MotoGP – A “colher” da Ducati

Danilo Petrucci – Ducati 2019

Colaboração: Carlos Alberto Goldani

O inglês Ali Rowland Rose, técnico especializado em aerodinâmica que trabalha no projeto da Alfa Romeo (Sauber) na Fórmula 1, tem plena convicção que o apêndice utilizado pela Ducati montado no braço oscilante da Desmosedici GP19 gera downforce na roda motriz. O projetista Alex Baumgarten da Kalex (Moto2) confirma que cada detalhe da carenagem de uma moto de competição tem influência na aerodinâmica. Simulações realizadas nos servidores da Aprilia ratificaram que o componente provoca força descendente no pneu traseiro.

Quatro fabricantes, Aprilia, Honda, KTM e Suzuki apresentaram no final do GP do Catar um protesto que foi desconsiderado pelos comissários da prova e por Danny Aldridge, Diretor Técnico da MotoGP. Os responsáveis pela fiscalização dos equipamentos em Losail aceitaram a explicação que as funções do componente montado nas Desmosedici GP19 eram de deflector de água da chuva e sistema de arrefecimento do pneu traseiro. As fábricas apresentaram um pedido formal de reconsideração da decisão. Gigi Dall’Igna, gerente geral da Ducati, ficou furioso e promete como retaliação exigir a proibição dos componentes aerodinâmicos utilizados na RC213V da Honda que, segundo a sua ótica, apresentam riscos para todos competidores por seu desenho fino e afiado. O gestor da equipe italiana alega que pode resultar em acidentes com sérias consequências se ocorrer o toque com um adversário durante uma disputa por posições ou em uma eventual queda.

Os juízes do tribunal de apelações da Federação Internacional de Motociclismo devem decidir sobre a legalidade do componente montado na GP19 em Losail, ou seja, determinar se a sua função é apenas resfriar o pneu ou, como os adversários de Ducati suspeitam, é um elemento aerodinâmico ilegal e, portanto, vetado pelo regulamento. Em tempo, não há nenhuma outra sanção em julgamento, a vitória de Dovizioso não está sendo contestada, até porque a utilização do componente foi autorizada para a prova.

O tribunal se reuniu em 22/03 na sede da FIM em Mies, perto de Genebra, para julgar o apelo das quatro fábricas contra a decisão do Diretor técnico Danny Aldridge, que considerou o spoiler montado no braço oscilante da GP19 respeita o regulamento. Foi uma reunião tensa, que se estendeu desde as 11:00 até as 17:30 sem, entretanto, chegar a uma conclusão. Os trabalhos foram conduzidos pelo indiano Anand Sashidharan (presidente), tendo também o sueco Lars Nilsson e o finlandês Sakari Vuorensola atuando como juízes. A primeira fase do processo serviu para ouvir as argumentações da Ducati, representada no evento por Gigi Dall’Igna e Fabiano Sterlacchini. Os representantes das fábricas que apresentaram o pedido de esclarecimentos quanto a legalidade do componente foram Massimo Rivola (Aprilia), Alberto Puig (Honda), Mike Leitner (KTM) e Davide Brivio (Suzuki). Só a análise da documentação apresentada consumiu mais de 4 horas. Também foram ouvidas testemunhas convocadas pelo Tribunal de Recurso.

Embora o evento tenha sido realizado sem a presença de jornalistas, a publicação italiana Gazzetta dello Sport conseguiu ouvir do chefe da Ducati Corse, Gigi Dall’Igna, que ele estava indignado por ter sido obrigado a revelar informações que preferiria ter mantido em segredo. “Ao apresentar a nossa defesa fui constrangido a revelar alguns resultados de nossos estudos em uma área que está sendo negligenciada por nossos concorrentes. Investimos muito tempo e capital no desenvolvimento de uma ideia e tive que explicar o processo para nossos adversários com todos os detalhes”. O chefe da Ducati também revelou que ficou muito irritado por seu piloto Danilo Petrucci ter falado demais nos testes do Catar sobre o componente, dando a entender que a função do spoiler não é apenas para refrigerar o pneu traseiro.

