Jorge Lorenzo na Ducati

Lorenzo e Ducati

Lorenzo e Ducati

Colaboração: Carlos Alberto Goldani

Não há como contar a história da Fórmula 1 sem mencionar o nome de Frank Williams. Quando em 1977, juntamente com Patrick Head, fundou a Williams Grand Prix Engineering, o mundial de Fórmula 1 era um campeonato de construtores, sem a vinculação com fábricas e o viés comercial dos dias atuais. Na concepção de “Sir” Williams, em 1999 recebeu da Rainha da Inglaterra o título de “Knight” (Cavalheiro), o carro era mais importante que o piloto, por isto quando Nelson Piquet (1987), Nigel Mansell (1992), Alain Prost (1993) e Damon Hill (1996) conseguiram seus títulos mundiais, os contratos não foram renovados para a temporada seguinte. A Fórmula 1 evoluiu e, embora o carro ainda seja fundamental, cresceu a importância do lucro, dos contratos e dos advogados. Ordens de equipes reorientando colocações na pista expressas em rígidos contratos foram incorporadas ao cotidiano das provas e, contra as ideias de “Sir” Williams, nos dias atuais o protagonismo é dos pilotos. O mesmo acontece na MotoGP.

Jorge Lorenzo entende que só duas proezas poderiam aproximá-lo do respeito que a carreira e o carisma de Valentino Rossi impõem, conquistar seis campeonatos pela Yamaha (mais que o italiano) ou fazer o que ele não conseguiu, vencer por uma fábrica italiana. A segunda hipótese agrega um ganho extra, Lorenzo tem a exata noção que é um ídolo na Espanha, é reconhecido em todo a planeta como um dos pilotos mais competentes da atualidade, menos na Itália onde seus méritos são questionados e seus títulos atribuídos a fatores estranhos às pistas (acidente de Rossi em 2010, de Stoner em 2012 e conluio ibérico em 2015). Vitórias a bordo da máquina vermelha provavelmente serão suficientes para reverter este panorama e, vencer um título mundial que a equipe persegue desde 2007 é um passaporte para conquistar em definitivo a boa vontade da mídia italiana.

Mais, Lorenzo sabe que ao renovar com Rossi até a sua provável aposentadoria, a Yamaha praticamente garantiu ao italiano a sua condição futura de embaixador da marca, algo semelhante ao que Michael Schumacher estava sendo preparado para a Mercedes (Fórmula 1) antes de seu acidente de esqui nos Alpes Franceses. Lorenzo sabe que essa porta fechou e busca alternativas.

O espanhol e sua assessoria estão convencidos que, nas condições atuais, só vitórias nas pistas não conseguiriam reverter a maior notoriedade de Rossi. Em seus títulos de 2010, 2012 e 2015 ele competiu pela mesma equipe, com o mesmo equipamento, venceu o italiano e isto não foi suficiente para sequer arranhar a diferença de popularidade entre eles. Lorenzo também sabe que o ambiente na equipe está pesado e uma disputa interna pode reeditar a luta fratricida na Williams (F1) de Piquet e Mansell em 1986, que perderam o campeonato para Alain Prost (McLaren). Só uma proeza extraordinária, vencer onde Valentino fracassou, teria condições para tentar equilibrar a disputa.

A história do mundial de motovelocidade, desde o seu início em 1949, concentrou títulos nas mãos de poucos pilotos. Nos anos 50 Geoff Duke e John Surtees, entre 1960 e 1975 Mike Hailwood e Giacomo Agostini, depois veio a invasão americana com Kenny Roberts, Freddie Spencer, Eddie Lawson e Wayne Rainey, até o pentacampeonato do britânico Michael Doohan. O início deste século foi totalmente dominado por Valentino Rossi. Jorge Lorenzo imaginava ser o nome da década de 2010 e foi atropelado pelo fenômeno Marc Marques que, com apenas 23 anos, já venceu 4 campeonatos de 8 disputados, média superior à de Rossi (9 em 20) e de Lorenzo (5 em 14).

As esperanças de Lorenzo em conquistar seu quarto título pela Yamaha foram fortemente abaladas pelos resultados do piloto da Honda nas provas iniciais. Embora Lorenzo tenha conseguido abrir uma vantagem confortável de 2 seg no Catar, as duas vitórias de Márquez com seis a sete segundos de diferença para Rossi em Rio Hondo e dele próprio no Circuito das Américas dispararam um alerta. Na MotoGP seis segundos são uma eternidade, correspondem a mais de 250 metros na pista. O quanto disto deve ser creditado ao piloto e o quanto é devido ao equipamento vai ser respondido nas próximas provas.

A temporada de 2016 está no início, porém o cenário é muito diverso do desenhadop nos testes de inverno. A exclusividade de vitórias da Yamaha e Honda aparentemente nunca esteve tão ameaçada. É inegável que as especificações do regulamento técnico tornaram as motos mais equilibradas e, nesta condição, a competência do piloto faz a diferença.

Jorge Lorenzo acredita que tem giz no taco, confia na estabilidade da Ducati sob a administração da Audi e no desenvolvimento da Desmosedici GP 2017 orientado por Casey Stoner. Na nova equipe, imagina que possa assumir o lugar que julga ser seu na história da MotoGP.

Carlos Alberto Goldani
Porto Alegre – RS

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