados à morte e outros 47 destituídos de cidadania por suspeita de militância apoiada pelo Irã, apesar da insistência de ativistas de que os condenados estavam envolvidos em oposição pacífica. Sayed Ahmed Alwadaei, diretor do Instituto Bahrain dos Direitos e Democracia, com sede em Londres, descreveu a decisão como o “último episódio da maldade da justiça do Bahrain – e provavelmente uma das mais cruéis”.

Isso dá uma ideia de um regime com o qual a F1 fica confortável embolsando 30 milhões de dólares por ano para realizar o GP do Bahrain. O problema, infelizmente, é uma incerteza resoluta sobre a política fétida em que essa corrida está mergulhada. Além disso, há sinais de que a presença da F1 coincide com mais medidas de repressão: Nabeel Rajab, que negociou com o esporte em 2015, foi detido por seu trabalho sobre direitos humanos e condenado a 15 anos de prisão.

Naturalmente, no que as fontes diplomáticas britânicas chamam ambiciosamente de “democracia de transição”, essa barriga repressiva está ferozmente escondida. Qualquer jornalista credenciado para o GP é obrigado a assinar documentos prometendo não cobrir nada além da F1 sob pena de perder seus vistos. É um estado de coisas miseráveis e, no entanto, ano após ano, a F1 se encabeça lá em uma bolha hermeticamente fechada. Jenson Button, em seus dias de McLaren, dificilmente poderia ter sido menos incomodado, alegando que sua rotina na capital Manama consistia apenas em “hotel, piscina, pista”.

Sob o jugo da Liberty, alguém se atreve a esperar que o futuro possa ser diferente? Até agora, há apenas garantias vagas dentro do Bahrain que a F1 permanecerá no reino “por um longo prazo”, mas a Liberty tem poder para retirar o GP de lá. Tal passo seria um compromisso com uma verdadeira reforma. O banimento das grid girls parece um mero oportunismo barato de marketing quando comparado a não correr mais no Bahrain. Isso sim seria de longe uma defesa mais que necessária dos “valores sociais”, para usar a própria língua da Liberty. Confirmaria que a F1 realmente está preocupada com coisas sérias, recusando-se a permitir que o esporte sirva de procuração à ditaduras.

Adauto Silva, com informações do The Telegraph
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