MotoGP 2018 – Valência, fim de temporada

Comemoração da KTM com o primeiro pódio da equipe

Colaboração: Carlos Alberto Goldani

A temporada de 2018 foi estranha, então toda a confusão na última prova do ano não foi exatamente surpresa. Distintas gerações marcaram presença na pista do Circuito Ricardo Tormo em Valência, o italiano Valentino Rossi, 38, era o mais velho, o turco Can Oncu com apenas 14 anos o mais novo, com as particularidades de ser o primeiro piloto da Turquia em uma prova oficial MotoGP (Moto3) e por ter vencido em sua estreia.

Nos registros oficiais de 2018 a Honda ganhou quase tudo, títulos do mundial de pilotos, construtores, equipes e ainda o melhor rookie do ano, Franco Morbidelli da Marc VDS. A conquista de títulos coletivos e individuais foi importante para reduzir uma opinião crescente na mídia que a Honda sem Marc Márquez é uma moto comum, talvez até um pouco inferior às Ducati. A fábrica não conseguiu o campeonato de melhor piloto independente, perdeu para Johann Zarco (Yamaha Tech3) pela ausência de Cal Crutchlow (LCR Honda) nas três últimas etapas.

A última prova do ano foi definida por um misto de estratégia, teimosia e caprichos do clima. Andrea Dovizioso venceu com méritos por ter competência para permanecer na pista em condições adversas e por uma pequena esperteza. O italiano rodou o warm-up com um conjunto de pneus usados e ficou com dois conjuntos novos disponíveis para a prova. Como houve uma bandeira vermelha por excesso de chuvas e acumulo de água na pista, ele alinhou para a segunda largada com pneus novos. Marc Márquez sofreu uma queda previsível, antes do início a equipe já sabia que os pneus médios só funcionavam bem em pista úmida, eram impossíveis de aquecer até a temperatura ideal com muita chuva. Toda a equipe aconselhou o uso dos compostos macios, o campeão contrariou a opinião geral e decidiu seguir a sua intuição, não deu certo. O clima causou muitas quedas, algumas bastante estranhas, a Suzuki de Andrea Iannone, por exemplo, perdeu a traseira e girou de pé 180° antes de ficar descontrolada e cair.

A inconstância da chuva foi a principal protagonista do espetáculo. Ausente durante a largada, retornou fraca logo após o início, cresceu em volume, depois um pouco mais leve, até voltar em quantidade suficiente para vencer a capacidade de escoamento do piso e formar poças na pista obrigando o acionamento da bandeira vermelha. Antes, porém, causou a queda de diversos pilotos incluindo Aleix Espargaró, Jack Miller, Tom Luthi, Danilo Petrucci, Marc Márquez, Andrea Iannone, Franco Morbidelli e Maverick Vinales. Alguns conseguiram voltar para a corrida, outros ficaram resignados e um deles, Jack Miller, indignado. Jack argumentou que os fiscais demoraram muito para interromper a prova, correr naquela situação era quase um suicidio. A moto de Maverick Vinales ficou descontrolada enquanto ele estava acelerando em linha reta. Nas práticas de sexta-feira a bandeira vermelha foi acionada duas vezes com a pista em melhores condições. O australiano imagina que a direção tenha tentado a completar três quartos do percurso para poder encerrar a prova definitivamente. Uma nova largada com 16 competidores foi autorizada quando o clima melhorou. Um terço do grid original estava sem condições de participar.

O resultado final a presentou algumas surpresas, entre elas o primeiro pódio da KTM com Pol Espargaró, que terminou em terceiro. Em uma prova surpreendente o espanhol caiu antes da interrupção, recuperou o equipamento e voltou em décimo sexto, conseguiu galgar posições e estava em oitavo quando houve a bandeira vermelha. Espargaró assumiu a quarta posição na segunda largada e foi beneficiado com a queda de Valentino Rossi. Como Dovizioso, ele foi favorecido por um conjunto de pneus novos e conseguiu o primeiro pódio para a fábrica austríaca. Outro resultado muito festejado por sua equipe foi a sexta colocação de Takaaki Nakagami da LCR Honda Idemitsu, melhor piloto de equipe independente e que ainda não tinha resultados nos top ten. O segundo lugar de Alex Rins foi o seu quinto pódio na temporada e o quarto seguido da Suzuki, historicamente o melhor desempenho da fábrica desde 1994.

