Na pista mais exigente, Vettel mostrou por que é tetra. Por Lito Cavalcanti

Sebastian Vettel

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Um ano mais tarde, Grosjean refez a imagem em Suzuka

Dessa vez não tem dúvida: Sebastian Vettel guiou como campeão, justificou seu tetracampeonato. Recuperou as posições perdidas na largada, superou todas dificuldades e conquistou sua quinta vitória seguida, a nona da temporada. Foi sua melhor atuação do ano, ideal para coroar o tetracampeonato que só a frieza aritmética ainda lhe nega.

Ou não foi bem assim? Ah, isso depende de quem você ouve. Para muitos, foi isso mesmo. Para outros, não menos numerosos, de jeito nenhum. Para estes últimos, mais uma vez o alemãozinho foi claramente beneficiado pela escolha tendenciosa da equipe Red Bull a seu favor.

Segundo esta ala, Christian Horner, Helmut Marko e seus sequazes deram preferência descarada a Vettel ao mudarem a estratégia de seu companheiro de equipe Mark Webber de duas para três paradas de box. Uma decisão que lhe teria tirado definitivamente todas as chances de vitória.

A favor de Vettel há o fato de Webber ter-se mantido próximo demais à irrefreável Lotus de Romain Grosjean na fase inicial, o que fez seu carro perder pressão aerodinâmica, escorregar e acelerar o desgaste dos pneus. Webber fez sua primeira troca depois de apenas 11 voltas. Sem dúvida cedo demais.

Nesta mesma fase, Vettel se manteve a mais de dois segundos do carro de Webber, mesmo enfrentando os incômodos travamentos de freio na chicane. Assim fazendo, conseguiu ficar na pista até a 14ª passagem, três a mais do que o australiano e duas a mais que Grosjean. Para seus defensores, foi aí que ele construiu mais este sucesso.

Não se pode negar que ele teve ajuda da sorte. Como na largada, quando Lewis Hamilton aproveitou a lerdeza dos dois Red Bull para se infiltrar entre eles. Seu pneu traseiro direito foi tocado pela asa dianteira esquerda de Vettel. O pneu furou, como é comum nestes casos; a asa ficou intacta, e isso raramente acontece.

Daí para a frente, Vettel foi impecável. Até mesmo na maneira como controlou a corrida. Quando se fez necessário, superou um Romain Grosjean mais do que inspirado. Isso Webber não conseguiu fazer, mesmo com pneus mais novos e do tipo mais aderente.

Nada impediu as críticas ferozes à Red Bull, que no fundo são consequência do estrago que a própria Fórmula 1 causou a si mesma. A aceitação de ordens das equipes para os pilotos trocarem suas posições, corridas decididas fora da pista, artimanhas que não raramente definem resultados levaram a um nível de descrédito que induz grande parte do público à incredulidade.

De fato, o que pode garantir que não houve na decisão da Red Bull o intuito de Webber dar luta a Vettel na fase final? É inquestionável que, se ele não perdesse tanto tempo atrás de Grosjean, esta disputa fraticida teria ocorrido. Principalmente porque o australiano, com pneus médios, seria provavelmente mais rápido do que o alemãozinho. Mas Webber demorou a passar Grosjean e deu à Red Bull o argumento final.

Não que se deva condenar o australiano pela ultrapassagem tardia, e sim elogiar o suíço (ou francês, como queiram) pelo seu desempenho mais do que perfeito. Desta vez, ele superou seu companheiro Kimi Raikkonen, um campeão mundial, não só no qualify, como vem fazendo com frequência, mas também na corrida. Aliás, superou todos os superáveis, só ficou atrás dos insuperáveis Red Bull.

Grosjean, desta vez, deu diversos recados. Para a direção da sua equipe ele deixou claro que pode suprir a ausência de Raikkonen quando o finlandês se transferir para a Ferrari – e disso ele pode vir a se arrepender amargamente, estejam certos. Para quem assumir a vaga aberta por Raikkonen, Grosjean também mostrou que, seja quem for, vai enfrentar uma luta duríssima. E para seus críticos, ele provou que o jovem irrefletido e precipitado deu lugar a um piloto maduro e velocíssimo.

Todos reconheceram isso. Vettel classificou sua atuação como perfeita. O mesmo fez Webber, que foi abalroado por ele na primeira curva da primeira volta deste mesmo Grande Prêmio em 2012 e o chamou de “Louco da Primeira Curva”. De fato, na ocasião Grosjean mereceu tudo que foi dito, mas hoje merece todos os muitos elogios feitos.

Só a luta contra seu futuro companheiro de equipe já se constitui em uma atração para a F1 no próximo ano. E ela independe do escolhido, se Nico Hulkenberg ou Felipe Massa ou ainda Pastor Maldonado. Aliás, quem será o eleito é uma pergunta que todos se fazem, e ninguém parece ter a resposta correta.

Eric Boullier, o chefe da Lotus, diz que Nico Hulkenberg é um dos mais fortes candidatos, mas na hora de bater o martelo diz que precisa considerar as condições financeiras. Sim, o próximo ano se antecipa ainda mais difícil diante das profundas mudanças do regulamento. E Boullier sabe que a incerteza joga a seu favor na hora das negociações.

Quando o assunto pende para o lado das finanças, a candidatura do Maldonado ganha vulto. Mas ele precisa comprovar que manterá o patrocínio da petroleira estatal que o sustenta – o que já não é tão líquido e certo desde a morte de seu patrono, o presidente Hugo Chavez.

