Para Vettel, as vaias do sucesso. Por Lito Cavalcanti

Sebastian Vettel no pódio de Cingapura 2013

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De tanto vencer, o alemão vira inimigo público 

As reclamações se sucedem – e não vou negar que têm lá suas razões. A sucessão de vitórias de Sebastian Vettel já não permite dúvidas quanto ao campeão de 2013 – ou tetracampeão, melhor dizendo.

Mas daí às vaias que o têm acompanhado no pódio já é um pouco demais. É, principalmente, ignorar a suprema qualidade do trabalho que ele e o projetista Adrian Newey vêm fazendo desde que, em 2009, se uniram sob a égide da Red Bull.

O sucesso da dupla, prova a prova, atinge seu ponto máximo – e seu fim ainda não se distingue. E pelo tempo que já dura, ainda deve ir longe. Uma consulta aos alfarrábios lembra que, já naquele primeiro ano, a competitividade da dupla só foi superada pelos artifícios do difusor duplo da Brawn – cuja legalização se deveu mais ao lado político do que ao técnico.

Mesmo assim, a dupla conquistou o vice-campeonato de pilotos e de construtores. E foi seu pior resultado: desde então, Vettel se tornou tricampeão de pilotos e a Red Bull de construtores. Juntos, amealharam 32 vitórias, 40 pole positions e 20 voltas mais rápidas em um total de 88 corridas.

Estes números, por um lado, merecem aplausos – mas também explicam as vaias que os têm perseguido. É um fato incontestável: o domínio exercido pela dupla Vettel/Newey tem caído muito mal no gosto popular. Cansado de vê-lo se repetindo a cada duas semanas, o público começa a protestar.

Uma pena, porque sob a ótica esportiva o que se tem visto nas pistas da Europa e agora também nas da Ásia é a história sendo escrita. É um capítulo que vai consagrar uma das maiores duplas que o automobilismo de elite já conheceu – se não a maior.

E o monótono, tedioso Grande Prêmio de Cingapura se tornou o apogeu desta história. Foi bem mais Vettel do que Newey, pode-se concluir da comparação entre o desempenho do alemãozinho e o de seu companheiro Mark Webber.

Carros desenhados por Adrian Newey exigem a liderança e o ar livre que ela proporciona a quem a exerce. Sem isso, um Red Bull se torna quebradiço, expõe as fraquezas de um projeto sem concessões nem margens de segurança. Com isso, ele se revela imbatível, inigualável.

Andando atrás de outros carros, depois de largar na quarta posição, Webber viu a temperatura do motor se elevar ao ponto de explodir em chamas. O de Vettel se comportou à perfeição todo o tempo necessário.

Sim, os radiadores têm a menor área imaginável. Claro, suas superfícies causam arrasto, resistem ao ar durante o deslocamento e desperdiçam velocidade. O mesmo se diz dos freios, cujos dutos de ar funcionam cada vez mais como acessórios aerodinâmicos e menos como resfriadores de discos e pinças incandescentes. As baterias do KERS acumulam menos energia e desenvolvem menos potência que as dos rivais, por serem são menores e mais leves.

Assim são os carros imaginados por Adrian Newey – não só no limite, muitas vezes além dele. E por isso exigem pilotagem específica e eficiente. Por isso, para eles é importante liderar a primeira volta, de preferência largando na primeira fila.

Vettel fez tudo isso no circuito Marina Bay. A pista, chata, não oferece chances de ultrapassagem; são 23 curvas em 5.098 metros, uma média de uma curva a cada 220,21 metros. São 80 mudanças de marchas por volta, 30 a mais do que a média de todos os circuitos da F1.

Por isso, as vaias se sucedem. Desta vez com mais força. Vettel já havia feito a pole position usando apenas um jogo de pneus supermacios. Enquanto todos usavam dois jogos, ele tinha um zero quilômetro para a corrida.

Na primeira volta, apenas na primeira volta, o alemãozinho abriu 1s9 sobre o segundo colocado, Nico Rosberg. Isso depois de mostrar total controle dos nervos e avaliação perfeita dos limites de cada curva já na primeira delas.
Rosberg havia lhe tomado a ponta nos primeiros metros, mas freou tarde demais e, como estava por dentro, não dispunha de espaço suficiente para fazer uma boa tomada de curva. Por isso, o Mercedes escapou de frente e deu a Vettel a oportunidade que ele antevia. Frio como sempre, o alemãozinho mudou de lado como em um drible de futebol e retomou a liderança.

