MotoGP – Eu tenho um sonho!

Andrea Dovizioso, Jorge Lorenzo e Marc Marquez

Colaboração: Carlos Alberto Goldani

Há mais de meio século, falando para uma multidão de mais de 250 mil pessoas reunidas no Lincoln Memorial em Washington, o ativista pelos direitos civis Martin Luther King Jr. pronunciou um discurso épico que ficou mundialmente conhecido por sua frase inicial: “I have a dream! (Eu tenho um sonho)”. Citado inicialmente no contexto de promover a integração racial, este jargão foi portado para o cotidiano das pessoas para expressar um desejo intenso, uma meta a ser alcançada.

A análise das decisões recentes da Dorna, grupo comercial que tem o monopólio do segmento comercial da MotoGP, indica que seus diretores e executivos têm um sonho. Recapitulando, o mundial de motociclismo tem a gestão compartilhada por quatro entidades: FIM (Federation Internationale de Motocyclisme) que promove o campeonato; Dorna que controla os direitos comerciais, leia-se o dinheiro envolvido; a associação dos fabricantes MSMA (Motorcycle Sports Manufacturer’s Association); e a IRTA (International Road Racing Teams Association) que representa equipes, principais fornecedores e patrocinadores.

O sonho da empresa espanhola é formatar um campeonato com 24 participantes distribuídos entre 6 fabricantes, cada qual com 4 pilotos, 2 representando a equipe oficial e 2 em uma satélite, competindo em campeonato com no máximo 22 etapas. Um regulamento rígido que impeça uma escalada de custos de desenvolvimento para evitar que empresas com fartos orçamentos monopolizem a competição. Já existe um histórico a este respeito, entre 2011 e 2015 todas as provas foram vencidas por pilotos oficiais das equipes Honda e Yamaha. Com a adoção obrigatória da eletrônica padronizada em 2016, que proibiu as duas concorrentes utilizarem software proprietário, houve um recorde de 9 vencedores diferentes nas 18 etapas. Foi a comprovação do acerto da entidade em promover a competitividade via equalização de recursos.

A MotoGP também está buscando maior presença na Ásia, onde o desenvolvimento econômico é acelerado e o mercado de motocicletas está ascendente. A Dorna assinou em 2018 um protocolo de intenções com um grupo de empresários para que o Brasil volte a hospedar uma etapa no calendário de 2021, em um circuito a ser construído em Marechal Deodoro no Rio de Janeiro, com capacidade de acomodar até 80 mil espectadores. A empresa também planeja promover já na próxima temporada uma prova na Finlândia (Circuito de Kymiring, a pouco mais de 100 km de Helsinque), também estuda a viabilidade de um circuito urbano na Indonésia e um possível retorno ao México. Para atender a demanda destes novos GPs é provável que a Espanha perca duas datas no calendário promovendo um rodízio entre Jerez, Barcelona, Aragon e Valência.

Os fabricantes já estão em processo de adequação a esta nova realidade. As antigas relações de fornecedor/cliente que existiam entre as fábricas e satélites migraram para o conceito de parceria. Com grandes inovações tecnológicas severamente limitadas pelo regulamento, cresce a necessidade de pilotos com sensibilidade e quilometragem em testes para coletar dados que, com o auxílio de simuladores digitais, orientem ajustes e adequações dos equipamentos. Ducati, Yamaha e Honda já fornecem aos principais pilotos das equipes satélite pelo menos um protótipo com todos os desenvolvimentos mais recentes. Cal Crutchlow da LCR utiliza uma RC213V idêntica às disponibilizadas para Márquez e Lorenzo, Jack Miller da Pramac tem uma GP-19 igual às de Dovizioso e Petrucci, Franco Morbidelli da SIG Petronas pilota uma YZR-M1 especificação A, equipamento semelhante ao de Rossi e Vinales. A KTM expandiu este conceito e as quatro motos que disputam o mundial, 2 da equipe oficial e 2 da Tech3, são da mesma geração. Mais dados e observações fornecem indicações mais apuradas de como ajustar melhor os protótipos para um GP.

Existem apenas 22 equipamentos inscritos na temporada de 2019. A Angel Nieto cedeu suas duas vagas para a nova equipe SIG Petronas e as janelas do grid da Marc VDS não estão sendo ocupadas. Houve um rumor que estariam reservadas para uma futura participação da VR46 na principal categoria, porém é mais provável que sejam utilizadas no futuro por uma satélite da Suzuki.

A participação da Aprilia é um fator de preocupação para a realização do sonho da Dorna em um futuro próximo. A equipe não se enquadra no sentido lato de uma representante de fábrica, trabalha com orçamento limitado, staff técnico enxuto e é improvável que tenha condições de gerir uma satélite. Das equipes que disputam o mundial deste ano a Avintia não tem o perfil adequado para este novo contexto, é talvez a única sem um vínculo estreito com um fabricante e participa do mundial alugando Desmosedici GP-18 utilizadas na temporada passada.

Embora o motociclismo esportivo tenha suas raízes em território britânico, a primeira prova oficial foi disputada na Ilha de Man em 1949, nenhuma das equipes inscritas na categoria principal tem sua sede operacional instalada na Inglaterra, portanto não estão previstas eventuais dificuldades econômicas ou geopolíticas criadas pelo Brexit, a saída do Reino Unido da União Europeia (EU).

Observação: A primeira prova do Mundial de Fórmula 1 aconteceu domingo passado, uma semana depois da abertura da temporada de 2019 da MotoGP. Embora sejam esportes com características distintas, para os que tiveram a oportunidade de acompanhar os dois eventos ficou evidente que, em termos de espetáculo e competitividade, a Dorna tem um produto melhor que a Liberty Media.

Carlos Alberto Goldani
Porto Alegre – RS

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