Lito Cavalcanti: Vettel se supera a cada corrida

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Vettel e Webber se cumprimentam após a corrida

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Enquanto isso, Alonso e Hamilton parecem surtar

A cada etapa deste campeonato, Sebastian Vettel evolui. Poucos esperavam que ele pudesse reeditar o domínio absoluto do Grande Prêmio de Cingapura, vencido com mais de 30 segundos de vantagem sobre o segundo colocado. Mas ele fez de novo em Abu Dhabi. Mesmo tendo perdido a pole position e a volta mais rápida da corrida, mas outros detalhes mostram que Vettel talvez tenha feito mais e melhor neste domingo.

Batido por Mark Webber no qualify sem que seu carro tivesse qualquer problema, Vettel admitiu ter cometido um erro na curva Um que lhe tirou a chance de conquistar a oitava pole da temporada. Mas se redimiu com uma atuação espetacular. Webber poderia alegar que não ofereceu resistência porque teve um problema no KERS. Mas o australiano reconheceu que Vettel “está em outro planeta, principalmente na administração dos pneus”.

Para Christian Horner, o segredo é a sensibilidade com que Vettel controla os pneus. “Ele está sempre no limite, e mesmo assim gasta menos pneu que os adversários”. De fato, a melhor volta de Vettel com o primeiro jogo foi a quinta, 1min46s407. Na 13ª, uma antes de trocar, ele marcou 1min46s990. Rosberg, que era o segundo, fez o melhor tempo com o jogo inicial na quinta volta, 1min47s373, e assim mesmo o trocou na 10ª, bem antes de Vettel; Webber marcou 1min47s584 na terceira volta e trocou na oitava, seis antes do alemão. Ressalte-se que todos largaram com os pneus macios usados no Q3.

Adrian Newey, diretor técnico da Red Bull, vê outra razão: “Ele trabalha até chegar à perfeição. E vai atingi-la”. Ainda não atingiu? Será que ainda há mais por vir da associação de Vettel a Newey e Horner? Os chefes das outras equipes temem que 2014 seja mais um passeio da Red Bull, por maiores que sejam as mudanças trazidas pelas novas regras. Ross Brawn, o diretor técnico da Mercedes e principal artífice da carreira brilhante de Michael Schumacher, é um deles. “Eles estão utilizando inovações que também devem funcionar bem no próximo ano”, adverte.

Se for assim, Fernando Alonso irá à loucura – se é que ainda não foi. O Alonso que se tem visto ultimamente nem de longe lembra o piloto de antes. Em Abu Dhabi, ele protagonizou o lance mais controvertido da corrida depois da segunda troca de pneus. Superado por Felipe Massa pela quinta vez nas seis últimas provas de classificação, o espanhol alegou que o brasileiro acerta o carro para o qualify e ele para a corrida, e que o que valem são os pontos obtidos nos domingos, não a posição no grid. Não se pode lhe negar razão.

Mas na hora da corrida, ele se viu atrás do companheiro da primeira volta até o brasileiro parar para sua segunda troca, na 38ª volta. Alonso parou na 44ª e voltou à pista do lado esquerdo de Jean-Eric Vergne, que fazia uma curva para a direita. Sem ver Alonso, à esquerda, Vergne deixou o carro ir até o extremo da pista – e o espanhol preferiu sair do asfalto a aliviar o acelerador. A Ferrari bateu nos quebra-molas que circundam as zebras e voou mas nem assim Alonso tirou o pé: seguiu em frente e ultrapassou Vergne por fora da pista, gerando enorme controvérsia.

Seus defensores citam a regra que manda os pilotos cederem espaço igual à largura de um carro quando um adversário já colocou a asa dianteira na altura de sua roda traseira, posição em que de fato a Ferrari de Alonso se encontrava em relação à Toro Rosso de Vergne. Seus opositores contrapõem outra regra, a que proíbe um piloto de ganhar vantagem ultrapassando a linha branca que demarca os limites do circuito. Alonso ganhou a posição com as quatro rodas fora da pista.

Os comissários esportivos, segundo revelou um membro da FIA à revista italiana Auto Sprint, eram favoráveis à punição de Alonso; o ex-piloto inglês Martin Donnelly foi a voz destoante, mas fez prevalecer sua opinião a favor do espanhol – não se sabe se com ou sem a ajuda do enorme peso político da Ferrari, como insistem alguns. O fato é que a tal fonte da FIA admitiu que, em sua opinião, Alonso deveria cumprir o mesmo drive through imposto a quem cometeu a mesma infração em provas anteriores.