No que se refere à experiência, a balança pende para o lado de Felipe Massa. Ele leva consigo valiosos parâmetros e métodos de trabalho de uma equipe de ponta, além das lições recebidas de Michael Schumacher. E tem ainda a seu favor o peso pluma. Com 59 quilos, Massa proporcionará aos engenheiros o uso de lastros, o que é mais prezado do que pode parecer à primeira vista.

Como dão conta as primeiras notícias, o novo conjunto propulsor (motor turbo e seus indispensáveis radiadores, além de dois sistemas de aproveitamento de energia) vai pesar mais do que previu a FIA, que aumentou o limite do conjunto carro/piloto de 644 para 690 quilos. Parece ser pouco. E quanto mais pesados os pilotos, menor a possibilidade de lastrear os carros.

Segundo a engenharia da F1, cada quilo a mais significa um acréscimo médio de três centésimos de segundo por volta. Daí, 10 quilos equivalem a três décimos, o que no grid do Japão, por exemplo, foi a diferença entre o terceiro e o sétimo lugares. Acumulados, significam mais de um segundo a cada quatro voltas.

A isso some-se também o centro de gravidade, que quanto mais baixo mais benéfico se torna. Por ser colocado no fundo dos carros, o lastro contribui para o rebaixamento do centro de gravidade; já o peso de um piloto se distribui por todo o corpo. E elevar o referido centro intensifica o desgaste dos pneus.

Certamente Boullier considera todos esses fatores, e por enquanto ninguém pode dizer quem vai para a Lotus. Se Hulkenberg era tido como certo até há pouco, as especulações voltaram a se acender quando, no encerramento do GP do Japão, o ex-chefe de equipe e atual analista da TV inglesa BBC Eddie Jordan afirmou enfaticamente que o alemãozão vai voltar para a Force India.

Causou espanto geral, mas Jordan reafirmou com todas as letras. Não, ele não tem bola de cristal, mas é como se tivesse. Jordan nunca errou em suas previsões. E a Force India enfatiza que está longe de definir, ou pelo menos de divulgar, quem serão seus pilotos em 2014. Talvez porque o valor de uma vaga cresce com a aproximação do prazo final. Por isso, nem Paul di Resta nem Adrian Sutil têm seus lugares garantidos para a próxima temporada.

Felipe Massa também está negociando com a equipe indiana – e de resto com a Williams, a hipótese menos favorecida. Claro que ele prefere a Lotus. Pela qualidade de engenharia que a equipe vem mostrando – é hoje a mais próxima adversária da Red Bull, sobrepujando as endinheiradas Ferrari e Mercedes. E também por usar motores Renault.

Os motores franceses têm sido talvez a principal arma da Red Bull e da Lotus. São tão eficientes que até a Mercedes, depois de vê-los ocuparem todos os degraus dos dois últimos pódios, reconhece publicamente que a fábrica concorrente descobriu algum segredo no seu mapeamento que representa hoje uma vantagem inigualável.

Caso se confirme a previsão de Eddie Jordan, é quase certo o ingresso de Felipe Massa na Lotus. Vê-lo correndo lá, ao lado deste novo e eficiente Grosjean, seria uma atração a mais para a F1. Mesmo com as críticas absurdas que ele sofre por aqui. Elas se repetem independente dele respeitar ou desrespeitar as ordens da Ferrari. Para muitos, nada adiantou ele se negar a dar passagem a Fernando Alonso quando lhe foi dada a ordem de sair da frente no GP do Japão. Ele não saiu e foi criticado do mesmo jeito.

Ora, quando Felipe supera o espanhol nos treinos de classificação, são raros os elogios. E quem o faz é chamado de ufanista. Nunca vi nenhuma relação entre o Brasil e o desempenho dele. O que vejo é um piloto lutando por si mesmo. Como fez ao ignorar a ordem de ceder a posição a Alonso.

O espanhol, por sinal, nada viu de errado na atitude do companheiro. Claro, por ser piloto ele acredita que estas coisas devem ser decididas na pista. Nem mesmo o chefe Stefano Domenicali, que em última análise foi quem sofreu o desrespeito, censurou Massa. Questionado, disse entender perfeitamente a decisão de seu piloto, que nestas últimas corridas tem de mostrar mais do que fez ao longo do ano.

Quando Alonso enfim o ultrapassou, como faria com a quase totalidade do grid, as críticas voltaram a se precipitar. A este raciocínio simplista escapou o fato de que naquele momento Felipe enfim respondia à Ferrari o que sempre se cobrou dele, e que esta atitude era mais importante que o resultado da luta.

Muitos não entenderam assim. E o trataram com a irracionalidade das arquibancadas de futebol, da qual o automobilismo por bom tempo esteve imune. Não é mais. Hoje, os torcedores, sejam eles de equipes ou de pilotos, recorrem a um conceito de patriotismo absolutamente distorcido para se dizerem envergonhados.

Esta irracionalidade parece ser o preço que a Fórmula 1 paga por se ter tornado um esporte de massa. E também não ter sabido respeitar seu novo e enorme público com regras e decisões estapafúrdias. Uma pena, porque estão surgindo novos heróis e mais atrações para suas corridas. Mas aí se escuta uma daquelas mensagens e o caldo entorna.

Como no GP do Japão, quando a belíssima atuação de Vettel e de Grosjean foi esquecida por causa de suspeitas, fundadas ou não, mas que não deveriam existir, já que estas estratégias que as originam não contribuem em nada com o espetáculo.

Lito Cavalcanti

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