MotoGP – Importância da Lealdade

Sachsenring 2016 – Valentino ignora orientação da equipe

Colaboração: Carlos Alberto Goldani

Michael Collins foi o piloto do módulo de serviço da nave Apolo XI durante a histórica missão da conquista da lua 50 anos atrás. Em sua missão, enquanto a nave orbitava em torno do satélite natural da terra, parte do trajeto passava pela face oculta e o rádio era bloqueado, não havia comunicação possível com qualquer outro ser vivo. Em períodos de pouco mais de 4 horas Michael era o homem mais solitário do universo. Quando indagado no retorno qual o sentimento que tinha experimentado na ocasião Michael respondeu: “Receio, pela nave ter sido construída pela empresa que propôs o menor preço, e confiança absoluta no suporte da equipe de apoio”.

Recentemente um jornalista especializado em MotoGP (Mat Oxley) escreveu que são três as motivações para um piloto que participa da categoria, (1) satisfação pessoal, (2) recompensa financeira e (3) lealdade à equipe. Dois destes itens não dependem de terceiros, o último implica em um trabalho conjunto onde o comprometimento de todas as instâncias nos boxes é fundamental, justificado por um ensinamento militar expresso no clássico “A arte da guerra” de Sun Tsu: “Nenhum exército alcança a vitória se os soldados não confiam em seu general”. Em diversos registros históricos da MotoGP existem exemplos que confirmam esta assertiva.

A MotoGP é um esporte solitário, durante uma prova o piloto depende exclusivamente de suas ações, decisões e da resposta do equipamento. Não existe comunicação com a equipe de apoio e a telemetria é unidirecional, da moto para os boxes. As únicas indicações que o piloto pode receber são mensagens com um número limitado de caracteres em um visor no painel e placas mostradas na reta dos boxes. O espirito de luta do piloto, que o encoraja a correr os riscos inerentes de uma prova, depende do respaldo de toda a estrutura da equipe.

Talvez o exemplo mais representativo do prejuízo causado pela falta de confiança dos pilotos nas orientações da equipe tenha ocorrido no GP de Sachsenring em 2016. Na ocasião a largada foi autorizada com a pista muito molhada, mas sem chuva. Marc Márquez saiu na pole e foi gradualmente caindo na classificação até a volta 9, quando saiu da pista e fez um passeio pelo cascalho caindo para a 11º. O piso começou a secar e formou um trilho, a equipe Repsol-Honda chamou o piloto pouco depois do meio da prova para trocar sua moto por uma equipada com pneus slick. Márquez voltou para a pista e nas voltas seguintes marcou tempos até 7 seg mais rápido que os outros concorrentes. O grupo que liderava, entre eles Rossi, Crutchlow e Dovizioso, embora insistentemente chamados pelos boxes ficou mais 5 voltas com pneus para chuva extrema em uma pista com um trilho totalmente seco. Por ter confiado na equipe, Márquez recuperou todo o atraso que tinha e venceu a prova com uma larga diferença. Em tempo, desde que foi promovido para a MotoGP em 2013 Márquez trabalha com a mesma tripulação e nunca houve uma única declaração pública, sua ou da equipe que o acompanha, criticando a moto. Existe praticamente um consenso que a RC213V é um equipamento extremamente físico e complicado de pilotar.

Existem também múltiplas oportunidades onde a lealdade entre pilotos e equipes foi e ou está sendo questionada. Johann Zarco, que dividiu com Jorge Lorenzo as manchetes mais promissoras no início da temporada, depois de poucas provas confessou o seu desapontamento com o protótipo da KTM, disse que a moto era uma droga, impossível de guiar. Nas onze provas realizadas até agora o francês se classificou uma única vez na frente de Pol Espargaro, o outro piloto da equipe, e acumulou um terço dos pontos de seu colega. Em meio da temporada e com pouco mais de um quarto do seu contrato cumprido, Zarco negociou com a KTM um divórcio amigável.

Marc Marquez

As reclamações públicas de Valentino Rossi, que não vence uma prova desde Assen em 2017, e de seu colega de equipe Maverick Vinales tumultuam o ambiente nos boxes da Yamaha. Os pilotos utilizam a imprensa para pedir ora por um motor com mais potência, ora por maior equilíbrio da moto e provocaram um desabafo de Lin Jarvis, diretor da equipe: “Perdemos o rumo em 2016 quando Lorenzo nos deixou”. O dirigente tentou depois contemporizar explicando que a queda no desenvolvimento do equipamento não era relacionada com a saída do espartano. Em outra frente, a Yamaha abortou uma negociação da satélite Petronas com o atual líder da temporada na Moto2, Alex Márquez, para pilotar para a equipe na mesma classe em 2020 com garantia de promoção para a MotoGP em 2021. A administração da Yamaha teme que a afinidade entre os irmãos Márquez facilite que segredos industriais da equipe possam migrar para a garagem da Repsol-Honda, aparentemente não consideram que o inverso também pode acontecer.

As relações entre o diretor da Ducati Gigi Dall’Igna e o principal piloto da equipe Andrea Dovizioso já estiveram bem melhor. A temporada exuberante da Honda de Márquez provoca instabilidade emocional em Dovizioso. O italiano não economiza críticas à equipe indicando que não quer mais novidades aerodinâmicas, a prioridade de desenvolvimento tem que estar centrada em maior velocidade em curvas. Dovizioso diz que este é um problema recorrente na Ducati nos últimos quatro anos. Em contrapartida, o dirigente entende que os pilotos não têm sensibilidade adequada para fornecer o feedback que a engenharia necessita e não esconde a vontade de voltar a trabalhar com Jorge Lorenzo, que acredita seja a única alternativa atualmente disponível de acabar com o reinado do #93. Enquanto Lorenzo era uma hipótese, os contratos de Danilo Petrucci (Ducati oficial) e Jack Miller (satélite Pramac) foram procrastinados, o que com certeza não contribuiu para reforçar a lealdade dos pilotos com a marca italiana.

A MotoGP envolve orçamentos milionários, que obrigatoriamente exigem algum tipo de retorno. Os administradores de equipes entendem que sempre que há um grande volume de capital investido, ferir eventuais sentimentos de pilotos talvez seja um mal inevitável. A consequência é que se um piloto que não sente o respeito e comprometimento da equipe, pode optar por ser conservador nas provas e não correr os riscos necessários para alcançar vitórias.

Carlos Alberto Goldani
Porto Alegre – RS

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