Outro constrangimento para a Ferrari foi ter prejudicado a ótima atuação de Massa. Na sua segunda troca de pneus, quando o brasileiro era quinto e Alonso sexto, foram gastos 3s8, inaceitavelmente lenta para uma equipe que diz ter trocado os pneus de Alonso em 1s8 na Índia. Se a troca tivesse sido um segundo mais rápida, a disputa entre Alonso e Vergne teria ocorrido atrás de Massa, e os dois pilotos da Ferrari voltariam a disputar a posição na pista. Mas até ali superar Massa pareceu estar além do alcance de Alonso. Erro ou acerto da Ferrari?

Felipe ainda reclamou de lhe terem dado pneus duros na última parada, quando ele esperava os macios, 1s5 mais rápidos. A equipe argumenta que ainda faltavam 17 voltas e os macios não resistiriam até o fim. Só que Felipe tinha feito 18 voltas com o primeiro jogo (o mesmo usado no Q3), quando carregava bem mais combustível. De novo, erro ou acerto da Ferrari?

Massa foi o oitavo e Alonso, o quinto. Se Massa chegasse em sexto, a Ferrari estaria sete pontos atrás da Mercedes no Mundial de Construtores, mas está a 11 quando só restam duas corridas para o fim do campeonato. Para a Ferrari, ser pelo menos vice-campeão é uma questão de honra, principalmente depois de Luca de Montezemolo ter exigido isso publicamente. Com base nisto, o brasileiro se recusa a aceitar que a equipe fez o que fez de propósito, insiste que foi apenas um erro. Fim de discussão.

Não é apenas Alonso que parece estar surtando por causa de Vettel e seu Red Bull. O mesmo se vê em Lewis Hamilton. Ainda capaz de voar nos qualifies, desta vez o inglês da Mercedes foi relegado ao quarto posto no grid após a quebra de um triângulo da suspensão traseira. E na corrida, nem de longe lembrou o piloto que é, enquanto o companheiro Nico Rosberg foi o terceiro. Nas últimas três corridas, Rosberg somou 37 pontos contra 14 de Hamilton, e é por ele que a Mercedes está em posição de força diante da Ferrari na luta pelo segundo lugar no Mundial de Construtores.

A diferença entre segundo e terceiro entre os construtores é de sete milhões de dólares, e quem parece excluída desta luta é quem mais precisa, a Lotus. Ela chegou a Abu Dhabi com um déficit de 28 pontos em relação à Mercedes, mas depois da batida de Kimi Raikkonen na primeira volta e da tática errada relegar Romain Grosjean ao quarto lugar, a desvantagem subiu para 37. Em teoria, ainda há 86 pontos em jogo – 43 em cada etapa, correspondente à soma dos 25 do primeiro lugar aos 18 do segundo.

A Lotus só pode culpar a si mesma por esta situação. Kimi Raikkonen foi desclassificado do quinto lugar no grid por quebra de um dos suportes do assoalho, que cedeu mais que o limite de cinco milímetros quando submetido à carga de 250 quilos de baixo para cima. Quando cede, o assoalho permite que toda a frente do carro se abaixe, gerando eficiência maior tanto do extrator quanto da asa traseira.

A Lotus alegou que o suporte esquerdo se rompeu por causa dos choques contra as zebras. O mesmo problema havia ocorrido no GP da Hungria com o carro de Grosjean e, na ocasião, a explicação foi considerada cabível. Mas a nova ocorrência do problema sugeria intenção de se beneficiar. Por isso, Kimi foi removido da quinta para a última posição de largada.

Difícil de entender foi a decisão da Lotus de mantê-lo no fundo do grid em vez de fazê-lo largar dos boxes. Já se sabia que a baixa velocidade final de seus carros dificultariam as ultrapassagens – no qualify, Massa havia sido o mais veloz, com 319,9 km/hora; Kimi havia sido o 20º de 22 carros, com 309,5 km/h (Grosjean foi o 21º, com 309,4, só mais rápido que o Marussia de Chilton).

