MotoGP – GP da Inglaterra – A prova que não houve

MotoGP – Silverstone 2018

Colaboração: Carlos Alberto Goldani

A algum tempo atrás perguntei para um executivo do Banco América do Sul, uma instituição financeira orientada para a colônia japonesa e que já não existe mais, o que diferenciava a cultura nipônica da civilização ocidental. Sem muito pensar ele respondeu: “No Japão quando alguém identifica alguma coisa errada, tenta consertar. Aqui no ocidente a prioridade é encontrar um culpado”. O GP da Inglaterra foi cancelado por uma conjunção de fatores, um nível absurdo de precipitação de chuva talvez tenha sido o mais importante, a baixa capacidade de drenagem da superfície da pista com o recente recapeamento também teve uma contribuição significativa. A maioria da mídia elegeu seu culpado, responsabilizou o piso do circuito.

O prenúncio de um fim de semana atípico aconteceu no sábado, durante o último treino livre. A Ducati de Tito Rabat aquaplanou na zona de frenagem da curva Stowe e causou uma queda sem grandes consequências, o piloto estava sentado na brita quando foi atropelado pela Honda desgovernada de Franco Morbilelli, que caiu pela mesma razão. Rabat fraturou o fémur, a tíbia e a fíbula na perna direita, vai ficar muito tempo em recuperação. A magnitude e as consequências do incidente, principalmente a completa falta de opção para o condutor quando a aquaplanagem acontece, afetaram muito a maioria dos pilotos.

A previsão do tempo ainda não é uma ciência exata, mas já está bastante desenvolvida e tem um alto índice de acertos. Em função do acidente a Dorna, após consultar o serviço de meteorologia do governo britânico, decidiu que antecipar o GP seria a melhor opção. A ordem de largada da Moto3 e MotoGP foi invertida, o início da corrida principal definido para 11:30. O ideal seria mais cedo, mas os organizadores necessitavam de tempo para administrar o acesso do público ao circuito. A chuva, entretanto, não deu tréguas e continuou acumulando água na nova superfície de Silverstone. Depois do warm up alguns pilotos procuraram os representantes da IRTA e Dorna, as motos aquaplanavam em todos os lugares, a pista estava insegura. Um piso molhado é administrável, existem recursos para manter a aderência, água parada é uma situação bem diferente. O início foi postergado até o clima colaborar.

A maioria dos pilotos estava convencida que não havia condições para a corrida. Alguns, porém, viam nas dificuldades uma oportunidade, um cenário hostil aos favoritos de sempre. Jack Miller, que disputa a classe principal desde 2015 e tem uma única vitória obtida em Assen em 2016, estava frustrado por decepcionar os espectadores que afluíram ao circuito, os britânicos Scott Redding e Bradley Smith queriam participar do que provavelmente seria o último GP caseiro em um futuro previsível. Redding especialmente frustrado porque era rápido no molhado e um bom resultado seria importante para conseguir uma vaga na categoria na próxima temporada. Loris Baz, convocado pela KTM para substituir o acidentado Pol Espargaro, queria correr. Os sucessivos replays do acidente de Rabat na TV convenceram a maioria que o GP era inviável. Cal Crutchlow, o britânico com maior evidência no grid foi muito positivo ao afirmar que simplesmente não era seguro. Todos lembram do GP de 2015 foi disputado em condições semelhantes, porém na época não havia a formação de poças no piso. A palavra mais ouvida no paddock era desastre e a culpa foi creditada ao contratante responsável pelo recapeamento da pista.

Após sucessivos adiamentos, a Comissão de Segurança decidiu cancelar toda a etapa do GP da Inglaterra. Houve algumas reclamações localizadas de pilotos que não foram consultados, como foi o caso de Andrea Dovizioso, Valentino Rossi, Scott Redding e Loris Baz. Não houve uma convocação por parte dos organizadores, foi uma iniciativa informal de alguns pilotos que ganhou corpo. Dani Pedrosa e Aleix Espargaro foram os primeiros e o movimento se alastrou. Jorge Lorenzo foi avisado por seu manager, Marc Márquez viu a movimentação pela TV e, em uma reunião com a Comissão de Segurança a decisão foi aprovada pela maioria dos pilotos, embora com os votos contrários de Jack Miller e Johann Zarco e a ausência de alguns.

Estranho foi o fato de uma decisão tão importante ter sido tomada ad hoc. O conselheiro de segurança Loris Capirossi estava prestes a começar uma inspeção da pista quando foi chamado com urgência, o movimento que deveria ser institucional foi atropelado pela iniciativa dos pilotos e não houve uma autoridade com liderança para convocar uma reunião oficial e certificar-se que todos estariam presente. Não mudaria a decisão, se a maioria dos pilotos questionar a segurança, a Dorna concorda quase sem argumentar. Algumas figuras do paddock com responsabilidades de gestão acreditam que que os pilotos têm muito poder sobre certas decisões, sem endereçar aspectos contratuais ou financeiros.

O cancelamento do GP da Inglaterra foi um desastre para os organizadores, com consequências ainda não determinadas. Os maiores perdedores são os fãs da MotoGP, que pagaram para perder um dia no frio e na chuva sem a recompensa de ver uma corrida. A administração do circuito teme perder a credibilidade dos gestores e equipes da MotoGP e, talvez, não hospedar o GP nas próximas temporadas, de longe o seu evento mais lucrativo. Existem apenas dois circuitos credenciados na Inglaterra, Silverstone e Donington, o Reino Unido é um mercado muito importante na história do Grand Prix de motociclismo e é inconcebível não ter uma etapa do calendario em uma pista britânica.

Em termos de mundial o cancelamento de um GP favorece em muito o atual líder, Marc Márquez. A manutenção de uma diferença de 59 pontos faltando 7 etapas é uma vantagem considerável. Se acontecer uma improvável conquista de 7 vitórias de Valentino Rossi, seu mais próximo desafiante, nas etapas restantes o atual campeão necessita apenas 2 segundos lugares e 5 terceiros para conquistar seu quinto título. A situação do espanhol é tão tranquila que seus adversários mais prováveis, os dois pilotos da Ducati, já desistiram da corrida ao título. Andrea Dovizioso declarou que seu objetivo nesta temporada é vencer as Yamaha.

Carlos Alberto Goldani
Porto Alegre – RS

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