MotoGP – No pain, no gain

MotoGP

Colaboração: Carlos Alberto Goldani

“No pain, no gain” é uma expressão em inglês que pode ser traduzida como “sem dor, sem recompensa”. Utilizado originalmente na prática do halterofilismo, indica que sem fazer esforço a ponto de causar dor, o atleta não será capaz de desenvolver a musculatura necessária para conseguir grandes realizações. Esta expressão generalizou-se na prática dos esportes com o sentido ampliado de que todo o sucesso obrigatoriamente é precedido por um trabalho intenso. O exemplo da MotoGP é particularmente didático, nos últimos dois anos piloto com maior número de acidentes na temporada foi o que venceu o campeonato mundial. Óbvio que o maior número de quedas não é uma condição necessária para um piloto ser bem-sucedido, neste caso um condutor particularmente desastrado ou azarado teria grande vantagem. Não é só uma coincidência que o campeão Marc Márquez detenha também o registro de piloto da MotoGP com maior número de acidentes na temporada. No seu caso é mais uma questão de método, de opção de trabalho, um indicador da sua obsessão em buscar os limites do equipamento. Não é uma opção sem riscos, o campeão convive com um problema crônico no ombro, que deve exigir uma correção cirúrgica no início do próximo ano.

Em toda a temporada de 2018 Marc não pontuou em quatro das dezoito provas, duas delas depois de ter garantido o título. Em Rio Hondo ele aprontou horrores, deixou o motor morrer no alinhamento de largada, penalizado com um pit-stop (saiu barato, devia receber uma bandeira preta) retornou alucinado recuperando posições e provocou vários toques com outros competidores, um deles causou a queda de Valentino Rossi. Recebeu 15 segundos por condução temerária e ficou fora da zona de pontuação. Em Misano , sofreu uma queda em Mugello quando estava na vice-liderança, recuperou a moto e classificou-se em 16º (zero pontos). Foi abalroado por Johann Zarco  Phillip Island e, por uma escolha errada de pneus contrariando toda a equipe foi uma das vítimas do dilúvio em Valência. Das 23 quedas na temporada só duas foram durante provas e em consequência de erros pessoais, todas as outras foram em testes nos fins de semana dos GPs enquanto buscava identificar os limites da moto e dos pneus.

O banco de dados mantido pela administradora da MotoGP contém registros detalhados de tudo o que acontece durante os três dias de um GP. Uma consulta aos registros da organização indica que o número de quedas nos eventos oficiais aumentou desde 2016, ano de introdução da eletrônica padronizada e mudança da fornecedora de pneus para a Michelin. Além da perda do auxílio proporcionado pelo software proprietário, a fábrica francesa disponibiliza um número maior de opções e trabalha com uma janela muito estreita de temperatura., que exige maior sensibilidade dos pilotos.

Os números apresentados abaixo foram obtidos no site motogp.com e incluem apenas as ocasiões em que a moto não conseguiu permanecer na pista, não contabilizam ocasiões onde o piloto consegue voltar para a prova.

Piloto 2012 2013 2014 2015 2016 2017 2018
Marc Márquez 15 11 13 17 27 23
Alvaro Bautista 13 11 14 4 16 26 21
Xavier Simeon 18
Cal Crutchlow 14 14 10 12 26 24 17
Jack Miller 18 25 14 17
Karel Abraham 10 7 13 6 15 15
Takaaki Nakagami 15
Thomas Luthi 13
Aleix Espargaro 6 10 10 7 15 19 12
Pol Espargaro 14 13 14 11 12
Alex Rins 8 12
Andrea Iannone 12 14 5 13 15 11
Franco Morbidelli 11
Scott Reding 9 7 10 11 11
Bradley Smith 7 16 11 8 7 11
Tito Rabat 16 10 10
Dani Pedrosa 6 6 6 3 10 9 9
Hafizh Syahrin 9
Johann Zarco 12 9
Valentino Rossi 6 4 5 2 4 4 8
Jorge Lorenzo 5 3 2 3 11 9 6
Michele Pirro 8 4 2 1 7 2 6
Andrea Dovizioso 5 3 4 6 6 6 5
Jordi Torres 5
Danilo Petrucci 6 4 4 7 10 9 4
Maverick Vinales 8 5 7 4
Stefan Bradl 9 11 13 8 14 3
Mika Kallio 2 3
Loris Baz 8 13 15 1
Sylvain Guintoli 2 1
Katsuyuki Nakasuga 1 1 1 1 1
Total 89 111 148 143 241 264 303

Considerando todas as categorias do FIM World Championship Grand Prix, Márquez foi o quinto em número de quedas nesta temporada (2018), atrás dos pilotos da Moto2 Stefano Manzi (31), Sam Lowes (27) e Jorge Navarro (24) , e da Moto3 Marco Bezzecchi (24).

Maior número de quedas em 2018 (todas as classes)

Piloto Quedas Classe
Stefano Manzi 31 Moto2
Sam Lowes 27 Moto2
Marco Bezzecchi 24 Moto3
Jorge Navarro 24 Moto2
Marc Márquez 23 MotoGP
Gabriel Rodrigo 22 Moto3
Tatsuki Suzuki 21 Moto3
Alvaro Bautista 21 MotoGP
Alex Márquez 19 Moto2
Iker Lecuona 18 Moto2
Xavier Simeon 18 MotoGP

Houve um total de 1.077 incidentes incluindo todas as classes nesta temporada, um número ligeiramente inferior ao de 2017. Em valores médios é menor índice desde 2015, embora este número seja relativo porque, embora travestido de um rigor matemático, os registros da MotoGP em 2018 consideram 19 etapas por categoria nesta temporada, porém em Silverstone não houveram as provas (MotoGP, Moto2 e Moto3), embora os eventos preliminares tenham sido realizados.

Estatísticas de quedas por temporada por classe (2012 a-2018)

Temporada MotoGP Moto2 Moto3 Total Etapas Média
2018 303 418 356 1077 57 18,89
2017 313 434 379 1126 54 20,85
2016 288 364 410 1062 54 19,67
2015 215 352 409 976 54 18,07
2014 206 408 367 981 54 18,17
2013 205 344 314 863 52 16,60
2012 186 371 348 905 52 17,40

O layout e a aderência do piso dos circuitos também contribuem para a ocorrência mais ou menos acidentes, as características combinadas nas pistas de Le Mans e Barcelona são as mais desafiadoras para os pilotos. Em 2018 os números de Valência extrapolaram por causa do clima adverso em todo o final de semana. Os treinos foram paralisados duas vezes por excesso de chuva, a prova principal no domingo também foi interrompida com uma bandeira vermelha para dar tempo de escoar a água da pista.

Quedas em 2018 por circuito

Valência 155
Le Mans 109
Barcelona 100
Misano 75
Phillip Island 69
Jerez 56
Motegi 53
Sachsenring 52
Buriram 51
Mugello 47
Sepang 46
Brno 44
Red Bull Ring 39
Aragon 36
Assen 34
Losail 31
CotA 30
Silverstone 30
Rio Hondo 20

Carlos Alberto Goldani
Porto Alegre – RS

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