O tempo de duração da reunião do tribunal é, provavelmente, um sinal que existem muitas controvérsias no objeto da discussão e que dificilmente seja encontrada uma decisão que consiga agradar gregos e baianos. Foram apresentados os argumentos que embasaram os diferentes pontos de vista e muitos dados da telemetria e de simulações. Os juízes agora vão tentar digerir toda a informação antes de apresentar suas conclusões.

As diferenças de opinião sobre a utilização dos dispositivos foram comentadas por especialistas em aerodinâmica da Fórmula 1. Seria o spoiler em questão um dispositivo aerodinâmico ilegal? O regulamento permite “interpretações”. O próprio Danny Aldridge, Diretor Técnico da MotoGP, reconhece que o seu texto não é claro, porém ressalta que existem diretrizes específicas em relação aos princípios de aerodinâmica que todos os fabricantes devem seguir. O diretor lembra que houve uma atualização recente especificando que podem ser montados acessórios no braço oscilante exclusivamente com os objetivos de resfriar o pneu traseiro, repelir água da chuva ou proteger contra sujeira. A Ducati tem reiterado que o componente é usado para o arrefecimento do pneu, os outros fabricantes entendem que foi projetado para a produção de forças aerodinâmicas, que caracteriza uma violação das regras.

Ali Rowland Rouse, responsável pela aerodinâmica dos carros de Kimi Raikkonen e Antonio Giovinazzi na F1 está muito seguro ao afirmar que o recurso da Ducati gera downforce na roda traseira. Segundo suas palavras, “É um dispositivo que consiste de três elementos, incluindo uma asa de envergadura curta que cria um downforce razoável enquanto a moto se desloca na posição vertical”. O dispositivo reduz consideravelmente o wheelspin (giro em falso da roda) aplicando maior pressão no pneu traseiro, seus efeitos são sentidos a partir de 120 km/h com a moto na vertical. O downforce aerodinâmico aumenta com o quadrado da velocidade, ou seja, a força aumenta 4 vezes quando a velocidade dobra. Existem consequências, quanto maior a carga sobre o pneu mais aumenta a sua temperatura e a degradação é mais rápida, por isso também é necessário canalizar o vento para refrigerar a roda.

O britânico explica que os apêndices aerodinâmicos na MotoGP até agora foram instalados na carenagem frontal e que toda a distribuição de peso é realizada em função da localização do centro de gravidade do conjunto. Com o uso do dispositivo da Ducati esse equilíbrio migra em direção a parte traseira e resulta em maior aderência, aproveitando melhor a potência do motor. Este resultado é obtido mesmo com componente montado fora da área de atuação da suspensão. A questão que se impõem é se Honda, Suzuki, KTM e Aprilia podem provar que a utilização deste dispositivo controverso resulta em downforce e não exclusivamente para resfriamento de pneu. O projetista da Kalex, Alex Baumgarten, explica que todos os componentes montados em um protótipo de competição resultam em algum efeito aerodinâmico, mesmo seja um defletor de água ou uma simples canalização de vento para resfriar o pneu. “Tem resultado aerodinâmico, quer você goste ou não”. Rowland Rouse reconhece que a Ducati tem forte atuação na zona cinzenta das regras. “Trabalham de modo muito semelhante às equipes da F1, esmiuçando todos os detalhes em busca de uma brecha no regulamento”.

Mat Oxley, jornalista especializado que escreve para o portal motorsportmagazine.com no Reino Unido, lembra que na F1 inovações significativas que resultam em controvérsias costumam ser permitidas no primeiro ano, interpretações sobre sua aderência aos regulamentos são postergadas para o final da temporada e decisões válidas para o futuro. É uma espécie de recompensa para a equipe que investiu na criação e desenvolvimento da novidade. Em 2009 Jenson Button foi campeão do mundo utilizando um difusor duplo em sua Brawn GP, que foi muito contestado. A inovação apareceu nos testes pré-temporada e foi seguida pelas equipes Toyota e Williams. “Talvez a MotoGP deva seguir o exemplo”.

Carlos Alberto Goldani
Porto Alegre = RS

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