MotoGP – Segurança em circuitos

Autódromo de Deodoro?

Colaboração: Carlos Alberto Goldani

Em sua mais recente visita ao Brasil, onde disputou o GP de Fórmula 1, o hexacampeão mundial Lewis Hamilton declarou em uma entrevista comentando sobre o projeto de construção de um novo autódromo em Deodoro, zona norte do Rio de Janeiro: “Tem um circuito histórico no país, então não precisa cortar mais árvores”. A frase do piloto está alinhada com o discurso de ambientalistas e com os que, por definição, são contra todas as obras anunciadas com o apoio do atual governo. Em Interlagos Hamilton obteve duas vitórias e conquistou, em 2008, seu primeiro título mundial. Além da ligação afetiva com a pista de São Paulo, o britânico considera absurda a ideia de ocupar uma área de preservação ambiental para a construção de um novo autódromo, entende que os valores a serem investidos possam ser melhor endereçados para a educação e outras necessidades básicas do país. Um discurso politicamente correto, como o esperado de um campeão do mundo.

Apesar da opinião de Hamilton ser compartilhada por muitos, talvez até pela maioria da população brasileira, é obrigatório reconhecer que o maior problema de Interlagos é a dependência de recursos públicos. Um levantamento publicado em maio deste ano na Folha de São Paulo informa que o autódromo, com base em informações de contratos publicados no Diário Oficial e em jornais ao longo dos últimos 29 anos, drenou investimentos públicos da ordem de R$ 830 milhões (em valores corrigidos pela inflação). Óbvio, existem contrapartidas econômicas no comércio, hotelaria e turismo na cidade. A coleta de informações pelos responsáveis da matéria da Folha considerou, exclusivamente, valores direcionados para obras realizadas no autódromo para atender exigências da FIA (Federação Internacional de Automobilismo) e da FOM (Formula One Management, administradora da F-1) para manter o autódromo no calendário das provas da categoria. Este montante é superior aos R$ 697,4 milhões que estão orçados para a construção em Deodoro, cujo custo que deve ser bancado exclusivamente pela iniciativa privada.

A grande verdade é que a pista de São Paulo é excelente, elogiada por todos os pilotos da Fórmula 1, porém inadequada para a prática de outras modalidades como, por exemplo, o motociclismo esportivo. O circuito tem um histórico trágico em competições de duas rodas, nos últimos três anos quatro pilotos morreram em Interlagos durante treinos ou provas de motovelocidade, todos inscritos na classe SuperBike, a principal categoria do campeonato brasileiro. Em 2017 houve um acidente fatal na Curva do Sol, em 2018 um competidor perdeu o controle do seu equipamento no S do Senna, em 2019 ocorreram dois óbitos, um no final da reta dos boxes e outro no Pinheirinho. A Federação Internacional de Motociclismo (FIM) classifica os circuitos quanto à segurança em uma escala decrescente de condições de segurança, entre “A” – mais seguro – e “E”. As regras de homologação da FIM classificam Interlagos como “D”, de acordo com recomendações só devia receber corridas de motos elétricas, que são menos velozes, nunca corridas de Superbike.

Circuitos homologados com “Grade A” da FIM, com poucas excessões podem ser adaptados para qualquer tipo de atividade esportiva em quatro rodas, entretanto as características de segurança de muitos autódromos classificados com “Grade 1” da F1 não são suficientes para a MotoGP (o circuito de Interlagos é um deles). Na Fórmula 1 a estrutura dos carros fornece um primeiro grau de proteção ao piloto, as motos dependem dos recursos implementados nas pistas. A estrutura de carros de corrida é projetada para absorver energia em caso de acidente, nas motos em caso de quedas o piloto e equipamento podem deslizar em direções diferentes, o circuito deve então ser projetado para que a desaceleração de ambos aconteça antes de atingir as barreiras de proteção. Áreas de escape normalmente utilizam brita e/ou asfalto, que absorvem a energia cinética e ajudam o piloto a parar antes das barreiras.

Quando no final dos anos 1960 os pilotos de Fórmula 1 exigiram guard rails para conter carros, as grades de proteção foram importantes para aumentar a segurança de automóveis, mas não eram menos perigosas para as motos que uma parede de concreto. Foram feitas tentativas de aumentar a segurança com a criação de áreas de escape com brita, uma melhoria significativa para desacelerar carros e motos fora de controle. A iniciativa reduziu consideravelmente, porém não eliminou os riscos inerentes às competições. Uma lenda da motovelocidade, Wayne Rainey, três vezes campeão mundial da classe 500cc, ficou paraplégico depois de uma queda na brita em Misano em 1993, um acidente muito semelhante ao de Jorge Lorenzo em Assen este ano, que acabou precipitando a aposentadoria do espanhol três vezes campeão mundial da MotoGP.

Alguns circuitos mais recentes implementam áreas de escape de asfalto, com aderência diferenciada, para permitir que os freios possam ser utilizados fora do desenho original da pista. Uma solução brilhante para carros, não tanto para motos, as quedas em uma superfície rígida podem ser um problema em determinados tipos de acidentes onde o piloto pode ser catapultado (high sides).

O Brasil, embora tenha excelentes circuitos para provas de automobilismo, desde a destruição do autódromo do Rio de Janeiro nenhum está homologado para hospedar uma etapa da MotoGP. O que mais se aproxima dos padrões da FIM é o Circuito dos Cristais, em Curvelo (MG), que tem como obstáculos, além de ainda não estar pronto, as condições de contorno, insuficiência de serviços de hotelaria, aeroporto próximo limitado e acesso rodoviário restrito. São estes entraves, além da segurança dos pilotos na pista, que o projeto de Deodoro no Rio pretende endereçar, um empreendimento que resulte em uma legítima arena multiuso, compatível com F1, MotoGP e outras categorias.

Existe um mantra no Brasil que qualquer obra de vulto apoiada pelos governos é um potencial sumidouro de dinheiro público, isto aconteceu quando a mídia tradicional dependia financeiramente e apoiava unilateralmente os governantes. Já não é o caso dos dias atuais, onde as facilidades da Internet são utilizadas para denunciar qualquer tipo de comportamento estranho.

Carlos Alberto Goldani
Porto Alegre -RS

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