MotoGP – A fila anda

Valentino Rossi 2017

Colaboração: Carlos Alberto Goldani

Pelé havia decidido encerrar a sua carreira e disputava seus últimos compromissos pelo Santos. A equipe venceu um jogo complicado na Vila Belmiro pelo placar mínimo, com um gol extraordinário de um rapaz chamado Lairton. Uma bola foi alçada e, a uns cinco metros da linha da grande área, o atacante conseguiu um voleio com ela ainda no ar acertando o ângulo da meta adversária, lá onde os locutores mais estilosos costumam dizer que “a coruja dorme”. Depois do jogo encerrado um repórter mais afoito aproximou-se para entrevistar o jogador e fez a seguinte colocação: “Belo gol, você deu muita sorte no lance”. Decepcionado, Lairton respondeu: “Veja como são as coisas, se fosse o crioulo com a número dez (na época não era crime racial chamar um afrodescendente de crioulo) vocês diriam ter sido um golaço do rei, como foi o Lairton, deu sorte”. Assim é a vida, é complicado para uma pessoa ter o seu talento reconhecido em um esporte onde existe em atividade um ídolo consolidado e adorado pelas massas.

Além se suas inegáveis qualidades como piloto, a evolução das comunicações transformou Valentino Rossi em um dos esportistas com maior sucesso em todos os tempos. Rossi é um multicampeão mundial, com sete títulos na classe principal e dois conquistados nas categorias menores. Sua carreira sempre foi vitoriosa, começou a correr no mundial da FIM com uma Aprilia 125cc em 1996 e conquistou seu primeiro título mundial já em 1997. Evoluiu para a 250cc ainda com a Aprilia em 1998 e venceu a temporada do ano seguinte. No início da década de 2000 enfileirou títulos em série na classe de elite, 500cc com Honda em 2001, MotoGP em 2002 e 2003 com Honda e em 2004 e 2005 com Yamaha. Depois de perder os títulos de 2006 (Nicky Hayden – Honda) e 2007 (Casey Stoner – Ducati), Valentino retomou o protagonismo em 2008 e 2009, seus últimos mundiais. Depois de 5 anos sem sucesso, Rossi esteve próximo de vencer em 2015, liderando a maior parte do campeonato e sendo ultrapassado no número de pontos por Jorge Lorenzo na última prova da temporada, depois de ter sido penalizado para largar do fim do grid por uma manobra controversa envolvendo Marc Márquez na etapa anterior na Malásia.

Integrante da restrita elite de pilotos desde 2000, este ano ao vencer em Assen no GP da Holanda Valentino agregou mais um recorde em sua já extensa coleção, aos 38 anos de idade é o piloto que estabeleceu o maior intervalo de tempo entre a primeira e a última vitória em um GP da classe principal, superando a antiga marca do australiano Troy Bayliss.

Um currículo com tanta densidade criou rivalidades históricas, talvez a mais acirrada tenha sido com Max Biaggi que se iniciou na década de 90 e atingiu o seu ponto máximo em 2001 durante a etapa do GP do Japão. Na ocasião Biaggi realizou uma manobra arriscada que poderia ter tirado Rossi da pista. Voltas depois ao ultrapassar o desafeto, a TV mostrou para todo o mundo Rossi mostrando o dedo médio na vertical para o rival. Na mesma temporada na Catalunha, ambos os pilotos partiram para o que o jargão policial chama de “vias de fato” durante a cerimônia de premiação no final da prova de 500cc, conflito que incluiu alguns participantes das equipes.

Rossi arregimentou uma legião de torcedores por todo o planeta ao personificar um atleta vitorioso, um homem de negócios de sucesso e uma pessoa sociável, como se costuma exemplificar, o genro que toda a mãe gostaria de ter. Herdou o número 46 da moto utilizada por seu pai em uma curta carreira e foi o segundo piloto a recusar a honra de utilizar o número 1, exclusiva do vencedor da temporada anterior (Barry Sheene foi o primeiro). O ídolo italiano percebeu que conservar o seu número habitual como campeão fortalece o apelo comercial da VR46, sua marca registrada.

Valentino tem algumas excentricidades, o seu macacão de competições ostenta um adesivo com as letras WLF sem uma explicação convincente, à boca pequena comenta-se que seja o acrônimo de uma referência chula (“ViVa La Figa” – uma expressão italiana que pode ser traduzida como “longa vida à vagina”). O piloto não foi enquadrado pelos rígidos regulamentos da MotoGP porque a primeira letra é um W e não um “V”, o que desautoriza a associação com a frase. Rossi é supersticioso e cumpre alguns rituais como, por exemplo, o alongamento antes de montar na moto, a meditação agachado junto ao equipamento e um último ajuste em seu macacão em pé com a moto já no pit lane. Ele utiliza sempre a mesma ordem de sequência para calçar luvas e botas, só monta no equipamento por seu lado direito. Desde o início de sua carreira Rossi utiliza exclusivamente vestuário e dispositivos de proteção produzidos pela Dainese. Entre 1996 e 1997 a concorrente Alpinestars foi patrocinadora de sua equipe, porém forneceu para ele somente as botas. A Yamaha onde esteve entre 2003 e 2010 e de 2013 até os dias atuais utiliza oficialmente os produtos Alpinestars, a Ducati (2011 e 2012) tinha contrato com a Puma, em todo este tempo Rossi honrou a sua associação com o fabricante italiano e sempre usou produtos Dainese.

O reconhecimento de Valentino no mundo do motociclismo esportivo atual é semelhante ao de Pelé no futebol em anos passados. Assim como aconteceu com o Rei do Futebol, o ocaso do ídolo fatalmente vai acontecer, sua ascendência no esporte já é questionada e existem pilotos que já apresentam capacidade igual ou superior a do italiano. Na atual safra de espanhóis, por exemplo, o talento precoce de Marc Márquez e a eficiência espartana de Jorge Lorenzo colecionam vitórias sobre Rossi nos últimos anos, embora nenhum deles seja páreo para seu carisma. Nesta temporada, os resultados do seu “padawan” Maverick Vinales superam os obtidos pelo velho mestre.

As transmissões do mundial de MotoGP para o Brasil estão atreladas a uma única emissora de TV, centradas em um locutor e um comentarista. Ambos são entusiastas, preparados e desempenham bem as suas funções, embora por vezes não disfarcem a simpatia por Valentino Rossi. As coberturas oficiais da MotoGP (streaming pela Internet) e da BT Sports (parabólicas) são mais ricas em informações e não privilegiam qualquer piloto.

Carlos Alberto Goldani
Porto Alegre – RS

Quer ver todos os textos de colaboradores? Clique AQUI

Os artigos publicados de colaboradores não traduzem a opinião do Autoracing. Sua publicação obedece ao propósito de estimular o debate sobre automobilismo e abrir um espaço para os fãs de esportes a motor compartilharem seus textos com milhares de outros fãs.

AS - www.autoracing.com.br

ATENÇÃO: Comentários com textos ininteligíveis ou que faltem com respeito ao usuário não serão aprovados pelo moderador.