A lógica seria tirar o carro do parque fechado e alongar a sétima marcha para ganhar velocidade nas retas. Mesmo que isso obrigasse Kimi a largar dos boxes, era a melhor decisão – que ainda o livraria das costumeiras batidas do pelotão de trás nas primeiras curvas. Não deu outra: na ânsia de superar os Caterham (mais velozes nas retas), o finlandês bateu em Giedo van der Garde na primeira curva e quebrou o tirante da direção.

Por seu lado, Grosjean parecia ter chances de chegar ao quarto pódio seguido. Sexto no grid, ele superou Hamilton e Hulkenberg e fechou a primeira volta em quarto, atrás de Vettel, Rosberg e Webber. Estava claro que, com a suavidade de seu carro no trato dos pneus, poderia fazer uma só troca, como na Índia, o que lhe permitiria lutar até pelo segundo lugar.

Mas, inesperadamente, Grosjean foi chamado para trocar pneus já na oitava volta. Ele poderia tê-los mantido pelo menos até a 20ª e só então passar dos macios para os duros e com eles cobrir as 35 voltas restantes. Mesmo que o desempenho caísse na fase final, ele estaria muito à frente de Rosberg, já que suas paradas nos boxes demoraram, respectivamente, 21s627 e 22s286. Como ele chegou a apenas 1s152 de Rosberg, uma troca a menos lhe teria garantido o terceiro lugar.

Mas a Lotus tem como atenuante o fim de semana de cão que enfrentou. Primeiro, quando surgiram os boatos de que Kimi não apareceria para a corrida – infundados, já que desde antes do GP da Índia sua chegada estava prevista para a tarde da quinta-feira. Uma vez na pista, o finlandês piorou a situação ao declarar à imprensa que não recebera um único centavo de salários nem da bonificação por pontos que lhe são devidos – algo avaliado entre 15 e 20 milhões de euros.

Ao fim e ao cabo, a equipe, o piloto e seu empresário, Steve Robertson, chegaram a um acordo e Kimi não só correu como afastou a hipótese, por ele antes aventada, de ficar fora dos GPs dos EUA e do Brasil. Para completar o alívio, o contrato entre a Lotus e o grupo financeiro Quantum chegou a bom termo e a contratação de Nico Hulkenberg parece ser agora uma questão de poucos dias.

Também Sergio Perez, que pela segunda vez consecutiva superou Jenson Button facilmente, parece ter assegurado sua permanência na McLaren por mais um ano. Assim, oficialmente resta apenas um lugar na F1, o deixado vago por Hulkenberg na Sauber. Mas persistem dúvidas em duas equipes que ainda não se pronunciaram, a Force India e a Williams, apesar dos fortes indícios em contrário nesta última – e, claro, na Caterham e na Marussia.

Pastor Maldonado, que teria um cheque que, dependendo da fonte, pode ir de 30 a até 55 milhões de dólares, mudou o tom neste fim de semana e deixou de se queixar tão veementemente da Williams. Mais que isso, passou a admitir até ficar por lá – o que pouparia a trabalheira dos advogados da equipe para fazer valer a multa de rescisão contratual com a PDVSA, a petroleira que banca o venezuelano na F1.

De fato, a Williams ficou bem mais atraente desde que o sonho de ver Ross Brawn dirigindo a histórica equipe passou a ser compartilhado pelo próprio Sir Frank Williams. Ele admitiu para a TV inglesa Sky F1 que se Brawn estiver disponível, ele lhe faria uma proposta. Mas fez uma ressalva quanto às suas possibilidades de bancar os salários de uma estrela de tal grandeza.

Outro fator que parece ter levado Maldonado a rever sua disposição de deixar a Williams é não ser mais o único piloto com um cheque gordo nas mãos. Ameaçado de perder o lugar na Marussia para o dinamarquês Kevin Magnussen, campeão da F Super Renault e pupilo da McLaren, o bem-nascido inglês Max Chilton tem 12 milhões de dólares e está negociando com a Force India, que parece inclinada a dispensar o escocês Paul di Resta.

Estes são os temas que devem preencher as lacunas da Fórmula 1 até o GP dos EUA, no dia 17. Lá, Hamilton conseguiu tirar a liderança de Vettel e ganhou a corrida do ano passado. Mas pelo que o alemãozinho nas últimas sete corridas, a disputa vai ser, na melhor das hipóteses, pelo segundo lugar.

Lito Cavalcanti

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