Daí para frente foi um show como raramente se vê. Foi o antepenúltimo a fazer a troca de pneus, na 17ª volta, e voltou ainda em primeiro. Quando o Safety Car saiu da frente do pelotão, na 30ª passagem, voltou a abrir dois segundos de Rosberg em uma só volta.

Parece incompreensível que uma performance deste nível seja recebida com vaias – mas foi. E não pela primeira vez. Não é a atuação perfeita que desagrada a torcida, é o domínio sem chances para os demais concorrentes, alguns também dignos de aplausos consagradores.

Foi o caso de Fernando Alonso – no domingo, deixemos bem claro. Superado no qualify por Vettel, Rosberg, Grosjean, Webber, Hamilton e Massa, o espanhol se redimiu com uma aula de aproveitamento da primeira curva que o reafirma como o mais eficiente de todos quando as luzes se apagam.

Mas isso parece que serviu mais para atiçar ainda mais o coro anti-Vettel do que para consagrar Alonso. Igualmente, nada ou muito pouco se falou da intensa batalha inicial entre Hamilton e Massa, definida a favor do inglês. Na disputa roda a roda, ele tinha passado por fora da pista e por isso teve de devolver o sexto lugar ao brasileiro.

Foram vários bons momentos, mas o que fica na memória das arquibancadas são as sete vitórias deste ano, as três últimas consecutivas. É o risco que Vettel e Newey correm ao exercer um domínio tão poderoso, ao mostrar uma superioridade tão gritante.

Ela é tão grande que ninguém sabe dizer com certeza em que posição Vettel se encontra quando se discute quem é o melhor piloto da atualidade. A única certeza que se tem é que ele supera com extrema facilidade seu companheiro de equipe – o que também ocorreria se Webber corresse ao lado de Alonso, Hamilton ou Raikkonen.

Como ele se situaria caso tivesse a seu lado um destes três? Se corresse com o mesmo equipamento deles? Provavelmente esta resposta nunca será obtida. Mimado pelo austríaco Helmut Marko, o braço direito do dono da Red Bull, Vettel nunca teve nem terá, pelo menos enquanto Dietrich Mateschitz continuar a dar ouvidos a Marko.

Uma pena. Todos três, em uma hora ou outra, já bateram às portas da Red Bull. Sempre as encontraram fechadas. Seria muito mais interessante ver Raikkonen ao lado de Vettel do que de Alonso; Hamilton duelando com as mesmas armas com Vettel do que com Rosberg. Helmut Marko não quer.

Por isso, as vaias se sucedem. Na verdade, elas deveriam ser dirigidas ao ex-piloto austríaco, que protege seu piloto com unhas e dentes. Foi ele quem descobriu e deu a Vettel as primeiras oportunidades, ainda na F-BMW. E o trata como pedra preciosa, que não pode ser exposta a riscos desnecessários.

É uma visão míope. Desafiado por adversários em condições de igualdade, Vettel receberia enfim os elogios e aplausos que hoje são substituídos por apupos e vaias.

Vettel recebeu a bandeirada de Cingapura quase 33 segundos à frente de Alonso. Sua melhor volta, que foi a mais rápida da corrida, foi 1s082 melhor que a do mais próximo concorrente. E faltando seis provas para acabar o campeonato, ele tem 60 pontos de vantagem sobre o vice-líder Alonso.

É o fim de uma temporada que ainda pode nos oferecer ótimas disputas – do segundo para trás. Alonso não desiste da perseguição; Raikkonen implacável em sua tenacidade; Hamilton desenfreado e Massa em sua necessidade de mostrar ao mundo que sua saída da Ferrari foi um erro.

Sim, Vettel deve continuar a ganhar e a ser vaiado no pódio. Uma pena, o talento de Vettel somado ao de Newey deveria provocar apenas elogios. Mas a F1 se tornou quase tão popular quando o futebol, onde estas reações são frequentes e inevitáveis.

Mesmo assim, as seis corridas que restam ainda deverão ser bem atraentes, recheadas de disputas – mesmo que apenas pelo segundo lugar. Ou pelo menos pelos boatos de quem vai para onde.

Em tempo: não, não sei para onde vai Felipe Massa. Antes, ele só aceitava a hipótese de correr pela Lotus e descartava a Sauber. Agora já cita McLaren, Force India e Williams.

Assim, não dá para saber, mas seu bom humor nos boxes de Cingapura sugere que ele tem um ás na manga. Qual? Não sei. Alguém aí sabe? Mas sabe mesmo. Chute por chute, deixa que eu chuto…

Lito Cavalcanti

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