A Yamaha, que ainda tinha esperança no título de construtores, foi frustrada com a queda de seus dois pilotos oficiais e com o fraco desempenho de Johann Zarco, um recurso valioso para o acúmulo pontos que terminou apenas em sétimo. O sonho de Valentino Rossi de ser de fato e de direito o maior piloto de todos os tempos ficou um pouco mais distante, faltam ainda 7 triunfos para ele ser o piloto mais vitorioso de todos os tempos. Após mais uma temporada sem vitórias, o multicampeão não soube explicar o que causou sua queda nas últimas voltas quando disputava a liderança, segundo ele a traseira simplesmente ganhou vida própria quando abriu o acelerador.

No day after, segunda-feira a MotoGP já respirava a próxima temporada. Alguns veículos de transporte trocaram os adesivos dos patrocinadores e uma equipe nova ocupou os boxes do circuito já preparando os testes de terça e quarta-feira (20-21 de novembro). Pilotos que foram promovidos e veteranos que trocaram de equipe foram introduzidos à suas novas motos, mecânicos e engenheiros. O centro das atenções é a equipe Repsol-Honda, que com a contratação de Jorge Lorenzo e concentrou em sua garagem os pilotos vencedores de oito dos nove últimos mundiais (Lorenzo venceu em 2010, 2012 e 2015, Casey Stoner foi campeão em 2011 e Marc Márquez todos os restantes). O Espartano, apelido dado a Lorenzo em função da sua disciplina férrea, negociou com a Ducati a sua liberação para rodar com a RC213V sem ostentar nenhum patrocínio. Dani Pedrosa, que assinou como consultor com a Ducati, preferiu cumprir seu contrato com a Honda até o final deste ano.

Casos anteriores indicam que não tem como colocar dois touros em uma mesma invernada e esperar que eles sejam amigos. A Yamaha não conseguiu administrar os egos de Jorge Lorenzo e Valentino Rossi, no último ano em que dividiram o box da equipe os dois sequer se cumprimentavam, cada qual trabalhava no desenvolvimento de sua própria moto e informações não eram compartilhadas. Quando em 2017 a Ducati apostou todas as fichas em Lorenzo não esperava que o piloto espanhol tivesse tanta dificuldade em se adaptar ao novo equipamento. O sucesso de Andrea Dovizioso e o sentimento de patriotismo dos italianos causou desconforto na equipe. Na prova final da temporada, quando o italiano ainda tinha remotíssimas chances no campeonato, todos lembram dos boxes sinalizando alucinadamente para Lorenzo permitir uma ultrapassagem de Dovi na pista.

Márquez e Honda formam um excelente conjunto, a dúvida é o quanto deste sucesso é devido ao piloto e qual a contribuição do equipamento. Em busca de uma afirmação da excelência da sua moto a Honda decidiu bancar o risco e reunir em sua equipe oficial o quinto e sexto maiores vencedores nos 70 anos da história da MotoGP, 70 vitórias de Marc e 68 de Jorge. Esta associação pode ser administrada durante algum tempo, difícil avaliar quanto. A longo prazo nunca funcionou e é improvável que funcione.

Valentino Rossi, embora tenha encerrado uma temporada sabática, entende que ainda pode bons resultados no futuro. O comportamento da sua Yamaha nas últimas provas fez aparecer uma luz no fim do túnel.

A nova temporada inclui uma série de novidades, o campeão da Moto2 Francesco Bagnaia contratado pela Ducati para pilotar para a Alma Pramac, Miguel Oliveira com uma KTM na Tech3, satélite da fábrica austríaca. Joan Mir como companheiro de Alex Rins na Suzuki e Fabio Quartararo vai defender com Franco Morbidelli as cores da nova equipe Petronas, satélite da Yamaha. As equipes indepentes LCR Honda Castrol, KTM Tech3, Alma Pramac e Petronas Yamaha SRT vão utilizar equipamentos com o mesmo nível de desenvolvimento das equipes oficiais, o que implica em maior competitividade na próxima temporada.

Carlos Alberto Goldani
Porto Alegre – RS

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